A rinite alérgica local (RAL) é um fenótipo de rinite recentemente proposto que se caracteriza pela presença de IgE específica nasal (IgEs) na ausência de atopia sistêmica demonstrável. A condição apresenta baixa taxa de evolução para atopia sistêmica, mas demonstra uma tendência de progressão para o agravamento dos sintomas e para a asma. O seu diagnóstico fundamenta-se em três pilares: a detecção da referida IgE local, a existência de uma resposta inflamatória do tipo Th2 na secreção nasal e a reatividade positiva em testes de provocação nasal com alérgenos.
Do ponto de vista epidemiológico, a RAL representa uma parcela significativa dos casos anteriormente classificados como rinite não alérgica ou idiopática, os quais compõem mais de 60% dos diagnósticos de rinite não alérgica. Estudos demonstram que o teste de provocação nasal é capaz de identificar a RAL em até 84,6% dos pacientes com testes cutâneos negativos, revelando que muitos indivíduos rotulados como "não alérgicos" possuem, na verdade, uma resposta alérgica localizada, frequentemente desencadeada por ácaros como o Dermatophagoides pteronyssinus.
A sua fisiopatologia é marcada por uma inflamação nasal Th2-dependente, confirmada por estudos de citometria de fluxo que evidenciam o aumento de mastócitos, basófilos, eosinófilos e linfócitos T (CD3+ e CD4+) na mucosa após a exposição ao alérgeno. No quadro clínico, o paciente apresenta sintomas indistinguíveis da rinite alérgica convencional, entretanto, de forma característica, tanto os testes cutâneos (prick tests) quanto a dosagem de IgE sérica resultam negativos.
O diagnóstico é estabelecido por meio de uma história clínica detalhada, associada à demonstração de uma resposta sintomática positiva no teste de provocação nasal com alérgenos e/ou pela detecção direta de IgE específica na secreção nasal. Como ferramenta complementar e objetiva, a rinometria acústica tem sido amplamente utilizada, destacando-se por ser um método não invasivo, seguro e reprodutível que exige mínima colaboração do paciente, o que a torna ideal para o uso em pediatria.
Quanto ao tratamento, a imunoterapia alérgeno-específica (IT) apresenta-se como uma alternativa terapêutica robusta. Estudos indicaram que a IT promove uma melhora clínica significativa, levando à negativação dos testes de provocação nasal após 12 meses de tratamento, acompanhada por um aumento nos níveis séricos de IgG4. O procedimento demonstrou boa tolerância, sem registro de reações adversas graves, resultando em um impacto positivo na qualidade de vida do paciente e na modificação da história natural da doença.
Em conclusão, a RAL consolida-se como um fenótipo clínico distinto e frequente, atingindo grande parte dos pacientes anteriormente rotulados com rinite idiopática, e caracteriza-se por uma resposta inflamatória Th2 e presença de IgE específica local na ausência de atopia sistêmica. Embora o quadro clínico mimetize a rinite alérgica convencional, o diagnóstico preciso exige ferramentas que comprovem a reatividade nasal, como o teste de provocação nasal e a rinometria acústica, visto que os testes cutâneos e a IgE sérica são persistentemente negativos nestes indivíduos. A identificação correta é crucial, pois a RAL é considerada um fator de risco para o desenvolvimento de asma e apresenta tendência à progressão dos sintomas. Contudo, a IT demonstrou ser uma intervenção robusta, capaz de negativar a provocação nasal e modificar a história natural da doença.