A vitamina D é sintetizada na pele após a exposição à radiação ultravioleta e desempenha um papel fundamental na manutenção dos níveis fisiológicos de cálcio sérico (8,5 a 10,2 mg/dL) e na preservação da integridade óssea. Atualmente, a sua insuficiência, definida como concentrações sanguíneas inferiores a 30 ng/mL, é uma das condições mais prevalentes em pacientes diagnosticados com câncer. Embora meta-análises revelem uma correlação robusta entre a suficiência de vitamina D e a redução nas taxas de mortalidade por câncer, os efeitos da suplementação no desenvolvimento tumoral e na suscetibilidade das células neoplásicas à radiação permanecem objeto de debate devido a resultados clínicos contraditórios.
Do ponto de vista molecular, a ação da vitamina D é mediada pelo receptor de Vitamina D (VDR), um fator de transcrição ativado por ligante pertencente à família dos receptores nucleares. O gene que codifica o VDR está localizado no cromossomo 12 e a proteína resultante possui domínios específicos para ligação ao DNA e ao hormônio. O metabolismo da vitamina D é um processo de múltiplas etapas controladas: as isoformas D2 e D3 são metabolizadas no fígado pela enzima 25-hidroxilase e, posteriormente, nos rins pela 1α-hidroxilase para formar o calcitriol, a forma fisiologicamente ativa. Esse atua através de vias genômicas, ligando-se ao VDR citosólico e formando um complexo com o Receptor de Retinoide X (RXR) para influenciar a expressão de genes-alvo, e vias não genômicas, que envolvem alterações agudas na sinalização de cálcio e na via das Proteínas Quinases Ativadas por Mitógenos (MAPK).
O potencial da vitamina D na prevenção do câncer é sustentadao por evidências de que ela pode sensibilizar células cancerígenas a agentes quimioterápicos, como o 5-fluorouracil (5-FU), ao reduzir a expressão de proteínas antiapoptóticas e enzimas essenciais para a biossíntese do DNA. Além disso, estudos in vitro demonstraram que ela promoveu a diferenciação celular e reforçou o fenótipo epitelial. Dados epidemiológicos observaram um gradiente de risco para certos tipos de câncer relacionado à latitude, sugerindo um papel protetor da vitamina D contra neoplasias colorretais, de mama, rim, pulmão e pâncreas.
| Análogos da vitamina D para o tratamento do câncer |
Embora a vitamina D apresente propriedades antitumorais promissoras, seu uso clínico prolongado em doses terapêuticas é limitado pela ocorrência de efeitos adversos significativos, como a hipercalcemia e o desequilíbrio no metabolismo ósseo. Para mitigar esses riscos e potencializar os benefícios terapêuticos, foram desenvolvidos diversos análogos sintéticos que apresentam baixa eficácia calcêmica, mas atuam como ligantes mais seletivos e potentes do VDR.
Entre os mais estudados, destaca-se o EB-1089 (Seocalcitol), que possui uma capacidade de ligação ao VDR entre 50 a 100 vezes superior à da vitamina D, demonstrando forte potencial de inibição de crescimento em diversos tumores, como os de mama, pâncreas, pulmão e carcinoma hepatocelular. Ele atua promovendo a regressão tumoral por meio da ativação da via Bcl-2/Bax para induzir apoptose e pela regulação de inibidores do ciclo celular, como p21 e p27, sem provocar hiperglicemia. Outro composto relevante é o Tacalcitol (PRI-2191), que tem demonstrado eficácia no tratamento do câncer colorretal, especialmente quando utilizado em combinação com o quimioterápico 5-fluorouracil (5-FU), sensibilizando as células neoplásicas ao tratamento através da regulação do gene CDKN1A.
Outras substâncias apresentam mecanismos de ação específicos e alta seletividade tecidual. O Inecalcitol (TX-522) tem se mostrado promissor na inibição de cânceres de próstata e de células escamosas por meio da ativação de caspases e supressão de efetores oncogênicos como Pim-1, estando atualmente em ensaios clínicos de fase 2 para leucemia mieloide. Na mesma linha, o MART-10 destaca-se como um potente agente para o câncer de mama triplo-negativo, reduzindo o potencial invasivo e metastático ao modular a expressão de E-cadherina e N-caderina. Análogos como o TX527 e o Calcipotriol também são investigados por suas propriedades anti-inflamatórias e capacidade de remodelamento estromal, facilitando a absorção de outros agentes quimioterápicos, como a gencitabina.
Além destes, a classe de análogos Gemini (como BXL0124 e Gemini0097) tem demonstrado alta eficiência antimetastática em modelos de câncer de mama, bloqueando a invasão local de células tumorais. Outros compostos, como o Paricalcitol, mostraram benefícios na diferenciação de células leucêmicas e na indução de apoptose em câncer gástrico. O HY-11 tem demonstrado atividade anti-leucêmica eficaz por induzir a parada do ciclo celular na fase G1 de maneira dependente da dose. Além disso, o efeito antiproliferativo desse composto também foi mediado pela indução de apoptose por meio da via da caspase 3 e pelo aumento da expressão do fator de transformação do crescimento beta (TGFβ).
O doxercalciferol foi testado em combinação com o composto de arsênio KML001 em modelos de leucemia linfóide aguda. A aplicação combinada demonstrou um efeito sinérgico e aumentou o número de células na fase apoptótica tardia. No entanto, o agente não foi testado em outros modelos de tumores sólidos. O maxacalcitol foi testado em células de câncer pancreático. In vitro, a análise mostrou parada do ciclo celular na fase G1, enquanto in vivo, o apresentou crescimento tumoral retardado sem causar hipercalcemia.
| Mecanismos moleculares de inibição do crescimento tumoral pela vitamina D |
A vitamina D e seus análogos exercem efeitos antitumorais através de uma rede complexa de vias de sinalização que culminam na interrupção da progressão neoplásica. Um dos pilares dessa ação é a indução do apoptose, caracterizada por alterações morfológicas como encolhimento celular, fragmentação do DNA e liberação de citocromo c mitocondrial. Embora existam debates sobre a dependência de caspases, evidências indicaram que o calcitriol pode acionar tanto vias dependentes quanto independentes dessas enzimas, como observado em linhagens de câncer de mama (MCF-7), onde a apoptose é induzida por estresse mitocondrial e geração de espécies reativas de oxigênio (ROS). Em carcinomas colorretais, a vitamina D promove a morte celular programada ao elevar a expressão do gene pró-apoptótico BAK e reduzir proteínas antiapoptóticas como Bcl-2 e IAP.
Além da apoptose, a vitamina D atua como um potente agente antiproliferativo, interferindo diretamente no ciclo celular. O principal mecanismo envolve a ativação de inibidores de quinases dependentes de ciclina, como p21WAF1/CIP1 e p27KIP1, que promovem a interrupção das células nas fases G0/G1 ou G2/M. Esses inibidores são alvos diretos do complexo VDR/VDRE. Em tumores de pâncreas e pulmão, o tratamento com vitamina D resulta na redução dos níveis de ciclinas e quinases dependentes de ciclina (CDKs), além de suprimir vias de sobrevivência como a Akt e a MAPK/ERK1/2. A modulação de microRNAs, como o miR-22 e o let-7a-2, também emerge como um componente crítico na regulação negativa da proliferação celular mediada pela vitamina D.
A inibição da metástase representa outra faceta crucial da ação da vitamina D, agindo sobre as etapas de adesão, invasão e migração celular. O EB-1089, por exemplo, restaura a adesão celular em câncer de tireoide ao ativar a fibronectina de maneira dependente de PTEN. A vitamina D também reforça o fenótipo epitelial ao modular a expressão de E-caderina e reduzir a secreção de metaloproteinases de matriz (MMP-2 e MMP-9), essenciais para a degradação da matriz extracelular e invasão tecidual. Em modelos de câncer de próstata e pulmão, a sinalização do VDR reduz o potencial invasivo ao bloquear a transição epitelial-mesenquimal (EMT) e diminuir a adesão celular à vasculatura.
No contexto da diferenciação celular, a vitamina D é capaz de induzir células neoplásicas a recuperarem um fenótipo mais maduro e menos agressivo. Esse efeito é notável em modelos de leucemia mieloide aguda (HL-60), onde o tratamento promove a maturação para o fenótipo de monócitos através da ativação das vias ERK1/2 e JNK. Em carcinomas epiteliais, a diferenciação é estimulada pelo aumento da fosfatase alcalina e da proteína AP-1. Simultaneamente, a vitamina D suprime marcadores mesenquimais, como a vimentina e a N-caderina, enquanto eleva marcadores de diferenciação mamária, como a caseína e a produção de lipídios em linhagens específicas.
Finalmente, a vitamina D desempenha um papel vital na inibição da angiogênese, impedindo que tumores sólidos ultrapassem diâmetros críticos por falta de nutrientes. O calcitriol suprime a expressão e a sinalização do fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), induzindo a apoptose em células endoteliais derivadas do tumor (TDECs). Análogos como o TX-527 também bloqueiam a progressão tumoral pela downregulation de receptores acoplados à proteína G (GPCRs) envolvidos na formação de novos vasos.
| Polimorfismo do gene VDR em cânceres |
Como a ação antitumoral da vitamina D é mediada pelo VDR, as variações genéticas neste receptor tornam-se críticas na eficácia biológica da substância. O gene que codifica o VDR possui cerca de 200 polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs), que podem alterar a sinalização intracelular e impactar os níveis séricos de vitamina D no indivíduo. Entre mais estudadas, destacam-se os polimorfismos Fok1, Bsm1, Apa1, Taq1 e Cdx2.
Evidências sugeriram que polimorfismos específicos estão ligados a riscos aumentados de diversas neoplasias sólidas. O do Cdx2, por exemplo, tem sido associado a um risco global elevado de câncer, enquanto a variante Taq1 apresenta uma correlação robusta com o câncer colorretal. No contexto do câncer de próstata, o polimorfismo Fok1 é considerado um alvo promissor para a predição de risco, especialmente em populações caucasianas. Além disso, em homens asiáticos e afro-americanos, o SNP rs731236 demonstra uma correlação significativa com o risco de câncer prostático, enquanto o genótipo TT da variante Taq1 tem sido associado à progressão para estágios avançados da doença em populações japonesas.
A suscetibilidade ao câncer de mama e de ovário também é influenciada pelo perfil genético do VDR, com polimorfismos como Apa1, Bsm1, Fok1 e Poly(A) exercendo diferentes níveis de impacto. Enquanto o polimorfismo Fok1 está frequentemente associado a um maior risco para esses tumores, o Bsm1 tem sido correlacionado a uma menor incidência de malignidades ginecológicas em certas análises. Outras variantes, como Bsm1, Cdx2 e Taq1, elevam o risco de câncer de pulmão, sendo que o polimorfismo Taq1 demonstra uma ligação específica com neoplasias relacionadas ao tabagismo. Polimorfismos no VDR também afetam o desenvolvimento do melanoma, carcinomas de queratinócitos e o carcinoma de células renais, este último particularmente associado às variantes Apa1 e Fok1 (genótipo FF) em populações asiáticas.
Análises meta-analíticas confirmam que variantes como Fok1, Bsm1, Cdx2, Apa1 e Taq1 são marcadores diagnósticos valiosos para cânceres de pulmão, pele, cérebro e mieloma múltiplo. A etnia emerge como um modificador crítico desse risco genético, com as correlações mais fortes frequentemente observadas em pacientes caucasianos. Diante dessas evidências, ressalta-se a importância de que futuras pesquisas combinem a análise desses polimorfismos genéticos com a mensuração dos níveis séricos de vitamina D e a consideração da ascendência étnica para estabelecer relações causais mais precisas e melhorar os desfechos clínicos.
A vitamina D tem sido reconhecida como um poderoso agente anticancerígeno devido às suas diversas ações inibitórias sobre células tumorais. Embora vários estudos tenham demonstrado os seus efeitos anticancerígenos, mais pesquisas ainda são necessárias. Diversas controvérsias e preocupações precisam ser resolvidas antes que a substância possa ser considerada para o tratamento do câncer.
Publicado el 2 de marzo de 2026
O papel da vitamina D na prevenção e tratamento do câncer
Explore as evidências científicas sobre o papel da Vitamina D e seus análogos na prevenção e tratamento do câncer. Uma revisão técnica sobre mecanismos moleculares, polimorfismos do VDR e inovações farmacológicas para profissionais de saúde.
Autor/a: Dallavalasa S, et al.
Fuente: Cancers, V. 16, N. 20, 2024 Vitamin D in Cancer Prevention and Treatment: A Review of Epidemiological, Preclinical, and Cellular Studies.
A vitamina D é sintetizada na pele após a exposição à radiação ultravioleta e desempenha um papel fundamental na manutenção dos níveis fisiológicos de cálcio sérico (8,5 a 10,2 mg/dL) e na preservação da integridade óssea. Atualmente, a sua insuficiência, definida como concentrações sanguíneas inferiores a 30 ng/mL, é uma das condições mais prevalentes em pacientes diagnosticados com câncer. Embora meta-análises revelem uma correlação robusta entre a suficiência de vitamina D e a redução nas taxas de mortalidade por câncer, os efeitos da suplementação no desenvolvimento tumoral e na suscetibilidade das células neoplásicas à radiação permanecem objeto de debate devido a resultados clínicos contraditórios.
Do ponto de vista molecular, a ação da vitamina D é mediada pelo receptor de Vitamina D (VDR), um fator de transcrição ativado por ligante pertencente à família dos receptores nucleares. O gene que codifica o VDR está localizado no cromossomo 12 e a proteína resultante possui domínios específicos para ligação ao DNA e ao hormônio. O metabolismo da vitamina D é um processo de múltiplas etapas controladas: as isoformas D2 e D3 são metabolizadas no fígado pela enzima 25-hidroxilase e, posteriormente, nos rins pela 1α-hidroxilase para formar o calcitriol, a forma fisiologicamente ativa. Esse atua através de vias genômicas, ligando-se ao VDR citosólico e formando um complexo com o Receptor de Retinoide X (RXR) para influenciar a expressão de genes-alvo, e vias não genômicas, que envolvem alterações agudas na sinalização de cálcio e na via das Proteínas Quinases Ativadas por Mitógenos (MAPK).
O potencial da vitamina D na prevenção do câncer é sustentadao por evidências de que ela pode sensibilizar células cancerígenas a agentes quimioterápicos, como o 5-fluorouracil (5-FU), ao reduzir a expressão de proteínas antiapoptóticas e enzimas essenciais para a biossíntese do DNA. Além disso, estudos in vitro demonstraram que ela promoveu a diferenciação celular e reforçou o fenótipo epitelial. Dados epidemiológicos observaram um gradiente de risco para certos tipos de câncer relacionado à latitude, sugerindo um papel protetor da vitamina D contra neoplasias colorretais, de mama, rim, pulmão e pâncreas.
Embora a vitamina D apresente propriedades antitumorais promissoras, seu uso clínico prolongado em doses terapêuticas é limitado pela ocorrência de efeitos adversos significativos, como a hipercalcemia e o desequilíbrio no metabolismo ósseo. Para mitigar esses riscos e potencializar os benefícios terapêuticos, foram desenvolvidos diversos análogos sintéticos que apresentam baixa eficácia calcêmica, mas atuam como ligantes mais seletivos e potentes do VDR.
Entre os mais estudados, destaca-se o EB-1089 (Seocalcitol), que possui uma capacidade de ligação ao VDR entre 50 a 100 vezes superior à da vitamina D, demonstrando forte potencial de inibição de crescimento em diversos tumores, como os de mama, pâncreas, pulmão e carcinoma hepatocelular. Ele atua promovendo a regressão tumoral por meio da ativação da via Bcl-2/Bax para induzir apoptose e pela regulação de inibidores do ciclo celular, como p21 e p27, sem provocar hiperglicemia. Outro composto relevante é o Tacalcitol (PRI-2191), que tem demonstrado eficácia no tratamento do câncer colorretal, especialmente quando utilizado em combinação com o quimioterápico 5-fluorouracil (5-FU), sensibilizando as células neoplásicas ao tratamento através da regulação do gene CDKN1A.
Outras substâncias apresentam mecanismos de ação específicos e alta seletividade tecidual. O Inecalcitol (TX-522) tem se mostrado promissor na inibição de cânceres de próstata e de células escamosas por meio da ativação de caspases e supressão de efetores oncogênicos como Pim-1, estando atualmente em ensaios clínicos de fase 2 para leucemia mieloide. Na mesma linha, o MART-10 destaca-se como um potente agente para o câncer de mama triplo-negativo, reduzindo o potencial invasivo e metastático ao modular a expressão de E-cadherina e N-caderina. Análogos como o TX527 e o Calcipotriol também são investigados por suas propriedades anti-inflamatórias e capacidade de remodelamento estromal, facilitando a absorção de outros agentes quimioterápicos, como a gencitabina.
Além destes, a classe de análogos Gemini (como BXL0124 e Gemini0097) tem demonstrado alta eficiência antimetastática em modelos de câncer de mama, bloqueando a invasão local de células tumorais. Outros compostos, como o Paricalcitol, mostraram benefícios na diferenciação de células leucêmicas e na indução de apoptose em câncer gástrico. O HY-11 tem demonstrado atividade anti-leucêmica eficaz por induzir a parada do ciclo celular na fase G1 de maneira dependente da dose. Além disso, o efeito antiproliferativo desse composto também foi mediado pela indução de apoptose por meio da via da caspase 3 e pelo aumento da expressão do fator de transformação do crescimento beta (TGFβ).
O doxercalciferol foi testado em combinação com o composto de arsênio KML001 em modelos de leucemia linfóide aguda. A aplicação combinada demonstrou um efeito sinérgico e aumentou o número de células na fase apoptótica tardia. No entanto, o agente não foi testado em outros modelos de tumores sólidos. O maxacalcitol foi testado em células de câncer pancreático. In vitro, a análise mostrou parada do ciclo celular na fase G1, enquanto in vivo, o apresentou crescimento tumoral retardado sem causar hipercalcemia.
A vitamina D e seus análogos exercem efeitos antitumorais através de uma rede complexa de vias de sinalização que culminam na interrupção da progressão neoplásica. Um dos pilares dessa ação é a indução do apoptose, caracterizada por alterações morfológicas como encolhimento celular, fragmentação do DNA e liberação de citocromo c mitocondrial. Embora existam debates sobre a dependência de caspases, evidências indicaram que o calcitriol pode acionar tanto vias dependentes quanto independentes dessas enzimas, como observado em linhagens de câncer de mama (MCF-7), onde a apoptose é induzida por estresse mitocondrial e geração de espécies reativas de oxigênio (ROS). Em carcinomas colorretais, a vitamina D promove a morte celular programada ao elevar a expressão do gene pró-apoptótico BAK e reduzir proteínas antiapoptóticas como Bcl-2 e IAP.
Além da apoptose, a vitamina D atua como um potente agente antiproliferativo, interferindo diretamente no ciclo celular. O principal mecanismo envolve a ativação de inibidores de quinases dependentes de ciclina, como p21WAF1/CIP1 e p27KIP1, que promovem a interrupção das células nas fases G0/G1 ou G2/M. Esses inibidores são alvos diretos do complexo VDR/VDRE. Em tumores de pâncreas e pulmão, o tratamento com vitamina D resulta na redução dos níveis de ciclinas e quinases dependentes de ciclina (CDKs), além de suprimir vias de sobrevivência como a Akt e a MAPK/ERK1/2. A modulação de microRNAs, como o miR-22 e o let-7a-2, também emerge como um componente crítico na regulação negativa da proliferação celular mediada pela vitamina D.
A inibição da metástase representa outra faceta crucial da ação da vitamina D, agindo sobre as etapas de adesão, invasão e migração celular. O EB-1089, por exemplo, restaura a adesão celular em câncer de tireoide ao ativar a fibronectina de maneira dependente de PTEN. A vitamina D também reforça o fenótipo epitelial ao modular a expressão de E-caderina e reduzir a secreção de metaloproteinases de matriz (MMP-2 e MMP-9), essenciais para a degradação da matriz extracelular e invasão tecidual. Em modelos de câncer de próstata e pulmão, a sinalização do VDR reduz o potencial invasivo ao bloquear a transição epitelial-mesenquimal (EMT) e diminuir a adesão celular à vasculatura.
No contexto da diferenciação celular, a vitamina D é capaz de induzir células neoplásicas a recuperarem um fenótipo mais maduro e menos agressivo. Esse efeito é notável em modelos de leucemia mieloide aguda (HL-60), onde o tratamento promove a maturação para o fenótipo de monócitos através da ativação das vias ERK1/2 e JNK. Em carcinomas epiteliais, a diferenciação é estimulada pelo aumento da fosfatase alcalina e da proteína AP-1. Simultaneamente, a vitamina D suprime marcadores mesenquimais, como a vimentina e a N-caderina, enquanto eleva marcadores de diferenciação mamária, como a caseína e a produção de lipídios em linhagens específicas.
Finalmente, a vitamina D desempenha um papel vital na inibição da angiogênese, impedindo que tumores sólidos ultrapassem diâmetros críticos por falta de nutrientes. O calcitriol suprime a expressão e a sinalização do fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), induzindo a apoptose em células endoteliais derivadas do tumor (TDECs). Análogos como o TX-527 também bloqueiam a progressão tumoral pela downregulation de receptores acoplados à proteína G (GPCRs) envolvidos na formação de novos vasos.
Como a ação antitumoral da vitamina D é mediada pelo VDR, as variações genéticas neste receptor tornam-se críticas na eficácia biológica da substância. O gene que codifica o VDR possui cerca de 200 polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs), que podem alterar a sinalização intracelular e impactar os níveis séricos de vitamina D no indivíduo. Entre mais estudadas, destacam-se os polimorfismos Fok1, Bsm1, Apa1, Taq1 e Cdx2.
Evidências sugeriram que polimorfismos específicos estão ligados a riscos aumentados de diversas neoplasias sólidas. O do Cdx2, por exemplo, tem sido associado a um risco global elevado de câncer, enquanto a variante Taq1 apresenta uma correlação robusta com o câncer colorretal. No contexto do câncer de próstata, o polimorfismo Fok1 é considerado um alvo promissor para a predição de risco, especialmente em populações caucasianas. Além disso, em homens asiáticos e afro-americanos, o SNP rs731236 demonstra uma correlação significativa com o risco de câncer prostático, enquanto o genótipo TT da variante Taq1 tem sido associado à progressão para estágios avançados da doença em populações japonesas.
A suscetibilidade ao câncer de mama e de ovário também é influenciada pelo perfil genético do VDR, com polimorfismos como Apa1, Bsm1, Fok1 e Poly(A) exercendo diferentes níveis de impacto. Enquanto o polimorfismo Fok1 está frequentemente associado a um maior risco para esses tumores, o Bsm1 tem sido correlacionado a uma menor incidência de malignidades ginecológicas em certas análises. Outras variantes, como Bsm1, Cdx2 e Taq1, elevam o risco de câncer de pulmão, sendo que o polimorfismo Taq1 demonstra uma ligação específica com neoplasias relacionadas ao tabagismo. Polimorfismos no VDR também afetam o desenvolvimento do melanoma, carcinomas de queratinócitos e o carcinoma de células renais, este último particularmente associado às variantes Apa1 e Fok1 (genótipo FF) em populações asiáticas.
Análises meta-analíticas confirmam que variantes como Fok1, Bsm1, Cdx2, Apa1 e Taq1 são marcadores diagnósticos valiosos para cânceres de pulmão, pele, cérebro e mieloma múltiplo. A etnia emerge como um modificador crítico desse risco genético, com as correlações mais fortes frequentemente observadas em pacientes caucasianos. Diante dessas evidências, ressalta-se a importância de que futuras pesquisas combinem a análise desses polimorfismos genéticos com a mensuração dos níveis séricos de vitamina D e a consideração da ascendência étnica para estabelecer relações causais mais precisas e melhorar os desfechos clínicos.
A vitamina D tem sido reconhecida como um poderoso agente anticancerígeno devido às suas diversas ações inibitórias sobre células tumorais. Embora vários estudos tenham demonstrado os seus efeitos anticancerígenos, mais pesquisas ainda são necessárias. Diversas controvérsias e preocupações precisam ser resolvidas antes que a substância possa ser considerada para o tratamento do câncer.