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Publicado el 16 de julio de 2026

Dermatologia

O impacto da pandemia da COVID-19 no melanoma

Analise como a pandemia da COVID-19 causou atrasos críticos no diagnóstico do melanoma, resultando em tumores mais espessos e mudanças profundas nas práticas terapêuticas globais

Autor/a: Akshay Soni, Elisha Purcell, Bryan Lim, Gianluca Marcaccini, Ishith Seth, Warren M. Rozen

Fuente: Journal of the European Academy of Dermatology & Venereology, V. 4, N. 5, 2025. The Silent Spread: A Systematic Review of Delayed Melanoma Diagnosis and Disease Progression During the COVID-19 Pandemic

A pandemia da COVID-19 provocou uma desestabilização sem precedentes nos sistemas de saúde globais, levando ao redirecionamento massivo de recursos para o enfrentamento da crise sanitária. Nesse cenário, procedimentos médicos de rotina, incluindo rastreamentos oncológicos, exames dermatológicos e consultas de seguimento, foram frequentemente despriorizados ou adiados. Tais interrupções geraram um alerta quanto ao impacto na detecção precoce de neoplasias, especialmente no caso do melanoma, cujo prognóstico favorável está estritamente vinculado ao diagnóstico em estágios iniciais.

Clinicamente, a sobrevida do paciente com melanoma correlaciona-se de forma direta com indicadores como a espessura do tumor (estadiamento de Breslow), o comprometimento linfonodal, a presença de metástases e critérios histopatológicos críticos, como a taxa mitótica e a presença de ulceração. Portanto, a detecção de lesões mais finas e sem evidência de disseminação é o pilar fundamental para taxas de sobrevivência otimizadas. No entanto, a pandemia impôs barreiras severas a esse fluxo, resultando em acesso reduzido a serviços especializados, atrasos em intervenções cirúrgicas e uma hesitação generalizada por parte dos pacientes em buscar atendimento médico presencial.

Dados epidemiológicos reforçaram a gravidade dessa disrupção: durante o auge dos bloqueios em abril de 2020, os diagnósticos de melanoma apresentaram uma queda drástica de até 67%. No entanto, é consenso entre os pesquisadores que essa redução não reflete uma queda real na incidência da doença, mas sim um fenômeno de diagnósticos represados e tardios. Por isso, Soni e colaboradores (2025) realizaram uma revisão com o objetivo de avaliar precisamente como esse hiato diagnóstico alterou o perfil de gravidade da doença e as práticas de tratamento no período pandêmico/ pós-pandêmico (2019 a 2024) em comparação com o pré-pandêmico (2015 a 2019).

Para as evidências, os autores realizaram uma busca sistemática em setembro de 2024, nas bases PubMed, Scopus, Web of Science e Cochrane Library. Os critérios de elegibilidade foram restritos a estudos clínicos, estudos de coorte e séries de casos revisados por pares, publicados em inglês, que apresentassem dados quantitativos ou qualitativos sobre a incidência de melanoma, atrasos diagnósticos ou mudanças nas práticas de tratamento devido à pandemia. Foram excluídas pesquisas que abordavam exclusivamente cânceres de pele não-melanoma, além de literatura cinzenta.

As variáveis analisadas incluíram não apenas as taxas de incidência, mas também indicadores prognósticos críticos (como o índice de Breslow e a presença de ulceração), características demográficas das populações, métodos diagnósticos e modificações terapêuticas. Finalmente, os dados foram submetidos a uma síntese narrativa e análise comparativa entre os dois períodos definidos.

O estudo reunião 55 artigos conduzidos globalmente, abrangendo regiões como Europa, América do Norte, Austrália, Israel e América do Sul, incluindo o Brasil. A análise demográfica revelou que a população mais afetada manteve-se na faixa etária entre 58 e 69 anos, com uma predominância masculina estável, sugerindo que as mudanças observadas nos desfechos clínicos não decorreram de alterações no perfil dos pacientes, mas de pressões externas sobre o sistema de saúde.

O impacto mais imediato da pandemia foi o declínio acentuado no número de diagnósticos de melanoma, documentado na vasta maioria dos estudos analisados. Esse fenômeno foi acompanhado por uma deterioração significativa dos indicadores prognósticos críticos: houve um aumento consistente na espessura de Breslow. Modelagens matemáticas incluídas na revisão sugeriram que atrasos diagnósticos de apenas três meses poderiam triplicar a proporção de melanomas "ultra-espessos" (> 6,0 mm), elevando-os de 6,9% para até 30,2%. Além disso, a presença de ulceração apresentou taxas que quase dobraram em certas coortes, subindo de aproximadamente 11,7% para 22,6%.

No que diz respeito ao fluxo de atendimento, 52 estudos reportaram atrasos diagnósticos significativos. As taxas de encaminhamento e biópsias caíram drasticamente. Esses dados indicaram que a interrupção dos serviços de rotina e a hesitação dos pacientes em buscar atendimento presencial criaram um gargalo que resultou em apresentações clínicas em estágios muito mais avançados.

As práticas terapêuticas também foram profundamente impactadas. Observou-se um declínio de até 20% nas excisões cirúrgicas, com um aumento concomitante de casos que se tornaram inoperáveis devido à progressão da doença. Para mitigar esses atrasos cirúrgicos, alguns centros, como os da Holanda e Canadá, adotaram estratégias adaptativas de "ponte", implementando o uso de imunoterapia combinada ou neoadjuvante como alternativa temporária.

Em conclusão, os resultados demonstram que a pandemia não apenas reduziu a detecção precoce, mas forçou uma reestruturação do manejo oncológico que pode ter implicações duradouras no prognóstico e na sobrevida a longo prazo dos pacientes com melanoma.