Nos últimos anos, vários biomarcadores baseados no sangue (BBMs) tornaram-se disponíveis como alternativas promissoras e acessíveis para detectar a doença de Alzheimer (DA). Comparados à tomografia por emissão de pósitrons (PET) e ao exame do líquido cefalorraquidiano (LCR), os BBMs oferecem várias vantagens: são menos dispendiosos, mais acessíveis e mais aceitáveis. Embora vários BBMs estejam comercialmente disponíveis, o desempenho diagnóstico varia entre os testes e sua integração na prática clínica ainda é inconsistente.
Devido à ausência de uma Diretriz de Prática Clínica (DPC), a Alzheimer's Association reuniu um painel de especialistas com objetivo de fornecer recomendações para apoiar clínicos, pacientes e formuladores de políticas na integração de BBMs nos diagnósticos da DA em indivíduos com comprometimento cognitivo.
Para a elaboração da diretriz, o painel utilizou a metodologia Grading of Recommendations, Assessment, Development, and Evaluation (GRADE) e a estrutura Evidence-to-Decision (EtD), seguindo as diretrizes do AGREE II e da Guidelines International Network-McMaster. Os especialistas realizaram uma revisão sistemática para avaliar a precisão diagnóstica de BBMs específicos em pacientes com comprometimento cognitivo em ambientes de cuidados especializados. Os biomarcadores de interesse incluíram ensaios plasmáticos de tau fosforilada (p-tau217, p-tau181, p-tau231 e a razão de p-tau217 para não-p-tau217) e a razão Aβ42/Aβ40, tendo como padrões de referência biomarcadores de DA no LCR, PET de amiloide ou neuropatologia.
As principais conclusões da diretriz foram contidas em duas recomendações condicionais e uma declaração de boa prática, que apoiaram a utilização de BBMs na avaliação diagnóstica de pacientes com comprometimento cognitivo objetivo em ambientes de cuidados especializados.
A primeira recomendação sugeriu a utilização de um teste BBM de alta sensibilidade como teste de triagem na investigação diagnóstica da DA, sendo que a precisão diagnóstica aceitável foi definida como sensibilidade e especificidade de pelo menos 90% e 75%, respectivamente. Um teste de triagem negativo é projetado para descartar a patologia da DA com alta probabilidade, enquanto um resultado positivo deve ser confirmado por outro método, como biomarcadores de LCR ou PET amiloide.
A segunda recomendação sugeriu o uso de um teste BBM de alta sensibilidade e alta especificidade como teste confirmatório, o que significa que um resultado positivo confirma a patologia DA com alta probabilidade, e um negativo a descarta. Para isso, o painel definiu a precisão aceitável como sendo de pelo menos 90% de sensibilidade e 90% de especificidade. Ambas as recomendações foram condicionais e baseadas em evidências de baixa certeza.
Além disso, o painel emitiu uma declaração de boa prática enfatizando que os testes BBM não substituem uma avaliação clínica abrangente por um profissional de saúde e que os resultados devem ser sempre interpretados no contexto clínico. O painel advertiu que existe uma variabilidade significativa na precisão diagnóstica e que muitos testes BBM disponíveis comercialmente não atendem a esses limiares, especialmente ao usar um único ponto de corte.
Em conclusão, as principais recomendações do painel foram que, para a detecção da patologia amiloide em pacientes com comprometimento cognitivo que se apresentam em ambientes de cuidados especializados: (1) os testes BBM com sensibilidade ≥90% e especificidade ≥75% podem ser usados como um teste de triagem e (2) os com sensibilidade e especificidade ≥90% podem servir como um substituto para a imagem PET amiloide ou para o teste de biomarcadores no LCR. Entretanto, esses testes não servem como um substituto para a avaliação clínica abrangente por um profissional de saúde e devem ser usados apenas como parte de uma investigação diagnóstica.