A Organização Mundial da Saúde (OMS) monitora um possível surto de hantavírus a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius, que navegava pelo Oceano Atlântico. Até o momento, três mortes foram registradas e ao menos outras três pessoas apresentam sintomas, sendo uma delas mantida em terapia intensiva em uma unidade de saúde na África do Sul.
Segundo a OMS, um caso já foi confirmado laboratorialmente, enquanto cinco seguem como suspeitos. O sequenciamento viral está em andamento, assim como investigações epidemiológicas e testes adicionais. A organização informou que presta apoio clínico aos passageiros e tripulantes e coordena, junto a Estados-membros e à operadora do navio, a evacuação médica de dois passageiros sintomáticos e a avaliação do risco à saúde pública.
A operadora Oceanwide Expeditions, responsável pela embarcação, confirmou enfrentar uma “situação médica grave”. Uma variante de hantavírus foi identificada no paciente internado em UTI. Além disso, dois tripulantes apresentam sintomas respiratórios agudos, um leve e outro grave, ambos necessitando de atendimento médico urgente.
O navio permanece isolado na costa de Cabo Verde, aguardando autorização das autoridades sanitárias locais para desembarque, triagem e assistência médica. Ao todo, há 149 pessoas a bordo, de 23 nacionalidades, sem registro de brasileiros entre passageiros ou tripulação.
Aspectos clínicos e epidemiológicos
Os hantavírus são vírus zoonóticos da família Hantaviridae, naturalmente associados a roedores. A transmissão ao ser humano ocorre principalmente por contato com urina, fezes ou saliva de roedores infectados, podendo acontecer por aerossóis em ambientes fechados. A transmissão entre pessoas é rara, mas já foi documentada de forma limitada, especialmente com o vírus Andes, em contatos próximos e prolongados.
As manifestações clínicas variam conforme o tipo viral e a região. Nas Américas, predomina a síndrome cardiopulmonar por hantavírus, de evolução rápida e potencialmente fatal, com comprometimento pulmonar e cardiovascular. Na Europa e na Ásia, é mais comum a febre hemorrágica com síndrome renal, com acometimento renal e vascular.
Os sintomas iniciais surgem geralmente entre uma e seis semanas após a exposição e incluem febre, cefaleia, mialgia e sintomas gastrointestinais. Quadros graves podem evoluir para dispneia, edema pulmonar, choque, ou insuficiência renal e distúrbios hemorrágicos.
Diagnóstico, manejo e prevenção
O diagnóstico precoce é desafiador pela semelhança com outras doenças febris e respiratórias. A OMS recomenda anamnese detalhada, com investigação de exposição a roedores, riscos ocupacionais e histórico de viagens. A confirmação depende de testes sorológicos e métodos moleculares na fase aguda.
Não há tratamento antiviral específico; o manejo baseia-se em suporte intensivo e monitoramento rigoroso para controle de complicações, o que é fundamental para reduzir a letalidade.
A prevenção centra-se na redução do contato com roedores, com medidas como vedação de edificações, armazenamento seguro de alimentos e práticas adequadas de limpeza (umedecer áreas contaminadas antes da higienização e evitar varrer a seco). Em contextos de suspeita de surto, a OMS reforça a identificação e isolamento precoces, o monitoramento de contatos e a aplicação de medidas padrão de controle de infecções.