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Publicado el 15 de julio de 2026

Disfunção olfatória

Uso de GLP-1 associado a alterações do olfato e do paladar

Pacientes que utilizaram os agonistas do receptor de GLP-1 apresentaram uma taxa 81% e 52% maior de desenvolvimento de distúrbios do olfato e do paladar, respectivamente, em comparação com os aqueles que utilizaram outros medicamentos antidiabéticos.

Autor/a: Jonathan Zontag e Nir Zontag

Fuente: JAMA Otolaryngol Head Neck Surg, 2026 Smell and Taste Disturbances Among Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonist Users

Os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1 RAs) ganharam popularidade na última década tanto para o controle glicêmico quanto para a perda de peso. Embora diversos eventos adversos tenham sido relatados entre seus usuários, pouco se sabe sobre seu potencial impacto na percepção do olfato e do paladar. Por isso, Zontag e Zontag (2026) avaliaram a associação dessa classe farmacológica com alterações do olfato e do paladar.

Para isso, eles desenharam um estudo de coorte retrospectivo multicêntrico, que utilizou registros eletrônicos de saúde de um grande banco de dados (TriNetX Global Collaborative Network) no período de 5 de dezembro de 2017 a 20 de abril de 2026, com acompanhamento de até 2 anos após o início do tratamento. Pacientes (≥18 anos) diagnosticados com diabetes tipo 2 (DM2), sem histórico de distúrbios do olfato ou do paladar, foram divididos em dois grupos: o controle, composto por pacientes que receberam medicamentos para DM2 sem exposição a GLP-1 RAs, e o exposição, composto por pacientes que receberam prescrição de GLP-1 RA após o primeiro diagnóstico registrado de DM2. Foi aplicado pareamento por escore de propensão para equilibrar diferenças demográficas, clínicas e socioeconômicas entre os grupos.

O desfecho primário analisado foi a incidência de distúrbios do olfato e do paladar, identificados por códigos da Classificação Internacional de Doenças (CID), avaliados de forma global e separadamente durante um período de acompanhamento de 3 meses a 2 anos. Razões de risco (hazard ratios, HRs) e intervalos de confiança de 95% (IC95%) foram estimados por meio de análises de regressão de Cox para avaliar o risco de ocorrência desses eventos.

Após o pareamento, cada coorte incluiu 438.474 pacientes (GLP-1 RA: idade média de 57,7 anos; 240.620 mulheres; controle: idade média 57,6 anos; 245.730 mulheres). Pacientes com uso documentado de GLP-1 RA apresentaram maior risco de distúrbios do olfato e do paladar em conjunto (HR, 1,48; IC95%, 1,37–1,61) em comparação com os pacientes do grupo controle pareado. Quando os desfechos foram analisados separadamente, o uso de GLP-1 RA foi associado a um aumento de 81% no risco de distúrbios do olfato (HR, 1,81; IC95%, 1,58–2,07) e de 52% no de paladar (HR, 1,52; IC95%, 1,35–1,71).

Os distúrbios olfativos incluíram anosmia (perda do olfato) e parosmia (percepção distorcida de odores), enquanto os distúrbios gustativos incluíram parageusia (alteração ou distorção do paladar).

Com esses resultados, os autores sugeriram uma associação potencialmente multifatorial, possivelmente envolvendo tanto receptores sensoriais periféricos quanto vias neurais centrais. Segundo eles, o crescente uso dos agonistas do receptor de GLP-1 para controle glicêmico e tratamento da obesidade levanta questionamentos sobre seus possíveis efeitos na função quimiossensorial, uma vez que receptores de GLP-1 estão presentes tanto no bulbo olfatório quanto nas papilas gustativas.

Os pesquisadores destacaram que alterações do olfato e do paladar foram observadas com certa frequência em pacientes com diabetes, sendo tradicionalmente atribuídas à neuropatia diabética e às complicações microvasculares da doença. Contudo, os resultados atuais reforçaram relatos de casos recentes que sugerem que os próprios medicamentos podem contribuir para a disfunção sensorial.

Esses resultados são preocupantes, visto que tanto a função olfatória quanto a gustativa é um importante marcador do bem-estar geral. A disfunção olfatória é um dos marcadores prodrômicos mais confiáveis de doenças neurodegenerativas, como doença de Parkinson e doença de Alzheimer. Além disso, o olfato e o paladar atuam conjuntamente como um sistema de alerta essencial para identificar perigos ambientais e alimentos deteriorados.

Os pesquisadores enfatizaram a importância de aprimorar o aconselhamento dos pacientes, a vigilância clínica e a tomada de decisão compartilhada ao prescrever agonistas do receptor de GLP-1. Para pacientes com diabetes mal controlado, doença cardiovascular ou obesidade grave, os benefícios do tratamento podem superar o risco potencial de distúrbios sensoriais.

Eles também recomendaram que os médicos avaliem a função sensorial basal antes de iniciar a terapia com GLP-1. Essa avaliação deve incluir:

·       Investigação subjetiva da capacidade de sentir cheiros e sabores;

·       Documentação de fatores de risco relevantes;

·       Orientação sobre o potencial risco de perda do olfato.

Ferramentas validadas, como o Smell Identification Test, podem ser consideradas para pacientes de maior risco. Caso ocorra perda olfatória durante o tratamento, recomenda-se reavaliar a relação risco-benefício da terapia e encaminhar o paciente a um otorrinolaringologista, quando apropriado.

Em conclusão, Zontag e Zontag (2026) sugeriram que a terapia com agonistas do receptor de GLP-1 foi associada a um maior risco de alterações do olfato e do paladar, destacando a necessidade de monitoramento mais rigoroso e maior conscientização em saúde pública. Estudos futuros são necessários para validar esses achados e explorar mais profundamente os mecanismos subjacentes a essa associação.