Uma vacina experimental contra o vírus chikungunya (CHIKV), desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade de Bonn (Alemanha), apresentou resultados promissores em estudos pré-clínicos e pode servir como base para novos imunizantes virais.
Diferentemente das vacinas atualmente disponíveis, que utilizam vírus vivos atenuados, o novo protótipo foi desenvolvido por engenharia genética. A estratégia consistiu na remoção do trecho do genoma viral responsável pela maturação do vírus, etapa essencial para sua infectividade, tornando-o incapaz de se disseminar no organismo.
Em testes com camundongos, a vacina demonstrou 100% de proteção contra a infecção, além de induzir forte resposta imunológica sem eventos adversos. Os resultados sugeriram potencial aplicação segura em diferentes grupos populacionais, incluindo crianças, idosos e pacientes imunocomprometidos, populações que hoje têm restrições para uso de vacinas atenuadas.
O diferencial da abordagem está na modificação do sítio de clivagem da furina, uma protease do hospedeiro essencial para ativação do vírus. Os pesquisadores substituíram essa região por um sítio reconhecido pela protease TEV, originada de um vírus vegetal, que não atua naturalmente em células humanas.
Com isso, o vírus vacinal só pode completar sua maturação em ambiente controlado, em laboratório, permanecendo não infeccioso no organismo. Apesar de ainda conseguir infectar células uma única vez, ele não é capaz de gerar novas partículas infectantes, funcionando apenas como estímulo antigênico.
Os experimentos demonstraram:
- 100% de sobrevivência em camundongos vacinados após desafio com vírus selvagem;
- Redução significativa da viremia e das manifestações inflamatórias;
- Produção de anticorpos cerca de nove vezes maior em comparação com vírus não modificado;
- Ausência de sinais de doença, inclusive em animais jovens e imunocomprometidos.
Além disso, a incapacidade de maturação do vírus mesmo em mosquitos Aedes aegypti reforça o perfil de biossegurança da estratégia.
Segundo os autores, a tecnologia tem potencial para ser aplicada a outros vírus que dependem de processos semelhantes de maturação, como o vírus da zika. A proposta pode representar uma nova plataforma vacinal, combinando alta imunogenicidade com maior segurança em comparação às vacinas vivas.
A chikungunya é uma arbovirose endêmica no Brasil desde 2014, com mais de 125 mil casos registrados no último ano. Embora já existam vacinas aprovadas, seu uso ainda é limitado a faixas etárias específicas devido ao risco, ainda que baixo, de doença associada ao vírus vacinal.
A vacina ainda está em fase experimental e necessita de validação em estudos adicionais antes de avançar para ensaios clínicos em humanos. Os pesquisadores seguem avaliando a tecnologia em outros modelos virais, com foco em ampliar suas aplicações na prevenção de arboviroses emergentes.
Fonte: Vacina experimental da chikungunya pode ser nova plataforma contra outras doenças – Jornal da USP