Revirei os olhos por dentro e tentei conter minha frustração quando li o agendamento das quinze horas em minha agenda do ambulatório: “Homem de 37 anos para segunda opinião, câncer de pênis metastático.” Como cirurgião, sabia que aquele paciente deveria estar sob os cuidados da oncologia clínica e que não havia nada que eu pudesse lhe oferecer além de uma confirmação de seu diagnóstico. Além disso, o Yom Kippur começaria ao pôr do sol, e eu queria sair a tempo para a celebração mais sagrada do calendário judaico.
Ao revisar seu histórico, encontrei uma trajetória marcada por oportunidades perdidas. Diagnosticado dois anos antes, ele recusou inicialmente uma cirurgia potencialmente curativa e buscou terapias alternativas no México. Quando retornou aos Estados Unidos, descobriu que já havia metástases nos linfonodos das virilhas e do abdômen.
A quimioterapia de primeira linha, realizada em outro estado, não conseguiu conter o crescimento do câncer, que agora havia se espalhado para os ossos e causava dores significativas. Ele então transferira seus cuidados para um centro oncológico mais próximo, onde recebera um cateter venoso central de inserção periférica para tratamento prolongado com antibióticos devido a infecções no local do tumor, e estava programado para iniciar uma segunda linha de quimioterapia dois dias depois.
Ao entrar no consultório, vi um homem sentado em uma cadeira de rodas profundamente consumido pela doença e pela quimioterapia. Um grande crucifixo dourado pendia de uma corrente em seu pescoço, enquanto sua esposa atenciosa permanecia ao seu lado. Um breve exame físico confirmou o pior: uma grande massa no local de origem do tumor, massas inguinais bilaterais onde linfonodos tomados pelo câncer atravessavam uma pele fina como papel e um odor amargo que impregnava o ambiente.
Quando perguntei como poderia ajudar, sua esposa respondeu: “Só queremos saber se estamos fazendo a coisa certa. Só queremos que ele fique melhor. Que seja curado.”
Naquele momento, percebi que ele não precisava dos meus cuidados cirúrgicos e nem dos cuidados do nosso oncologista clínico, mas de alguém capaz de oferecer humanidade diante de uma doença que não podia ser curada.
Ele e sua esposa não tinham plena consciência da gravidade do quadro. Expliquei que os médicos responsáveis estavam oferecendo o melhor tratamento disponível, mas também senti que precisava dizer algo que ninguém havia conseguido dizer claramente até aquele momento: a doença era extremamente grave e, apesar de todos os esforços, ele poderia não sobreviver.
As lágrimas vieram imediatamente.
Perguntei se tinham filhos. Sim, dois adolescentes. Então os incentivei a passar tempo juntos, conversar, criar memórias e tirar fotografias. Foi um momento de silêncio, dor e honestidade.
Não costumo falar sobre religião nas minhas consultas, mas naquele instante percebi que já havia alcançado os limites do que a medicina poderia oferecer, então tomei como referência o próprio paciente. Perguntei se acreditavam em Deus. Diante da resposta afirmativa, falei com delicadeza sobre a possibilidade de que a vida dele estivesse chegando ao fim e sobre como, às vezes, existem caminhos que fogem ao nosso controle.
Eles choraram. Eu também fui profundamente tocado. Minhas palavras pareciam ao mesmo tempo estranhas e naturais e, de certa forma, até reconfortantes.
Quando deixaram o consultório, levaram consigo um pouco de serenidade no lugar de parte da angústia.
Durante todo o Yom Kippur, continuei pensando naquela consulta. Perguntei a mim mesmo se realmente havia ajudado aquele homem ou se apenas buscava conforto para minha própria consciência. A reflexão me levou a uma verdade fundamental da prática médica: mesmo em uma era de avanços extraordinários, há momentos em que a ciência não pode curar. Nesses momentos, recorremos à empatia, à humanidade e à presença.
Como médicos, nossa maior força não está apenas no conhecimento técnico, mas na capacidade de nos conectarmos com quem sofre, ajudando a curar mesmo quando não podemos mais oferecer uma cura. E, muitas vezes, é justamente nesse espaço que acontece a forma mais profunda de cura possível.