Arte & Cultura

Publicado el 26 de junio de 2026

Desempenho e envelhecimento

O quanto é suficiente?

Uma reflexão do Dr. John F. Steiner sobre desempenho, limites e equilíbrio diante do envelhecimento. 

Autor/a: John F. Steiner

Fuente: JAMA 2026. Farther, Faster, and More Often

No ensino médio, eu era capitão da equipe de natação, mas passei mais de 30 anos longe da piscina para me dedicar à medicina e à pesquisa. Voltei a nadar aos 50, sem objetivo de competir, mas percebi que o esporte ainda exercia um apelo especial sobre minha mente quantitativa. O cronômetro à beira da piscina me atraía para os tempos de volta, as distâncias e as horas na água. Assim, passei a me comparar comigo mesmo, um clássico desenho experimental. 

Com a pandemia da COVID-19, as piscinas fecharam e, ao reabrirem, tive dificuldade para retomar meu desempenho. Descobri uma artrite “osso com osso” no quadril e enfrentei episódios de bradicardia durante os treinos. Com ajuda da medicina, comecei a restabelecer minha rotina de exercíciosHá um ano, me aposentei e hoje nado, em geral, com pessoas mais velhas, em horários tranquilos. Digo com orgulho que estou nadando mais longe, mais rápido e com mais frequência do que antes da pandemiaainda que me perguntem, com base em evidências, se não seria possível fazer ainda mais. 

À primeira vista, tudo isso parece bom, mas nadar também me leva a refletir além da superfície. Ao observar as faixas no fundo da piscina, me perguntoaté que ponto é longe, rápido ou frequente o suficiente? Por que sempre buscamos mais? E como lidarei com o envelhecimento, quando meus tempos inevitavelmente diminuírem? Todas essas questões não tratam apenas de natação, mas, na verdade, de valoresespecialmente quantificação, compensações e renúncia. 

Como muitos médicos e acadêmicos, fui um competidor ao longo da vida, guiado pelo lema “mais longe, mais rápido e mais frequentemente”, perseguindo metas mensuráveis, como admissões universitárias, notasindicadores de qualidade, publicações, cargos de liderança e salários, que tornavam meu progresso fácil de quantificar e avaliar. 

Apesar de alcançar esses objetivos, eles frequentemente me pareciam vazios: notas, provas, métricas clínicas e acadêmicas não refletiam o que realmente importava, e percebi que, ao depender demais de números, deixava escapar o essencial, tanto que minhas escolhas mais gratificantes muitas vezes contrariaram essa lógica de mensuração. 

O filósofo C. Thi Nguyen descreveu a “captura de valores” como a tendência de substituir reflexões sobre valores e escolhas por métricas quantitativasNão há nada errado na mensuração, o problema é quando se aceita as medidas como fins ao invés de meios. Ao reconhecer isso, percebo que até a natação pode reforçar esse viés, especialmente diante do declínio inevitável com a idade, e que, assim como ao longo da minha carreira, onde precisava individualizar os benefícios de tratamentos em relação aos seus riscos, sigo lidando com decisões marcadas por constantes compensações. 

Na aposentadoria, continuo cercado por essas escolhas. Meu corpo sinaliza os limites de nadar maisàs vezes pela rigidez nos ombros, outras quando meu quadril e meu coração vetam minhas ambições. Ao mesmo tempo, o tempo revela seus custos, lembrando-me de que é finito e que cada hora na piscina exclui uma hora em que poderia estar escrevendo um ensaio ou em uma ligação com minha filha. Embora mais exercício possa estar associado a uma vida mais longa, hoje encontro mais sentido no equilíbrio entre as atividades que gosto do que em fazer apenas uma delas com maior frequência. 

Nadar também me obriga a confrontar o envelhecimento e a necessidade de deixar ir. Ao refletir sobre perdas pessoais, decisões profissionais e o futuro, percebo que renunciar não é se render, mas aceitar os limites do corpo e do tempo, reconhecendo que, mesmo mais lento, cada momento na água ainda tem valor, até o dia em que deixarei de nadar. 

Ao observar os melhores nadadores da piscina local, percebo que eles equilibram esforço e resistência da água. Para envelhecer sem lutar contra o inevitável, preciso melhorar minha capacidade de renunciar em muitos níveissilenciando a competição com meu eu passadorespeitando os limites do corpo e abrindo mão da ilusão de controle. 

A água resiste ao movimento, mas também nos sustenta quando flutuamos. Inspirado por essa ideia, reconheço que, independentemente do quanto consiga viver de acordo com meus valores, cada vez que entro na piscina posso reconhecer a boa fortuna que me permite estar ali naquele diaIndependentemente de quão rápido, longe ou frequentemente eu nade, cada vez que coloco meus óculos, posso ainda celebrar os muitos dons do meu tempo na água.