O pré-diabetes é definido como um estágio clínico-metabólico com concentrações de glicose mais altas que o normal, mas abaixo do limiar para diagnosticar diabetes mellitus tipo 2 (DM2). Pacientes com a condição têm um risco maior de desenvolver DM2 e doenças cardiovasculares. Além disso, estudos anteriores relataram riscos aumentados como alguns tipos de câncer, como o colorretal, em indivíduos com DM2.
Com objetivo de quantificar o risco de câncer a longo prazo, Zaccardi e colaboradores (2025) desenvolveram um estudo descrevendo a trajetória do pré-diabetes ao diagnóstico do tumor.
Para isso, os autores utilizaram dados do Clinical Practice Research Datalink (CPRD) GOLD, que contém informações de pacientes de cuidados primários do Reino Unido, coletados rotineiramente e não identificados, representativos da população nacional. O estudo incluiu indivíduos com um primeiro diagnóstico de pré-diabetes entre 1º de janeiro de 1998 e 30 de novembro de 2018, com idades entre 18 e 100 anos, ligados aos dados de Hospital Episode Statistics (HES) e Office for National Statistics death registrations na Inglaterra. A coorte final incluiu 328.049 indivíduos após exclusões.
O pré-diabetes foi definido como HbA1c ≥42 a ≤47 mmol/mol ou glicemia de jejum (FPG) ≥5,5 a ≤6,9 mmol/L. Foram extraídas informações sobre idade na data do diagnóstico, índice de massa corporal (IMC), tabagismo, etnia e índice de privação múltipla em nível de paciente (IMD) 2010.
Os indivíduos foram acompanhados a partir da data do diagnóstico até a morte ou 30 de novembro de 2018. Em um modelo multiestado, foram estimadas as probabilidades de ocupação dos estados e os tempos de permanência (tempos de estadia) em oito estados e sete transições (por exemplo, uma transição do estado de pré-diabetes para o estado de câncer; ou três transições do estado de pré-diabetes para os estados de DM2, câncer e óbito).
Em um grupo de 328.049 indivíduos (47,4% mulheres) diagnosticados com pré-diabetes, a idade mediana no diagnóstico foi de 63,5 anos em mulheres e 60,1em homens. A obesidade foi mais comum em mulheres, e havia menos fumantes ativas em mulheres. A maioria das pessoas era de etnia branca.
Durante um acompanhamento médio de 7,7 anos, ocorreram 163.782 transições em 328.049 indivíduos. As taxas de incidência de câncer foram maiores em indivíduos mais velhos (com idade ≥75 anos no diagnóstico de pré-diabetes). Além disso, as taxas de incidência de câncer foram marginalmente maiores naqueles que desenvolveram DM2 em comparação com aqueles com pré-diabetes.
Dez anos após o diagnóstico de pré-diabetes, a probabilidade de permanecer nesse estado variou de 23,2% (homens com idade ≥75 anos) a 72,1% (homens com idade <55 anos). A de morte após a pré-diabetes variou de 1,2% (mulheres com idade <55 anos) a 38,7% (mulheres com idade ≥75 anos). A de desenvolver DM2 variou de 7,9% (homens com idade ≥75 anos) a 24,0% (mulheres com idade <55 anos), e a de desenvolver câncer variou de 1,9% (homens com idade <55 anos) a 7,8% (homens e mulheres com idade ≥65 a <75 anos).
Os indivíduos passaram entre 5,34 (homens com idade ≥75 anos) e 8,34 anos (homens com idade <55 anos) no estado de pré-diabetes durante os 10 anos após o diagnóstico. O IMC, tabagismo, status socioeconômico e etnia foram associados às probabilidades de ocupação e tempos de permanência. Um IMC mais alto foi associado a uma menor probabilidade de permanecer no estado de pré-diabetes e a maiores probabilidades de estar no estado de DM2.
Em conclusão, as trajetórias do DM2 e do câncer após o diagnóstico de pré-diabetes variaram significativamente por idade e, em menor grau, por outros fatores sociodemográficos e de estilo de vida. As estratégias de prevenção e identificação precoce devem ser adaptadas à idade em que a pré-diabetes é diagnosticada.