O carcinoma espinocelular oral (OSCC) é o principal tipo de câncer da cavidade oral e permanece associado a elevadas taxas de morbimortalidade, especialmente devido ao diagnóstico tardio, observado em mais de 60% dos casos.
Embora fatores como tabagismo, consumo de álcool, mastigação de noz de bétele, má higiene bucal e predisposição genética sejam reconhecidos na sua etiologia, evidências também apontaram a inflamação crônica e a disbiose da microbiota oral como importantes contribuintes para a carcinogênese.
Em condições normais, a microbiota oral exerce funções essenciais na manutenção da homeostase local e sistêmica. No entanto, alterações na composição e no funcionamento desse ecossistema, processo conhecido como disbiose, podem favorecer inflamação crônica, desregulação imunológica e progressão tumoral.
Nesse contexto, Kamel e colaboradores (2026) revisaram as principais evidências sobre os mecanismos pelos quais a disbiose da microbiota oral pode contribuir para o desenvolvimento do OSCC, bem como o potencial dos microrganismos orais como biomarcadores diagnósticos e alvos terapêuticos.
| Microbiota oral saudável e mecanismos de proteção |
A microbiota oral representa um dos ecossistemas microbianos mais diversos do organismo humano, abrigando mais de 700 espécies bacterianas, além de fungos, vírus e outros microrganismos. Sua composição varia entre diferentes nichos da cavidade oral, incluindo saliva, mucosa, língua e superfícies dentárias.
Entre os gêneros bacterianos frequentemente encontrados em indivíduos saudáveis destacam-se Streptococcus, Actinomyces, Neisseria, Prevotella, Porphyromonas e Fusobacterium. Em condições de equilíbrio, essas comunidades mantêm uma relação mutualística com o hospedeiro e contribuem para a estabilidade do ambiente oral.
Além de competir com patógenos potenciais, a microbiota participa da manutenção das barreiras mucosas e da modulação das respostas imunes locais. Metabólitos produzidos pelos microrganismos, incluindo ácidos graxos de cadeia curta, influenciam vias inflamatórias e a atividade de células imunológicas. A microbiota também estimula a produção de imunoglobulina A secretora (sIgA), peptídeos antimicrobianos e citocinas anti-inflamatórias, fortalecendo a proteção dos tecidos orais contra agentes infecciosos.
| Fatores que influenciam a estabilidade da microbiota oral |
A composição da microbiota oral é influenciada por fatores do hospedeiro, ambientais, comportamentais e sistêmicos. Aspectos como genética, idade, imunidade e fluxo salivar exercem papel importante na manutenção do equilíbrio microbiano.
Entre os fatores ambientais, a alimentação destaca-se como um dos principais determinantes da composição microbiana. Dietas ricas em açúcares refinados, alimentos ultraprocessados e gorduras de origem animal favorecem o crescimento de microrganismos associados a cáries e doenças periodontais, enquanto padrões alimentares menos industrializados tendem a estar relacionados a uma microbiota mais saudável.
O tabagismo promove alterações significativas na ecologia oral, favorecendo a formação de biofilmes e a proliferação de bactérias anaeróbias. Da mesma forma, a higiene bucal inadequada contribui para o acúmulo de placa bacteriana e para o aumento de patógenos periodontais. Além disso, doenças sistêmicas como Diabetes mellitus, síndrome de Sjögren e doenças cardiovasculares podem modificar o ambiente oral e favorecer o desenvolvimento de disbiose.
| Disbiose microbiana e carcinogênese oral |
No OSCC, a disbiose está associada ao enriquecimento de patógenos periodontais, especialmente Porphyromonas gingivalis, Fusobacterium nucleatum e Treponema denticola, capazes de promover inflamação persistente e favorecer alterações carcinogênicas.
Esses microrganismos produzem fatores de virulência que comprometem a integridade da barreira epitelial, estimulam a produção de citocinas pró-inflamatórias e ativam vias de sinalização relacionadas à proliferação celular, remodelação tecidual e progressão tumoral. Componentes bacterianos, como os lipopolissacarídeos (LPS), também contribuem para a manutenção de um microambiente inflamatório favorável ao desenvolvimento do câncer.
Além disso, a interação entre bactérias e células do hospedeiro pode induzir mecanismos de evasão imunológica, incluindo o aumento da expressão de PD-L1 em células tumorais. Estudos de sequenciamento e abordagens multiômicas têm reforçado a associação entre alterações da microbiota oral e os processos moleculares envolvidos no desenvolvimento e progressão do OSCC.
| Participação de vírus e fungos |
Além das bactérias, componentes virais e fúngicos da microbiota oral também têm sido associados ao OSCC.
Entre os vírus, o papilomavírus humano (HPV), especialmente os genótipos de alto risco HPV-16 e HPV-18, e o vírus Epstein-Barr (EBV) são os mais estudados. Essas infecções podem interferir em mecanismos de controle do ciclo celular, reparo do DNA e apoptose, favorecendo processos relacionados à carcinogênese oral. Estudos também sugeriram uma interação entre infecções virais e disbiose oral, favorecendo a presença de patógenos periodontais.
No componente fúngico, Candida albicans destaca-se como a espécie mais frequentemente associada ao OSCC. Em determinadas condições, esse fungo pode comportar-se como patógeno oportunista, produzindo compostos carcinogênicos, como acetaldeído e nitrosaminas, além de estimular respostas inflamatórias capazes de promover danos ao DNA e favorecer a transformação maligna.
| Microbiota oral como biomarcador |
A microbiota oral tem emergido como uma promissora fonte de biomarcadores diagnósticos e prognósticos para o OSCC. Diversos estudos identificaram assinaturas microbianas específicas associadas à doença, incluindo os gêneros Fusobacterium, Porphyromonas, Prevotella, Gemella, Capnocytophaga e Rothia, além de Candida albicans.
Alterações nessas comunidades foram associadas ao estágio tumoral, progressão da doença e risco de recorrência. Paralelamente, análises metagenômicas sugeriram que mudanças no metabolismo microbiano podem contribuir para o desenvolvimento do câncer por meio da produção de metabólitos capazes de induzir estresse oxidativo e danos genéticos.
A saliva tem se destacado como uma fonte especialmente atrativa de biomarcadores não invasivos. Além das alterações microbiológicas observadas em pacientes com OSCC, níveis elevados de citocinas inflamatórias, como TNF-α, IL-6 e IL-8, também têm sido relatados, reforçando seu potencial para o diagnóstico precoce e monitoramento clínico da doença.
| Estratégias terapêuticas e perspectivas futuras |
Considerando o papel da disbiose na carcinogênese oral, diferentes estratégias voltadas ao microbioma vêm sendo investigadas. Estudos experimentais sugeriram que probióticos, especialmente Lactobacillus acidophilus e Lactobacillus salivarius, podem exercer efeitos antiproliferativos, induzir apoptose e modular a resposta imune. Prebióticos, como frutooligossacarídeos e inulina, favorecem o crescimento de bactérias benéficas e a produção de metabólitos relacionados à homeostase imunológica, enquanto compostos como curcumina, licopeno e galato de epigalocatequina demonstraram potencial para reduzir processos inflamatórios. Pós-bióticos e peptídeos antimicrobianos também apresentam propriedades imunomoduladoras e antimicrobianas capazes de contribuir para o restabelecimento do equilíbrio microbiano.
Além dessas abordagens, medidas básicas de higiene oral, incluindo controle da placa bacteriana e acompanhamento odontológico regular, permanecem fundamentais para limitar a colonização por patógenos associados ao OSCC.
Apesar dos avanços, desafios importantes ainda permanecem. A elevada variabilidade da microbiota entre indivíduos, a influência de fatores ambientais e clínicos, as diferenças metodológicas entre estudos e os efeitos dos tratamentos oncológicos sobre o microbioma dificultam a validação de biomarcadores e a tradução dos achados para a prática clínica. Dessa forma, futuras pesquisas deverão concentrar-se na identificação de biomarcadores microbianos confiáveis, no esclarecimento das interações entre microbiota, imunidade e tumor e no desenvolvimento de intervenções direcionadas ao microbioma.
As evidências reunidas por Kamel e colaboradores reforçaram que a disbiose da microbiota oral desempenha papel importante na carcinogênese do OSCC, contribuindo para processos como inflamação crônica, desregulação imunológica, alterações metabólicas e progressão tumoral. Além de melhorar a compreensão dos mecanismos envolvidos na doença, a revisão destacou o potencial da microbiota oral como fonte de biomarcadores para diagnóstico e acompanhamento clínico, bem como alvo para estratégias preventivas e terapêuticas. Embora os resultados sejam promissores, estudos adicionais serão necessários para validar essas abordagens e viabilizar sua incorporação à prática clínica no manejo do carcinoma espinocelular oral.
Publicado el 4 de octubre de 2026
Carcinoma espinocelular oral
Microbiota oral e carcinoma espinocelular oral
Revisão de Kamel e colaboradores (2026) reuniu as principais evidências sobre a relação entre microbiota oral e carcinoma espinocelular oral, abordando mecanismos de carcinogênese, microrganismos associados, biomarcadores diagnósticos e perspectivas terapêuticas baseadas no microbioma.
Autor/a: Kamel, A.H.M. et al.
Fuente: Cancer Cell Int. 2026 The oral microbiota in oral squamous cell carcinoma: unravelling mechanisms and clinical potential.
O carcinoma espinocelular oral (OSCC) é o principal tipo de câncer da cavidade oral e permanece associado a elevadas taxas de morbimortalidade, especialmente devido ao diagnóstico tardio, observado em mais de 60% dos casos.
Embora fatores como tabagismo, consumo de álcool, mastigação de noz de bétele, má higiene bucal e predisposição genética sejam reconhecidos na sua etiologia, evidências também apontaram a inflamação crônica e a disbiose da microbiota oral como importantes contribuintes para a carcinogênese.
Em condições normais, a microbiota oral exerce funções essenciais na manutenção da homeostase local e sistêmica. No entanto, alterações na composição e no funcionamento desse ecossistema, processo conhecido como disbiose, podem favorecer inflamação crônica, desregulação imunológica e progressão tumoral.
Nesse contexto, Kamel e colaboradores (2026) revisaram as principais evidências sobre os mecanismos pelos quais a disbiose da microbiota oral pode contribuir para o desenvolvimento do OSCC, bem como o potencial dos microrganismos orais como biomarcadores diagnósticos e alvos terapêuticos.
A microbiota oral representa um dos ecossistemas microbianos mais diversos do organismo humano, abrigando mais de 700 espécies bacterianas, além de fungos, vírus e outros microrganismos. Sua composição varia entre diferentes nichos da cavidade oral, incluindo saliva, mucosa, língua e superfícies dentárias.
Entre os gêneros bacterianos frequentemente encontrados em indivíduos saudáveis destacam-se Streptococcus, Actinomyces, Neisseria, Prevotella, Porphyromonas e Fusobacterium. Em condições de equilíbrio, essas comunidades mantêm uma relação mutualística com o hospedeiro e contribuem para a estabilidade do ambiente oral.
Além de competir com patógenos potenciais, a microbiota participa da manutenção das barreiras mucosas e da modulação das respostas imunes locais. Metabólitos produzidos pelos microrganismos, incluindo ácidos graxos de cadeia curta, influenciam vias inflamatórias e a atividade de células imunológicas. A microbiota também estimula a produção de imunoglobulina A secretora (sIgA), peptídeos antimicrobianos e citocinas anti-inflamatórias, fortalecendo a proteção dos tecidos orais contra agentes infecciosos.
A composição da microbiota oral é influenciada por fatores do hospedeiro, ambientais, comportamentais e sistêmicos. Aspectos como genética, idade, imunidade e fluxo salivar exercem papel importante na manutenção do equilíbrio microbiano.
Entre os fatores ambientais, a alimentação destaca-se como um dos principais determinantes da composição microbiana. Dietas ricas em açúcares refinados, alimentos ultraprocessados e gorduras de origem animal favorecem o crescimento de microrganismos associados a cáries e doenças periodontais, enquanto padrões alimentares menos industrializados tendem a estar relacionados a uma microbiota mais saudável.
O tabagismo promove alterações significativas na ecologia oral, favorecendo a formação de biofilmes e a proliferação de bactérias anaeróbias. Da mesma forma, a higiene bucal inadequada contribui para o acúmulo de placa bacteriana e para o aumento de patógenos periodontais. Além disso, doenças sistêmicas como Diabetes mellitus, síndrome de Sjögren e doenças cardiovasculares podem modificar o ambiente oral e favorecer o desenvolvimento de disbiose.
No OSCC, a disbiose está associada ao enriquecimento de patógenos periodontais, especialmente Porphyromonas gingivalis, Fusobacterium nucleatum e Treponema denticola, capazes de promover inflamação persistente e favorecer alterações carcinogênicas.
Esses microrganismos produzem fatores de virulência que comprometem a integridade da barreira epitelial, estimulam a produção de citocinas pró-inflamatórias e ativam vias de sinalização relacionadas à proliferação celular, remodelação tecidual e progressão tumoral. Componentes bacterianos, como os lipopolissacarídeos (LPS), também contribuem para a manutenção de um microambiente inflamatório favorável ao desenvolvimento do câncer.
Além disso, a interação entre bactérias e células do hospedeiro pode induzir mecanismos de evasão imunológica, incluindo o aumento da expressão de PD-L1 em células tumorais. Estudos de sequenciamento e abordagens multiômicas têm reforçado a associação entre alterações da microbiota oral e os processos moleculares envolvidos no desenvolvimento e progressão do OSCC.
Além das bactérias, componentes virais e fúngicos da microbiota oral também têm sido associados ao OSCC.
Entre os vírus, o papilomavírus humano (HPV), especialmente os genótipos de alto risco HPV-16 e HPV-18, e o vírus Epstein-Barr (EBV) são os mais estudados. Essas infecções podem interferir em mecanismos de controle do ciclo celular, reparo do DNA e apoptose, favorecendo processos relacionados à carcinogênese oral. Estudos também sugeriram uma interação entre infecções virais e disbiose oral, favorecendo a presença de patógenos periodontais.
No componente fúngico, Candida albicans destaca-se como a espécie mais frequentemente associada ao OSCC. Em determinadas condições, esse fungo pode comportar-se como patógeno oportunista, produzindo compostos carcinogênicos, como acetaldeído e nitrosaminas, além de estimular respostas inflamatórias capazes de promover danos ao DNA e favorecer a transformação maligna.
A microbiota oral tem emergido como uma promissora fonte de biomarcadores diagnósticos e prognósticos para o OSCC. Diversos estudos identificaram assinaturas microbianas específicas associadas à doença, incluindo os gêneros Fusobacterium, Porphyromonas, Prevotella, Gemella, Capnocytophaga e Rothia, além de Candida albicans.
Alterações nessas comunidades foram associadas ao estágio tumoral, progressão da doença e risco de recorrência. Paralelamente, análises metagenômicas sugeriram que mudanças no metabolismo microbiano podem contribuir para o desenvolvimento do câncer por meio da produção de metabólitos capazes de induzir estresse oxidativo e danos genéticos.
A saliva tem se destacado como uma fonte especialmente atrativa de biomarcadores não invasivos. Além das alterações microbiológicas observadas em pacientes com OSCC, níveis elevados de citocinas inflamatórias, como TNF-α, IL-6 e IL-8, também têm sido relatados, reforçando seu potencial para o diagnóstico precoce e monitoramento clínico da doença.
Considerando o papel da disbiose na carcinogênese oral, diferentes estratégias voltadas ao microbioma vêm sendo investigadas. Estudos experimentais sugeriram que probióticos, especialmente Lactobacillus acidophilus e Lactobacillus salivarius, podem exercer efeitos antiproliferativos, induzir apoptose e modular a resposta imune. Prebióticos, como frutooligossacarídeos e inulina, favorecem o crescimento de bactérias benéficas e a produção de metabólitos relacionados à homeostase imunológica, enquanto compostos como curcumina, licopeno e galato de epigalocatequina demonstraram potencial para reduzir processos inflamatórios. Pós-bióticos e peptídeos antimicrobianos também apresentam propriedades imunomoduladoras e antimicrobianas capazes de contribuir para o restabelecimento do equilíbrio microbiano.
Além dessas abordagens, medidas básicas de higiene oral, incluindo controle da placa bacteriana e acompanhamento odontológico regular, permanecem fundamentais para limitar a colonização por patógenos associados ao OSCC.
Apesar dos avanços, desafios importantes ainda permanecem. A elevada variabilidade da microbiota entre indivíduos, a influência de fatores ambientais e clínicos, as diferenças metodológicas entre estudos e os efeitos dos tratamentos oncológicos sobre o microbioma dificultam a validação de biomarcadores e a tradução dos achados para a prática clínica. Dessa forma, futuras pesquisas deverão concentrar-se na identificação de biomarcadores microbianos confiáveis, no esclarecimento das interações entre microbiota, imunidade e tumor e no desenvolvimento de intervenções direcionadas ao microbioma.
As evidências reunidas por Kamel e colaboradores reforçaram que a disbiose da microbiota oral desempenha papel importante na carcinogênese do OSCC, contribuindo para processos como inflamação crônica, desregulação imunológica, alterações metabólicas e progressão tumoral. Além de melhorar a compreensão dos mecanismos envolvidos na doença, a revisão destacou o potencial da microbiota oral como fonte de biomarcadores para diagnóstico e acompanhamento clínico, bem como alvo para estratégias preventivas e terapêuticas. Embora os resultados sejam promissores, estudos adicionais serão necessários para validar essas abordagens e viabilizar sua incorporação à prática clínica no manejo do carcinoma espinocelular oral.