Em 2017, a American Gastroenterological Association (AGA), em parceria com outras sociedades científicas, publicou o documento Practice Guide on Obesity and Weight Management, Education, and Resources (POWER), com o objetivo de fornecer aos médicos um modelo multidisciplinar para o manejo individualizado da obesidade. Desde então, o programa tem sido amplamente adotado por centros acadêmicos e serviços privados de gastroenterologia e hepatologia como referência para modelos integrados de cuidado.
Em 2026, Acosta e colaboradores publicaram o POWER 2.0, incorporando os principais avanços da última década no campo da obesidade e das doenças cardiometabólicas. Entre os destaques estão a consolidação dos agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, as evidências sobre terapias bariátricas e metabólicas endoscópicas, a ampliação das indicações de cirurgia bariátrica e os avanços da medicina de precisão para individualizar estratégias terapêuticas.
A obesidade é uma doença crônica, recorrente, heterogênea e multifatorial, caracterizada pelo excesso de tecido adiposo capaz de comprometer a saúde e aumentar o risco de diversas doenças. Recentemente, a Lancet Commission introduziu o conceito de obesidade clínica, definida como uma condição sistêmica em que o excesso de adiposidade provoca alterações funcionais em órgãos e sistemas, podendo resultar em complicações graves e potencialmente fatais.
Nesse contexto, o índice de massa corporal (IMC), embora amplamente utilizado, apresenta limitações para a avaliação individual da adiposidade, devendo ser complementado por medidas como circunferência da cintura e composição corporal. Além disso, a forte associação entre obesidade, diabetes, doenças metabólicas hepáticas e renais e doenças cardiovasculares reforça o conceito de doença crônica de base cardiometabólica.
Os autores também enfatizaram o papel estratégico dos gastroenterologistas e hepatologistas no enfrentamento da obesidade. Esses especialistas frequentemente acompanham pacientes com doença do refluxo gastroesofágico, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), colelitíase, pólipos e câncer colorretal, doença inflamatória intestinal, síndrome do intestino irritável e disbiose intestinal, além de um número crescente de pacientes em uso de medicamentos antiobesidade ou com histórico de intervenções bariátricas.
A atualização do POWER manteve a recomendação de uma abordagem multidisciplinar, baseada em mudanças sustentáveis do estilo de vida, incluindo alimentação adequada, atividade física, sono de qualidade e suporte comportamental. No entanto, os autores ressaltaram que as intervenções comportamentais isoladas frequentemente não são suficientes para promover perda de peso sustentada, tornando necessária a integração de outras modalidades terapêuticas.
Nesse cenário, os agonistas do receptor de GLP-1 transformaram o tratamento da obesidade ao promover perdas de peso superiores a 10% do peso corporal total, associadas à melhora do diabetes tipo 2, hipertensão arterial, apneia obstrutiva do sono e MASLD. Apesar dos resultados expressivos, desafios relacionados ao custo, acesso, adesão ao tratamento e recuperação do peso após a interrupção da terapia ainda limitam seu impacto populacional. Os autores destacaram ainda o potencial da medicina de precisão para identificar quais pacientes têm maior probabilidade de responder a diferentes tratamentos.
As terapias bariátricas e metabólicas endoscópicas (EBMTs) ampliaram as opções terapêuticas para pacientes com obesidade. Entre as modalidades aprovadas pela Food and Drud Administration (FDA) estão os balões intragástricos, a terapia por aspiração, os procedimentos de remodelação gástrica, como a gastroplastia endoscópica vertical (ESG), e as intervenções metabólicas no intestino delgado.
A ESG tem sido uma das técnicas mais estudadas. No estudo MERIT, pacientes submetidos ao procedimento apresentaram perda média de 13,6% do peso corporal total após 52 semanas, manutenção de mais de 80% dessa perda após dois anos, melhora de parâmetros metabólicos e baixa incidência de eventos adversos graves (2%). Além disso, estudos com acompanhamento de até cinco anos demonstraram manutenção média de 15,9% da perda de peso corporal total.
Os balões intragástricos permanecem uma alternativa minimamente invasiva para pacientes selecionados, promovendo perda de aproximadamente 7% a 15% do peso corporal total em 12 meses, além de benefícios metabólicos adicionais.
A cirurgia bariátrica continua sendo a intervenção mais eficaz e duradoura para pacientes com obesidade e comorbidades associadas. Estudos de longo prazo demonstram perda de peso sustentada, redução de doenças relacionadas à obesidade, menor mortalidade e melhora da sobrevida. As diretrizes atuais recomendam o procedimento para indivíduos com IMC ≥35 kg/m², independentemente da presença de comorbidades, além de pacientes com diabetes tipo 2 e IMC entre 30 e 34,9 kg/m², podendo também ser considerado em casos selecionados nessa faixa de IMC.
Os procedimentos mais realizados incluem a gastrectomia vertical (sleeve gástrico), o bypass gástrico em Y de Roux e o duodenal switch, com perdas de peso médias entre 25% e 40% do peso corporal total.
Outro ponto destacado foi o potencial das terapias combinadas. Evidências recentes sugeriram que a associação de agonistas de GLP-1 a intervenções endoscópicas ou cirúrgicas pode proporcionar resultados superiores aos obtidos com cada estratégia isoladamente. Em um dos estudos citados, a combinação de ESG e liraglutida resultou em perda de aproximadamente 24,7% do peso corporal total em 12 meses.
Em relação à segurança, os eventos adversos mais comuns dos agonistas de GLP-1 são náuseas, vômitos e alterações do hábito intestinal. Embora exista preocupação com o retardo do esvaziamento gástrico e o potencial risco de aspiração durante procedimentos, os estudos disponíveis não demonstraram aumento significativo desse risco, reforçando a necessidade de avaliação individualizada.
O artigo também abordou a crescente preocupação com a obesidade pediátrica. Entre as recomendações destacadas estão o rastreamento de MASLD por meio da dosagem de ALT em crianças com 10 anos ou mais, a redução da exposição ao marketing de alimentos não saudáveis, a limitação do consumo de sucos de frutas em crianças com excesso de peso e o uso de semaglutida, liraglutida e fentermina-topiramato em maiores de 12 anos. Associados a intervenções intensivas de estilo de vida, esses tratamentos podem reduzir o IMC em aproximadamente 4% a 16%. Os autores também destacaram o aumento dos procedimentos bariátricos em adolescentes, especialmente da gastrectomia vertical.
Por fim, os autores defenderam que o futuro do tratamento da obesidade passa pela integração de intervenções comportamentais, farmacológicas, endoscópicas e cirúrgicas, associadas à medicina de precisão para identificar a melhor estratégia para cada paciente. Nesse contexto, o POWER 2.0 foi apresentado como uma atualização contínua do modelo original, refletindo a evolução do cuidado da obesidade na era dos agonistas de GLP-1.
Publicado el 20 de octubre de 2026
Obesidade
POWER 2.0: atualização do cuidado da obesidade na era dos GLP-1
Atualização da American Gastroenterological Association (AGA) incorporou avanços em farmacoterapia, terapias endoscópicas, cirurgia bariátrica e medicina de precisão, reforçando a necessidade de uma abordagem multidisciplinar para o manejo da obesidade e das doenças cardiometabólicas.
Autor/a: Acosta, A. et al.
Fuente: Gastroenterology, 2026; 171, 397-403 Revisiting POWER in the GLP-1 Age
Em 2017, a American Gastroenterological Association (AGA), em parceria com outras sociedades científicas, publicou o documento Practice Guide on Obesity and Weight Management, Education, and Resources (POWER), com o objetivo de fornecer aos médicos um modelo multidisciplinar para o manejo individualizado da obesidade. Desde então, o programa tem sido amplamente adotado por centros acadêmicos e serviços privados de gastroenterologia e hepatologia como referência para modelos integrados de cuidado.
Em 2026, Acosta e colaboradores publicaram o POWER 2.0, incorporando os principais avanços da última década no campo da obesidade e das doenças cardiometabólicas. Entre os destaques estão a consolidação dos agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, as evidências sobre terapias bariátricas e metabólicas endoscópicas, a ampliação das indicações de cirurgia bariátrica e os avanços da medicina de precisão para individualizar estratégias terapêuticas.
A obesidade é uma doença crônica, recorrente, heterogênea e multifatorial, caracterizada pelo excesso de tecido adiposo capaz de comprometer a saúde e aumentar o risco de diversas doenças. Recentemente, a Lancet Commission introduziu o conceito de obesidade clínica, definida como uma condição sistêmica em que o excesso de adiposidade provoca alterações funcionais em órgãos e sistemas, podendo resultar em complicações graves e potencialmente fatais.
Nesse contexto, o índice de massa corporal (IMC), embora amplamente utilizado, apresenta limitações para a avaliação individual da adiposidade, devendo ser complementado por medidas como circunferência da cintura e composição corporal. Além disso, a forte associação entre obesidade, diabetes, doenças metabólicas hepáticas e renais e doenças cardiovasculares reforça o conceito de doença crônica de base cardiometabólica.
Os autores também enfatizaram o papel estratégico dos gastroenterologistas e hepatologistas no enfrentamento da obesidade. Esses especialistas frequentemente acompanham pacientes com doença do refluxo gastroesofágico, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), colelitíase, pólipos e câncer colorretal, doença inflamatória intestinal, síndrome do intestino irritável e disbiose intestinal, além de um número crescente de pacientes em uso de medicamentos antiobesidade ou com histórico de intervenções bariátricas.
A atualização do POWER manteve a recomendação de uma abordagem multidisciplinar, baseada em mudanças sustentáveis do estilo de vida, incluindo alimentação adequada, atividade física, sono de qualidade e suporte comportamental. No entanto, os autores ressaltaram que as intervenções comportamentais isoladas frequentemente não são suficientes para promover perda de peso sustentada, tornando necessária a integração de outras modalidades terapêuticas.
Nesse cenário, os agonistas do receptor de GLP-1 transformaram o tratamento da obesidade ao promover perdas de peso superiores a 10% do peso corporal total, associadas à melhora do diabetes tipo 2, hipertensão arterial, apneia obstrutiva do sono e MASLD. Apesar dos resultados expressivos, desafios relacionados ao custo, acesso, adesão ao tratamento e recuperação do peso após a interrupção da terapia ainda limitam seu impacto populacional. Os autores destacaram ainda o potencial da medicina de precisão para identificar quais pacientes têm maior probabilidade de responder a diferentes tratamentos.
As terapias bariátricas e metabólicas endoscópicas (EBMTs) ampliaram as opções terapêuticas para pacientes com obesidade. Entre as modalidades aprovadas pela Food and Drud Administration (FDA) estão os balões intragástricos, a terapia por aspiração, os procedimentos de remodelação gástrica, como a gastroplastia endoscópica vertical (ESG), e as intervenções metabólicas no intestino delgado.
A ESG tem sido uma das técnicas mais estudadas. No estudo MERIT, pacientes submetidos ao procedimento apresentaram perda média de 13,6% do peso corporal total após 52 semanas, manutenção de mais de 80% dessa perda após dois anos, melhora de parâmetros metabólicos e baixa incidência de eventos adversos graves (2%). Além disso, estudos com acompanhamento de até cinco anos demonstraram manutenção média de 15,9% da perda de peso corporal total.
Os balões intragástricos permanecem uma alternativa minimamente invasiva para pacientes selecionados, promovendo perda de aproximadamente 7% a 15% do peso corporal total em 12 meses, além de benefícios metabólicos adicionais.
A cirurgia bariátrica continua sendo a intervenção mais eficaz e duradoura para pacientes com obesidade e comorbidades associadas. Estudos de longo prazo demonstram perda de peso sustentada, redução de doenças relacionadas à obesidade, menor mortalidade e melhora da sobrevida. As diretrizes atuais recomendam o procedimento para indivíduos com IMC ≥35 kg/m², independentemente da presença de comorbidades, além de pacientes com diabetes tipo 2 e IMC entre 30 e 34,9 kg/m², podendo também ser considerado em casos selecionados nessa faixa de IMC.
Os procedimentos mais realizados incluem a gastrectomia vertical (sleeve gástrico), o bypass gástrico em Y de Roux e o duodenal switch, com perdas de peso médias entre 25% e 40% do peso corporal total.
Outro ponto destacado foi o potencial das terapias combinadas. Evidências recentes sugeriram que a associação de agonistas de GLP-1 a intervenções endoscópicas ou cirúrgicas pode proporcionar resultados superiores aos obtidos com cada estratégia isoladamente. Em um dos estudos citados, a combinação de ESG e liraglutida resultou em perda de aproximadamente 24,7% do peso corporal total em 12 meses.
Em relação à segurança, os eventos adversos mais comuns dos agonistas de GLP-1 são náuseas, vômitos e alterações do hábito intestinal. Embora exista preocupação com o retardo do esvaziamento gástrico e o potencial risco de aspiração durante procedimentos, os estudos disponíveis não demonstraram aumento significativo desse risco, reforçando a necessidade de avaliação individualizada.
O artigo também abordou a crescente preocupação com a obesidade pediátrica. Entre as recomendações destacadas estão o rastreamento de MASLD por meio da dosagem de ALT em crianças com 10 anos ou mais, a redução da exposição ao marketing de alimentos não saudáveis, a limitação do consumo de sucos de frutas em crianças com excesso de peso e o uso de semaglutida, liraglutida e fentermina-topiramato em maiores de 12 anos. Associados a intervenções intensivas de estilo de vida, esses tratamentos podem reduzir o IMC em aproximadamente 4% a 16%. Os autores também destacaram o aumento dos procedimentos bariátricos em adolescentes, especialmente da gastrectomia vertical.
Por fim, os autores defenderam que o futuro do tratamento da obesidade passa pela integração de intervenções comportamentais, farmacológicas, endoscópicas e cirúrgicas, associadas à medicina de precisão para identificar a melhor estratégia para cada paciente. Nesse contexto, o POWER 2.0 foi apresentado como uma atualização contínua do modelo original, refletindo a evolução do cuidado da obesidade na era dos agonistas de GLP-1.