Arte & Cultura

Publicado el 22 de mayo de 2026

Diagnóstico

O tempo é finito

A história de um diagnóstico de câncer que transformou a maneira de entender trabalho, tempo e presença.

Autor/a: Jenna Taglienti

Fuente: JAMA 2026

Vou começar com algo que talvez surpreenda você.

Sempre fui uma pessoa saudável, e eu acreditava que realmente era. Nunca fumei na vida. Sou esposa, mãe de três filhos, psiquiatra e diretora de um programa de residência, apaixonada pelos meus pacientes e pelos meus residentes.

E então fui diagnosticada com câncer de pulmão.

Quando fui fazer a lobectomia, nem eu e nem meus médicos não achavam que tinha câncer. A lesão havia crescido, sim. Mas estatisticamente? Uma mulher de 45 anos que nunca fumou? Improvável. Fiz a cirurgia presumindo que a lesão pudesse ser inflamatória, talvez uma infecção atípica ou algo raro, porém benigna.

A operação não foi simples. Duas noites no hospital, um dreno torácico, uma dor para a qual eu não estava preparada. Em casa, dormi em uma poltrona porque não conseguia me deitar. Meu marido assumiu tudo, crianças, refeições, organização. Família e amigos ajudaram. Eu me concentrei na recuperação.

Eu não estava ansiosa pelo resultado da biópsia. Nem um pouco. Dez dias depois, abri o portal do paciente. O laudo estava lá.

Li uma palavra: adenocarcinoma. Pensei: isso não pode estar certo. Meu marido estava no sofá assistindo televisão. Eu disse em voz alta, quase casualmente, como se isso pudesse torná-la menor. Ele pegou o laptop da minha mão. “Isso é câncer”, ele disse. Eu parei de ler.

Sentei novamente na poltrona e senti algo mudar, algo para o qual ainda não tinha palavras. O choque ainda parece físico. A semana seguinte virou um borrão de consultas, exames e planos de tratamento.

O medo que todo pai ou mãe carrega silenciosamente veio à tona. A possibilidade de não ver meus filhos crescerem deixou de ser abstrata.

Então veio a quimioterapia. Lembro da primeira infusão: o zumbido das máquinas, a medicação passando pela veia. Tive um pensamento desorientador: passei anos dando tudo ao meu trabalho, no entanto, agora, meu corpo exigia algo que eu não podia negociar.

Eu amava meu trabalho. Ainda amo. Mas eu me dedicava profundamente aos residentes e pacientes. Mais tarde, os residentes disseram que só compreenderam a importância do nosso trabalho juntos quando eu saí.

Isso foi importante para mim. E, ainda assim, o programa continuou. As conferências seguiram acontecendo. As clínicas seguiram funcionando. O sistema se adaptou à minha ausência.

Isso não diminui o significado do meu trabalho. Apenas me lembra que as instituições são projetadas para durar além dos indivíduos. Por outro lado, as famílias não são.

Desde o primeiro dia na faculdade de medicina, aprendemos sobre resistência. Anos de formação com pouco dinheiro e longas horas porque, eventualmente, valerá a pena. A residência reforça essa lição. O esgotamento emocional se torna normal. O cansaço vira prova de comprometimento. A gratificação adiada se torna parte da identidade profissional.

Há nobreza nesse comprometimento, mas a resistência tem um custo silencioso. A caixa de entrada se enche. As reuniões se multiplicam. Pequenos conflitos se acumulam. Problemas são constantes, não dramáticos, apenas contínuos, e o desgaste nos acompanha até em casa.

Eu acredito na medicina. Acredito na formação da próxima geração. O que mudou foi minha disposição de absorver esse desgaste sem questionar.

O significado do meu trabalho é profundo. O da minha presença em casa é insubstituível. Quando confrontada com a possibilidade de que o tempo é finito, a hierarquia se torna clara. A tolerância ao “ruído “diminui.

Nenhum título profissional substitui ver seu filho crescer. A lealdade institucional não me protegeu das consequências de adiar o próprio cuidado. A medicina exige muito, e me entrego profundamente, mas ela não pode levar tudo.

Estou sendo tratada com intenção curativa. Estou esperançosa. Estou forte. Mas sou diferente. Já não estou disposta a continuar adiando a vida.

A medicina pode ter significado extraordinário, mas não substitui estar presente na própria vida. O mundo pode precisar de nós como médicos. Mas quem nos ama precisa de nós como somos.

E esse é um papel que ninguém mais pode ocupar.


Fonte: O Tempo é Finito | Humanidades | JAMA | Rede JAMA