Arte & Cultura

Publicado el 7 de septiembre de 2026

Saúde mental

Os períodos de atenção estão realmente diminuindo? O que a ciência diz

As distrações digitais disputam constantemente o foco das pessoas, mas nossa capacidade fundamental de prestar atenção parece permanecer inalterada.

Autor/a: David Adam

Fuente: Nature, 2026 Are attention spans really shrinking? What the science says

Um século antes das proibições às redes sociais e das recomendações para desativar as notificações dos dispositivos, o inventor e escritor de ficção científica Hugo Gernsback propôs uma forma ainda mais radical de evitar distrações: um capacete de madeira isolante. Segundo ele, as influências externas eram “a maior dificuldade com a qual a mente humana tem de lidar”. O dispositivo de isolamento realmente o ajudava a trabalhar, afirmou ele, mas apresentava um risco de sufocamento. Mais tarde, ele instalou um sistema de fornecimento de ar.

As preocupações de que o pensamento sustentado esteja sob ataque tornaram-se ainda mais intensas na era digital. Smartphones vibram constantemente, as abas da internet se multiplicam e os episódios de televisão incluem lembretes frequentes para ajudar o público a acompanhar a trama. Pesquisas sugerem que as pessoas sentem que estão menos capazes de se concentrar, professores relatam alunos distraídos e manchetes afirmam que a capacidade humana de atenção está diminuindo.

No entanto, pesquisas nas áreas de psicologia e neurociência construíram um quadro mais complexo e detalhado sobre o que está acontecendo com a capacidade de atenção. Os resultados sugeriram que a população realmente está alternando entre diferentes tarefas com mais frequência do que faziam em décadas anteriores, e que essa troca constante costuma prejudicar o desempenho. Mas há poucas evidências de que a capacidade fundamental do cérebro de se concentrar tenha sido comprometida. Isso indica que, se conseguirmos reduzir as distrações do ambiente ao nosso redor, é possível recuperar o foco.

A confusão em torno da capacidade de atenção

“Atualmente, diversas pessoas relatam que sentem que não conseguem prestar atenção”, disse Nilli Lavie, neurocientista cognitiva da University College London. “Elas dizem que estão constantemente distraídas, que sua atenção salta de uma coisa para outra e que não conseguem se concentrar.”

Em uma pesquisa realizada em 2021 com mais de 2.000 adultos no Reino Unido, quase metade afirmou sentir que sua capacidade de atenção é mais curta do que costumava ser. E dois terços acreditavam que a capacidade de atenção dos jovens diminuiu.

Professores e escolas ao redor do mundo responderam a essa percepção com aulas modulares, que dividem os temas em partes menores e mais fáceis de absorver. Alguns estudantes agora analisam trechos de obras literárias em vez de ler romances completos. Quando a romancista Elif Shafak questionou por que as palestras TED estavam ficando mais curtas, ela relatou, no ano passado, que lhe disseram que isso ocorria porque “a capacidade média de atenção das pessoas diminuiu”.

A ideia de uma capacidade média de atenção tem um apelo intuitivo. No entanto, a forma como ela é discutida frequentemente confunde conceitos diferentes. Os pesquisadores distinguem entre a capacidade de prestar atenção, ou seja, a habilidade subjacente de uma pessoa para se concentrar em uma tarefa específica, e o comportamento observado no mundo real, isto é, aquilo em que as pessoas efetivamente focam sua atenção de um momento para outro.

Além disso, a capacidade de prestar atenção resulta da interação de diversos processos cerebrais. Entre eles estão a atenção sustentada, que é a capacidade de permanecer envolvido em uma tarefa ao longo do tempo; a seletiva, que permite priorizar determinadas informações e ignorar o restante; e o controle executivo, que possibilita direcionar a atenção de acordo com um objetivo definido, em vez de seguir aquilo que parece mais atraente ou tentador no momento.

A atenção no laboratório

A capacidade de atenção é medida em condições controladas de laboratório, por meio de testes que avaliam o desempenho em uma tarefa ao longo do tempo, geralmente uma atividade repetitiva e pouco estimulante.

Para testar a atenção sustentada, por exemplo, os voluntários podem ser solicitados a observar uma tela que exibe sequências de letras e figuras e identificar mudanças específicas. Uma das tarefas mais conhecidas, chamada teste d2, apresenta linhas contendo letras como d e p, às vezes acompanhadas de pequenos traços acima ou abaixo delas. Os participantes devem marcar apenas a letra d quando ela estiver associada a duas linhas. Essa tarefa exige foco contínuo, atenção aos detalhes e a capacidade de ignorar estímulos semelhantes, mas irrelevantes.

Muitos estudos demonstraram que o desempenho nesse tipo de tarefa começa a declinar após cerca de dez minutos, embora esse não ocorra de forma contínua e uniforme. Mesmo quando a atenção parece forte, ela naturalmente oscila entre períodos de alto desempenho, momentos de distração e subsequentes recuperações.

Outros testes demonstraram que ambientes repletos de distrações, como sons de bebês chorando ou cães latindo, prejudicam o desempenho das pessoas em tarefas cognitivas. Essas descobertas forneceram uma base para compreender o impacto das distrações no mundo real. Análises também mostraram que, por exemplo, acidentes de trânsito são mais prováveis quando motoristas estão falando ao telefone celular.

Os estudos laboratoriais, porém, não encontraram evidências de que a capacidade subjacente de prestar atenção tenha mudado quando as pessoas estão livres de distrações. O que eles revelaram foram diferenças na forma como determinadas pessoas desempenham essas tarefas. Por exemplo, indivíduos que relataram lidar frequentemente com vários fluxos de mídia ao mesmo tempo tendem a obter piores resultados em testes de atenção seletiva, apresentando maior dificuldade para filtrar informações irrelevantes. Eles também demonstram diferenças em testes relacionados à memória de trabalho e ao controle executivo.

Mas essas correlações podem apenas refletir o fato de que indivíduos com diferentes características atencionais tendem naturalmente a alternar o foco com maior frequência. Além disso, essas observações não são capazes de provar que o ambiente digital tenha causado alterações em seus cérebros. Embora os diagnósticos de transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) tenham aumentado nos últimos anos, os pesquisadores geralmente atribuem esse crescimento a mudanças na conscientização sobre o transtorno, no acesso às avaliações e nas práticas diagnósticas, e não a uma mudança subjacente na capacidade de atenção das pessoas.

De modo geral, não há dados convincentes provenientes de testes laboratoriais controlados que sustentem a ideia de que as pessoas se tornaram menos capazes de se concentrar porque sua capacidade de atenção estaria se deteriorando ao longo do tempo.

Medindo a atenção no mundo real

As evidências mais fortes de mudança relacionadas à atenção não vêm de tarefas realizadas em laboratório, mas de medidas do comportamento cotidiano.

Há duas décadas, Gloria Mark, psicóloga da Universidade da Califórnia em Irvine, monitora como trabalhadores de escritório utilizam computadores. Seus estudos, baseados em observação direta e rastreamento digital, mostraram que a duração média da atenção dedicada a uma única tarefa vem diminuindo continuamente. O trabalho de Mark não busca medir a capacidade de manter foco sustentado em um objetivo específico. Em vez disso, ela contabiliza quando e com que frequência os trabalhadores alternam entre tarefas. Essas mudanças não se limitam a distrações triviais que poderiam irritar um chefe. Elas incluem abrir uma nova aba do navegador, verificar e-mails, alternar entre documentos ou dar uma olhada no celular.

Segundo Mark, em meados dos anos 2000 os trabalhadores passavam, em média, cerca de dois minutos e meio em uma tarefa específica na tela antes de mudar para outra. Na década de 2010, esse tempo caiu para aproximadamente 75 segundos. Já no início da década de 2020, era de cerca de 47 segundos, de acordo com seu livro publicado em 2023.

Frequentemente, essas discussões mencionaram um relatório de marketing da Microsoft Canadá, publicado em 2015, que afirmava que a capacidade média de atenção humana havia caído de 12 segundos em 2000 para 8 segundos em 2013. O relatório observava que esse número seria menor do que a capacidade média de atenção de um peixe-dourado, estimada em 9 segundos.

No entanto, as conclusões do relatório, baseadas em pesquisas, observação filmada e dados de eletroencefalografia (EEG), refletiam mudanças nos hábitos digitais e não limitações cognitivas. O próprio documento observava que as pessoas estavam se tornando mais eficientes no processamento de informações.

Além disso, os peixes-dourados foram injustamente difamados nessa comparação: não há evidências de que possuam uma capacidade de atenção excepcionalmente curta, e estudos mostraram que eles conseguem reter algumas informações por vários meses.

As pesquisas de Mark mostraram que a alternância frequente de atenção tem um custo cognitivo. “Quando as pessoas mudam de tarefa, especialmente quando fazem isso com bastante rapidez, como mostram os dados, elas tendem a cometer mais erros”, afirma. “Elas levam mais tempo para concluir qualquer tarefa individual do que levariam se trabalhassem de forma sequencial, e os níveis de estresse aumentam.”

Essa troca constante também modifica o tipo de esforço mental empregado. “Não estamos utilizando tanto aquelas capacidades de reflexão, deliberação e memória de trabalho”, disse. Isso pode levar à sensação familiar de estar constantemente ocupado, mas sem a impressão de realmente avançar.

Cada geração costuma temer que uma nova tecnologia vá prejudicar a capacidade de concentração. “Mas agora estamos na era digital, e eu argumento que desta vez é diferente”, afirmou Mark. Segundo ela, tanto a quantidade de informação disponível quanto a velocidade com que podemos acessá-la mudaram drasticamente. Mais importante ainda, a própria natureza das forças que disputam nossa atenção também mudou.

O ambiente moderno não apenas impõe distrações. Ele nos bombardeia com alternativas que oferecem recompensas mais imediatas. As pessoas alternam de tarefa com tanta frequência e reiniciam seu foco repetidamente porque escolhem fazê-lo, mesmo sem perceber.

“Se as alternativas forem realmente recompensadoras e tiverem alto valor, será muito difícil se concentrar em algo que exija mais esforço subjetivo”, afirmou Michael Esterman, neurocientista da Universidade de Boston, em Massachusetts.

Esse “alto valor”, porém, é definido da perspectiva da psicologia e da neurociência, o que nem sempre corresponde à visão de pais, professores ou gestores. Notificações, mensagens e feeds de redes sociais fornecem ao cérebro doses rápidas de validação social, novidade e informação.

Mark argumentou que esses ambientes digitais altamente recompensadores podem estar alterando nossos hábitos de atenção, incluindo a tendência de nossa mente divagar mesmo na ausência de distrações evidentes. Suas pesquisas sugeriram que as interrupções não têm apenas origem externa, como o som de uma nova mensagem chegando.

“As pessoas têm aproximadamente a mesma probabilidade de interromper a si mesmas quanto de serem interrompidas por fatores externos”, afirmou Mark.

Além disso, quando as interrupções externas diminuem, as internas frequentemente aumentam. Esse padrão sugere que a distração e a alternância constante entre tarefas podem se tornar hábitos, argumenta ela, deixando a atenção mais fragmentada.

Nossos cérebros estão realmente mudando?

Estudos realizados no mundo real, como os de Mark, são complexos demais para fornecer dados precisos sobre aspectos específicos do funcionamento cerebral. Ainda assim, Nilli Lavie também se preocupa com a possibilidade de que essa alternância constante esteja relacionada a um enfraquecimento do controle executivo da atenção. Ela sugeriu que isso pode ter implicações de longo prazo para o cérebro.

Seu trabalho demonstrou que a capacidade de controlar a atenção foi associada a diferenças estruturais no cérebro, especificamente à quantidade de substância cinzenta em regiões do córtex frontal.

Utilizando exames de ressonância magnética (MRI) e testes comportamentais, Lavie demonstrou que indivíduos com maior volume de substância cinzenta nessas áreas apresentam melhor desempenho em tarefas que exigem manutenção do foco e resistência a distrações.

O volume de substância cinzenta também pode ser usado para prever com relativa precisão como uma pessoa se sairá nessas tarefas e pode refletir uma combinação de fatores genéticos e experiências acumuladas ao longo da vida.

Em princípio, esse tipo de medição poderia ser utilizado para detectar mudanças na capacidade de atenção ao longo do tempo ou entre diferentes grupos populacionais. Lavie ainda não dispõe de dados que comprovem isso, e nenhum padrão desse tipo apareceu em estudos laboratoriais controlados. Mesmo assim, ela argumenta que essa possibilidade existe.

“Há a possibilidade de que você exercite essa capacidade e mantenha um bom volume de substância cinzenta”, afirma ela, “ou que não a exercite, e ela diminua”.

Monica Rosenberg estuda uma assinatura cerebral diferente da atenção. Utilizando ressonância magnética funcional (fMRI), que mede a atividade cerebral, sua equipe identificou padrões de conectividade envolvendo diversos sistemas cerebrais, incluindo o córtex frontoparietal, estruturas subcorticais e o cerebelo, que, em conjunto, permitem prever quão bem uma pessoa desempenha tarefas que exigem atenção sustentada.

Essas assinaturas de conectividade se mostram consistentes entre indivíduos, populações e grupos clínicos, como pessoas com TDAH, e podem ser utilizadas para prever o desempenho atencional de pessoas que nunca foram testadas anteriormente.

Mais uma vez, como esses padrões de conectividade conseguem prever o desempenho individual em tarefas de atenção sustentada, a realização repetida de exames nas mesmas pessoas poderia revelar se essa capacidade permanece estável ou se está se alterando ao longo do tempo. Entretanto, os estudos conduzidos por Rosenberg até agora representam apenas retratos momentâneos ou análises de curto prazo, concentradas no desenvolvimento cerebral, e não em mudanças de longo prazo.

Como melhorar o foco

“Se queremos mudar nossa atenção, acredito que mudar nossos ambientes será muito mais eficaz do que tentar mudar a nós mesmos”, afirmou Rosenberg.

Uma estratégia consiste em remover fontes conhecidas de distração externa, especialmente aquelas que oferecem recompensas imediatas e de curto prazo, mesmo quando a distração parece discreta. Em alguns estudos sobre desempenho cognitivo, por exemplo, as pessoas obtiveram resultados piores simplesmente por manter o celular no bolso, mesmo quando o aparelho estava no modo silencioso.

Como a atenção naturalmente se volta para distrações que oferecem recompensas imediatas, outra estratégia consiste em aumentar artificialmente o valor da tarefa que está sendo realizada. Estudos demonstraram que recompensas por precisão e consistência em tarefas de atenção reduzem os lapsos de concentração, diminuem o número de erros e podem retardar o declínio do desempenho ao longo do tempo.

Mas e quando a pessoa já está trabalhando e sendo remunerada? Nesses casos, feedback frequente, desafios pessoais, metas claras e bem definidas podem ajudar a fazer com que precisão e consistência pareçam mais importantes. A percepção de que aquilo que se está fazendo tem significado ou propósito também contribui para manter o foco.

Se a atenção é moldada por hábitos, como sugere Gloria Mark, então também deve ser possível treinar e reverter esses hábitos. Técnicas como a atenção plena (mindfulness) parecem fortalecer a capacidade de perceber quando a mente divaga e trazê-la de volta à tarefa. Pequenas pausas ao longo do trabalho também podem restaurar o desempenho.

Além disso, a distração nem sempre é uma inimiga. Uma descoberta importante dos estudos laboratoriais sobre atenção é que, mesmo quando os participantes não estão expostos a distrações externas, suas mentes continuam divagando, muitas vezes sem que eles percebam que deixaram de focar na tarefa.

Michael Esterman, que há anos estuda essas flutuações da atenção, argumenta que esse “piscar” do foco tem origem em processos internos úteis do cérebro, que podem nos distrair por meio de pensamentos, reflexões repetitivas e preocupações. Períodos de devaneio mental podem favorecer a criatividade, o planejamento e a resolução de problemas, permitindo que o cérebro explore e integre ideias.

A atenção sustentada não apenas está sujeita a lapsos inevitáveis, mas também é influenciada pelo humor, pelo estresse, pelo sono e pela ansiedade. Todos esses fatores afetam tanto o desempenho quanto a forma como as pessoas interpretam suas próprias falhas de concentração. Momentos negativos tendem a ocupar um espaço desproporcional em nossa memória, enquanto episódios de concentração bem-sucedida frequentemente passam despercebidos.

Talvez a conclusão mais importante seja que o desempenho estável observado nos estudos de laboratório sugere que, apesar de todas as distrações e estímulos concorrentes da vida moderna, a capacidade de foco continua disponível quando realmente precisamos dela.

“Nós prestamos atenção de acordo com nossos objetivos”, afirmou Mark.

A questão é: em que nossos objetivos se transformaram?

E, se nada mais funcionar, sempre resta a opção do capacete de madeira.