A dermatite atópica (DA) é uma doença inflamatória crônica e recorrente da pele, cujo sintoma mais incômodo é o prurido persistente. Esse sintoma afeta significativamente a qualidade de vida e a saúde mental dos pacientes, interferindo no sono, trabalho e atividades diárias.
No Brasil, a prevalência de DA é de 20,1%, a maior entre os países da América Latina. No entanto, há escassez de literatura sobre o impacto do prurido associado à DA na região.
Diante disso, o estudo de Soares e colaboradores (2025) teve como objetivo principal avaliar a prevalência e a gravidade do prurido em pacientes com dermatite atópica. Os objetivos secundários incluíram descrever as características do prurido e seu impacto na qualidade de vida, além de analisar a gravidade clínica da DA e sua relação com as medidas de prurido relatadas pelos pacientes.
Foram incluídos 91 pacientes com DA, entre 14 e 65 anos, atendidos em uma clínica especializada da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, no período de agosto de 2022 a abril de 2023. Os pacientes preencheram os questionários validados de Prurido, ItchyQoL e Patient-Oriented Eczema Measure (POEM), além de classificarem a intensidade do prurido na Escala Numérica de Avaliação de Prurido de Pico (pp-NRS, 0–10). A gravidade da DA foi avaliada por dermatologista utilizando as escalas Eczema Area and Severity Index (EASI) e Validated Investigator Global Assessment for Atopic Dermatitis (vIGA-AD).
A idade média dos pacientes foi de 29 anos, com 56% de indivíduos brancos e 97,8% apresentando prurido com intensidade média de 7,3 na NRS. Sintomas associados incluíram sangramento (71,4%), sensação de calor (63,7%) e dor cutânea (54,9%), indicando maior gravidade e complexidade sensorial da doença. Os locais mais afetados foram braços, antebraços e coxas, e os principais fatores agravantes foram estresse, pele seca e sudorese.
O prurido demonstrou impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes, com média de pontuação no ItchyQoL de 78,9. A DA foi classificada como moderada a grave, conforme avaliação pelas escalas EASI e vIGA-AD. A análise estatística revelou que pacientes de raça asiática apresentaram maior intensidade de prurido, enquanto o gênero feminino esteve associado a maior comprometimento da qualidade de vida. Além disso, o prurido localizado em regiões como pescoço, pés ou distribuído por todo o corpo correlacionou-se com pontuações mais elevadas no ItchyQoL. As medidas de gravidade da DA — EASI, vIGA-AD e POEM — apresentaram correlação moderada tanto com a intensidade do prurido quanto com o impacto na qualidade de vida.
Em conclusão, os pesquisadores reforçaram que o prurido é um sintoma central na DA, com alta prevalência e impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes brasileiros. A correlação moderada entre as pontuações subjetivas de prurido e as medidas objetivas de gravidade da doença destacou o valor clínico desses instrumentos, que ainda são pouco utilizados na prática assistencial na América Latina. Fatores como gênero, localização do prurido, dor associada e estresse devem ser considerados na avaliação e no manejo da doença, pois influenciam diretamente a carga vivenciada pelos pacientes. A incorporação de medidas validadas de prurido aos consensos regionais e à rotina clínica, além da investigação de biomarcadores, pode contribuir para uma abordagem mais precisa e personalizada no tratamento da DA.