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Publicado el 10 de marzo de 2026

Fitoterapia baseada em evidências

Qual o poder das plantas no tratamento das viroses?

Explore como produtos naturais de plantas, como flavonoides e alcaloides, potencializam a resposta imune humana e auxiliam no combate a infecções virais globais, do HIV ao SARS-CoV-2.

Autor/a: Srivastava R, Dubey NK, Sharma M, Kharkwal H, Bajpai R e Srivastava R

Fuente: Front. Nat. Prod. 3:1470639, 2025. DOI: 10.3389/fntpr.2024.1470639 Boosting the human antiviral response in conjunction with natural plant products

Introdução

As doenças infecciosas têm desempenhado um papel central na moldagem da civilização humana. Apesar dos avanços na imunização e no desenvolvimento de fármacos, muitos vírus ainda carecem de medidas preventivas ou tratamentos eficazes, cenário frequentemente agravado pelo surgimento de mutações.

Nesse contexto, a busca por novos agentes antivirais torna-se imperativa, e os produtos naturais surgem como um recurso farmacológico de valor inestimável. Diversos estudos sugeriram que esses compostos podem atuar em alvos comuns ou nas interações vírus-hospedeiro de múltiplos patógenos, favorecendo uma abordagem de amplo espectro.

Por isso, Srivastava e colaboradores (2024) realizaram uma revisão com o objetivo de examinar o papel desses metabólitos bioativos na descoberta de novos fármacos e sua eficácia na modulação da resposta imune humana contra invasões virais.

Produtos naturais de plantas

Os produtos naturais de origem vegetal (PNPs) distinguem-se por sua vasta diversidade estrutural e atividades farmacológicas únicas. Quimicamente, esses compostos são organizados em duas grandes categorias: metabólitos primários e secundários. Os primeiros, como carboidratos, proteínas e ácidos nucleicos, são essenciais para a sobrevivência e as funções vitais básicas do organismo vegetal. Em contrapartida, os segundos são fundamentais para a competitividade da planta em seu ecossistema, sendo produzidos em resposta a diversos estresses ambientais e fisiológicos.

Esses metabólitos secundários são subdivididos em quatro classes principais, dependendo de suas vias de biossíntese: compostos fenólicos (que incluem flavonoides, taninos e lignanas), terpenos e esteroides (abrangendo óleos essenciais, carotenoides e saponinas), nitrogenados (como os alcaloides nicotina, morfina e quinina) e sulfurados. Para a indústria farmacêutica, a relevância desses bioativos reside em seu potencial toxicológico e farmacológico, oferecendo benefícios que vão desde o suporte ao sistema imunológico e atividade antioxidante até efeitos anti-inflamatórios e anticarcinogênicos. No âmbito da virologia, os PNPs atuam na modulação da resposta imune, sendo capazes de promover a síntese de citocinas, estimular a atividade de macrófagos e linfócitos T, e ativar genes antivirais específicos. Essa complexidade fitoquímica permite que tais substâncias auxiliem na neutralização de radicais livres e na proteção celular, tornando-as ferramentas valiosas na mitigação de danos causados por patógenos.

Patógenos virais e o sistema imune humano

A defesa do hospedeiro contra essas invasões é articulada por dois pilares fundamentais: a imunidade inata e a adaptativa. A primeira atua como a primeira linha de defesa, sendo não específica e englobando processos como a resposta inflamatória e o sistema complemento. Já a segunda é específica e desenvolvida ao longo do tempo, envolvendo a produção de anticorpos, a ativação de linfócitos, a apresentação de antígenos e a formação de memória imunológica. Contudo, os vírus desenvolveram estratégias sofisticadas de evasão imunológica que altera continuamente as proteínas de superfície e a latência, que permite ao vírus permanecer indetectável dentro das células por longos períodos.

As consequências das infecções virais para o sistema imune podem ser diversas. Certos vírus comprometem diretamente a competência imunológica do hospedeiro, como o HIV, que destrói as células T CD4. Além disso, infecções crônicas como as Hepatites B e C podem levar à exaustão de células T e à ativação imunológica persistente, resultando em danos teciduais graves como a cirrose hepática. Em cenários críticos, como em casos severos da COVID-19, o sistema imune pode desencadear uma imunopatologia conhecida como "tempestade de citocinas", onde uma resposta inflamatória descontrolada causa destruição tecidual sistêmica.

Mecanismos de ação dos produtos naturais na imunidade humana

Os PNPs podem potencializar a resposta antiviral humana através de diversos mecanismos. Por exemplo, a ação antiviral direta ocorre por meio de compostos como flavonoides, alcaloides e terpenoides, que interferem em enzimas e proteínas virais essenciais para o ciclo de vida do patógeno, inibindo sua replicação. Paralelamente, a modulação do sistema imune é alcançada pela promoção da proliferação e diferenciação de linfócitos T e B. Catequinas do chá verde e ginsenosídeos do Ginseng elevam a atividade de macrófagos, células Natural Killer (NK) e células T, fortalecendo tanto a imunidade inata quanto a adaptativa.

Além da modulação celular, os PNPs exercem proteção sistêmica através de suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Polifenóis e flavonoides, como a quercetina, atuam como sequestradores de radicais livres, mitigando o estresse oxidativo e protegendo as células imunes de danos estruturais. No campo da inflamação, compostos como a curcumina inibem o fator nuclear kappa B (NF-κB), um regulador central da resposta inflamatória, equilibrando a produção de citocinas pró-inflamatórias e prevenindo danos teciduais excessivos. Outro mecanismo relevante é o fortalecimento da resposta de interferons, proteínas fundamentais para o bloqueio da invasão viral. Por fim, destaca-se a atividade antitrombocitopênica de alcaloides como a carpaína, que demonstrou capacidade de aumentar a contagem de plaquetas em pacientes com dengue através da modulação da expressão gênica e das respostas de citocinas.

Aplicações dos PNPs no controle das infecções virais

Os PNPs têm se destacado no controle das infecções virais humanas por serem uma alternativa segura e acessível aos tratamentos químicos convencionais, especialmente diante do surgimento de variantes resistentes. Diversas espécies vegetais demonstraram eficácia contra patógenos, como o HIV, onde plantas como Andrographis paniculata, Lindera chunii e Aegle marmelos exibiram atividade antiviral significativa. O flavonoide quercetina é utilizado para fortalecer a imunidade e inibir a replicação de vírus como influenza, herpes simples (HSV) e hepatite C (HCV). No contexto da pandemia da COVID-19, extratos de Lycoris radiata e Artemisia annua foram identificados como potenciais inibidores do SARS-CoV-2.

Os polifenóis constituem uma classe fundamental de PNPs, atuando na interrupção da adsorção viral e na supressão de enzimas como a transcriptase reversa e a RNA polimerase. O resveratrol, presente em uvas, inibe a síntese de proteínas virais da influenza e do HSV, enquanto o galato de epigalocatequina (EGCG) do chá verde impede a entrada e replicação dos vírus das hepatites B e C. A curcumina, derivada do açafrão-da-terra, apresenta um espectro de ação notavelmente amplo, sendo eficaz contra H5N1, SARS-CoV-2, HIV e arbovírus como Dengue (DENV) e Chikungunya (CHIKV). Outras plantas tradicionais, como o manjericão sagrado (Ocimum sanctum) e a equinácea, são valorizadas por sua capacidade de modular o sistema imune e reduzir a severidade de infecções respiratórias.

Além dos compostos fenólicos, os alcaloides e terpenoides desempenham papéis cruciais na farmacopeia antiviral. A licorina, isolada de Lycoris radiata, e a sanguinarina demonstraram capacidade de bloquear a montagem viral e a síntese de RNA em infecções por SARS-CoV e HCV, respectivamente. Entre os terpenoides, a artemisinina é explorada contra as hepatites B e C, enquanto o óleo de orégano, rico em carvacrol e timol, atua na desintegração do envelope lipídico de vírus como o norovírus murino. O alcaçuz (Glycyrrhiza glabra), por meio do composto glicirrizina, interfere na replicação de uma vasta gama de vírus, incluindo o SARS-CoV-2, enquanto o alho (Allium sativum) e seu derivado alicina promovem a inibição da síntese de RNA viral e potencializam a atividade das células imunes.

Óleos essenciais e extratos de plantas como gengibre (Zingiber officinale) e sabugueiro preto (Sambucus nigra) também são amplamente documentados por suas propriedades antivirais diretas, muitas vezes interrompendo a adsorção viral nas células hospedeiras.

Embora os PNPs apresentem um potencial antiviral promissor, sua aplicação clínica em larga escala enfrenta limitações estruturais, como a complexidade química das misturas vegetais, que dificulta a identificação e a padronização dos componentes ativos específicos. A variabilidade na composição desses produtos, influenciada por fatores ambientais e métodos de extração, pode comprometer a reprodutibilidade e a consistência dos efeitos terapêuticos observados. Além disso, muitos bioativos, como a quercetina, sofrem com a baixa biodisponibilidade oral, sendo frequentemente eliminados antes de atingirem concentrações sistêmicas eficazes. Outro desafio reside nos processos regulatórios rigorosos e na escassez de dados clínicos sobre a segurança a longo prazo desses compostos em populações vulneráveis, como gestantes e idosos, o que retarda sua integração à medicina convencional.

No que tange à segurança, é fundamental reconhecer que a origem natural não isenta esses compostos de toxicidade. Por exemplo, o consumo excessivo de alho pode interferir na coagulação sanguínea e causar danos hepáticos, enquanto a terapia com cumarina tem sido associada à elevação de transaminases e hepatotoxicidade em alguns pacientes. Adicionalmente, reações alérgicas que variam de dermatites de contato a quadros anafiláticos graves podem ocorrer em indivíduos sensíveis a determinados fitocompostos.

As perspectivas futuras para a área apontam para a utilização de plataformas biotecnológicas para garantir o suprimento estável e a padronização de compostos de alta pureza. A pesquisa deve focar na compreensão detalhada das vias biossintéticas e na realização de ensaios clínicos robustos que validem a eficácia antiviral in vivo. A estratégia de combinar PNPs com fármacos antivirais convencionais surge como um caminho promissor para gerar sinergismo terapêutico e mitigar o surgimento de cepas virais resistentes. Em conclusão, os PNPs consolidam-se como fontes inestimáveis para o design de novos fármacos e como adjuvantes acessíveis para o fortalecimento da resposta imune humana, desempenhando um papel crucial na resiliência da saúde pública global contra futuras ameaças infecciosas.