O ritmo circadiano é um componente fundamental da biologia humana, exercendo regulação direta sobre o sono, o metabolismo e a função cardiovascular. Evidências científicas demonstraram que interrupções no alinhamento circadiano foram associadas a prejuízos na saúde cardiometabólica. Embora a literatura já estabeleça que tanto a atividade física quanto a duração adequada do sono sejam essenciais para a redução do risco de doenças cardiovasculares (DCV) e mortalidade, a saúde do sono deve ser compreendida como um conceito multidimensional. Além da quantidade e qualidade, a American Heart Association destacou que a regularidade, o timing, a continuidade e a satisfação do sono são elementos vitais para a homeostase cardiovascular. Estudos recentes indicaram que ritmos inconsistentes e variações significativas na duração do sono entre as noites aumentaram o risco de eventos como infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral, independentemente de fatores genéticos.
A crescente disponibilidade de dispositivos vestíveis (wearables) trouxe novas oportunidades para monitorar esses comportamentos de forma objetiva e com alta resolução temporal no cotidiano dos pacientes. Isso permitiu o desenvolvimento de métricas específicas, como o desvio padrão (DP) do tempo de sono, que oferece uma medida direta da variabilidade de comportamentos específicos, como o horário de deitar ou de acordar.
Nesse contexto, Nauha e colaboradores (2026) realizaram um estudo com objetivo de investigar se a variabilidade no horário de deitar, de acordar e no ponto médio do sono seria capaz de predizer a incidência de eventos cardíacos adversos maiores (MACE) e mortalidade por DCV em um acompanhamento de 10 anos.
Os dados do estudo foram provenientes do Northern Finland Birth Cohort 1966, uma coorte populacional prospectiva que acompanha indivíduos nascidos no norte da Finlândia desde 1966. A análise incluiu 3.231 participantes (39,5% homens) que compareceram ao acompanhamento de 46 anos realizado entre 2012 e 2014. Para garantir a precisão dos dados, foram incluídos apenas aqueles que consentiram no uso de acelerometria e forneceram registros de monitoramento válidos.
A avaliação da exposição ao sono foi realizada de forma objetiva por meio de um acelerômetro de pulso (Polar Active) utilizado continuamente por 14 dias. A partir de um algoritmo validado de detecção de sono baseado em equivalentes metabólicos (METs), foram extraídos os horários de deitar, de acordar e o ponto médio do sono. A regularidade do sono foi então quantificada através do desvio padrão (DP) dessas três variáveis ao longo dos primeiros sete dias de monitoramento, permitindo capturar a variabilidade entre dias úteis e finais de semana. Com base nesse desvio padrão, os participantes foram classificados em tercis de regularidade: "regulares", "moderadamente regulares" e "irregulares".
O desfecho principal, definido como MACE, foi monitorado por um período de dez anos (até dezembro de 2023) através de registros nacionais de saúde e de mortalidade finlandeses. Esse foi composto por infarto agudo do miocárdio, angina instável, acidente vascular encefálico, hospitalização por insuficiência cardíaca ou morte por causas cardiovasculares. Variáveis clínicas e sociodemográficas foram coletadas em exames físicos e questionários, incluindo índice de massa corporal (IMC), pressão arterial sistólica, hemoglobina glicada (HbA1c), colesterol LDL e nível de atividade física total.
Ao longo de um acompanhamento médio de 130,1 meses (pouco mais de 10 anos), foram registrados 128 MACEs, o que corresponde a uma incidência cumulativa de 4,0% na amostra estudada. Os participantes que apresentaram desfechos clínicos desfavoráveis exibiram, no baseline, valores medianos significativamente mais elevados de IMC (28,2 kg/m²), pressão arterial sistólica (131 mmHg), hemoglobina glicada (5,6 mmol/mol) e colesterol LDL (3,7 mmol/L).
A análise principal revelou que a irregularidade no timing do sono atuou como um preditor de risco cardiovascular de forma estratificada pela duração do repouso. A associação significativa entre o sono irregular e o aumento do risco de MACE foi observada exclusivamente no subgrupo de indivíduos com duração de sono abaixo da mediana da coorte (≤ 7 horas e 56 minutos). Para esses, a irregularidade no horário de deitar foi associada a um risco 2,01 vezes maior de eventos. De forma semelhante, a variabilidade no ponto médio do sono conferiu um risco duas vezes superior em comparação aos indivíduos com rotinas regulares.
Por outro lado, a variabilidade no horário de acordar não demonstrou associação estatisticamente significativa com a incidência de MACE em nenhum dos subgrupos analisados. Além disso, para os indivíduos que dormiam acima da mediana (> 7 horas e 56 minutos), a irregularidade no timing do sono não representou um fator de risco adicional para desfechos cardiovasculares, sugerindo um possível efeito protetor da duração adequada do sono contra a inconsistência de horários.
Sendo assim, a regularidade do timing do sono foi um preditor clínico relevante para o risco de MACE em adultos de meia-idade. O achado central indicou que a irregularidade nos padrões de sono foi associada a um risco cardiovascular significativamente elevado, mas de forma específica: esse manifestou-se predominantemente em indivíduos que apresentaram uma duração de sono abaixo da mediana da amostra (≤ 7 horas e 56 minutos). Nesse subgrupo, a variabilidade excessiva no horário de deitar ou no ponto médio do sono dobrou o risco de MACE, uma associação que persistiu mesmo após o ajuste para fatores de risco tradicionais, como IMC, pressão arterial, níveis lipídicos e atividade física.
Um diferencial importante desta pesquisa em relação à literatura prévia é a análise de dimensões comportamentais isoladas e interpretáveis, em vez de índices compostos de regularidade. Essa abordagem permitiu identificar que a variabilidade no horário de acordar não possui associação estatística com a incidência de MACE, sugerindo que a consistência no início do sono (horário de deitar) pode ser mais crítica para a homeostase cardiovascular e a recuperação fisiológica do que a regularidade do despertar. Assim, o controle do horário de deitar surge como um alvo terapêutico e preventivo mais acionável em intervenções de saúde pública e na prática clínica.
Outro ponto de destaque na discussão foi o papel protetor da duração adequada do sono. Os dados sugeriram que dormir mais de oito horas pode mitigar os efeitos deletérios da irregularidade no timing, conferindo uma espécie de resiliência fisiológica contra o desalinhamento circadiano. No entanto, os autores ponderam que essa relação ainda carece de maior investigação, uma vez que estudos em outras coortes indicaram que a duração do sono nem sempre é capaz de compensar totalmente os riscos de um padrão irregular.