| Introdução |
A psoríase é uma doença inflamatória cutânea crônica de caráter sistêmico, que afeta aproximadamente 2,3% da população adulta e está frequentemente associada a comorbidades como artrite psoriásica, distúrbios psicológicos e gastrointestinais. Entre essas associações, a obesidade destaca-se por estar presente em até 50% dos pacientes com psoríase. Estudos indicaram uma relação bidirecional entre ambas, embora a interpretação mais comum seja a de que a obesidade predispõe o indivíduo ao desenvolvimento da psoríase ao longo da vida.
De acordo com a fisiopatologia, a psoríase e a obesidade compartilham mediadores inflamatórios em um estado de inflamação crônica de baixo grau que envolve a comunicação entre a pele e o tecido adiposo. A disfunção dos adipócitos leva ao aumento de citocinas pró-inflamatórias, como as interleucinas IL-6 e IL-17 e o fator de necrose tumoral (TNF), enquanto reduz a secreção de adiponectinas anti-inflamatórias. Esse desequilíbrio resulta em resistência à insulina e deposição ectópica de gordura, agravando doenças metabólicas e elevando o risco cardiovascular. Outros fatores contribuintes incluem mecanismos epigenéticos, alterações na microbiota, hábitos alimentares inadequados e sedentarismo.
A coexistência de ambas as doenças exacerba a gravidade do quadro clínico e dificulta o manejo terapêutico, estando a obesidade especificamente associada a uma pior resposta aos medicamentos biológicos e a um maior risco de interrupção do tratamento. Apesar dessa forte correlação, ainda faltam diretrizes clínicas que integrem de forma estruturada o manejo da obesidade. Por isso, Nicolau, López-Ferrer e Pablo de la Cueva (2026) realizaram uma revisão para avaliar estratégias de estilo de vida, tratamentos farmacológicos e intervenções cirúrgicas com o objetivo de orientar a prática clínica dermatológica.
| Manejo do paciente com obesidade e psoríase |
O dermatologista é essencial na detecção precoce do excesso de gordura, no reconhecimento do momento ideal para o encaminhamento e no monitoramento do peso durante a terapia biológica. É fundamental que o profissional tenha uma comunicação centrada no paciente, evitando linguagens estigmatizantes e focando a conversa na melhoria dos desfechos da pele e na saúde global, em vez da aparência física.
A avaliação inicial deve ser minuciosa, incluindo uma anamnese direcionada a hábitos dietéticos, atividade física, histórico familiar de obesidade e uso de medicamentos com perfis metabólicos prejudiciais, como os glicocorticoides. No exame físico, além do peso, altura e cálculo do índice de massa corporal (IMC), recomendou-se medir a circunferência da cintura e monitorar a pressão arterial, buscando também sinais como acantose nigricans. Exames laboratoriais básicos, como perfil lipídico, glicemia de jejum, insulina (HOMA) e testes de função hepática, são essenciais para rastrear outros distúrbios metabólicos e descartar contraindicações a futuros tratamentos.
Em termos de manejo prático, pacientes com IMC abaixo de 35 kg/m² e sem comorbidades metabólicas importantes podem ser acompanhados pelo próprio dermatologista, caso o profissional se sinta confortável com esse manejo. No entanto, o encaminhamento para a endocrinologia torna-se imperativo em casos de IMC ≥ 35 kg/m², ou IMC ≥ 27 kg/m² quando houver comorbidades associadas. Outros critérios de encaminhamento incluem a falha em tentativas prévias de perda de peso (menos de 5% em três meses), suspeita de obesidade secundária ou sindrômica, e a presença de transtornos alimentares.
> Modificações no estilo de vida
As modificações no estilo de vida constituem o pilar inicial e obrigatório no tratamento da obesidade. É fundamental que as recomendações sejam individualizadas. Embora a intervenção no estilo de vida isoladamente proporcione uma melhora na gravidade da psoríase, os clínicos devem estar atentos para evitar a inércia terapêutica. Se não houver perda ponderal satisfatória ou se houver reganho de peso, o tratamento deve ser prontamente escalonado para evitar a desmotivação do paciente.
No que tange à nutrição, o foco deve ser a criação de um plano personalizado que respeite as preferências e a cultura do indivíduo. Uma redução diária de aproximadamente 500 kcal costuma levar a uma perda de peso significativa, ao passo que planos excessivamente restritivos, como dietas de muito baixa caloria ou jejum intermitente, embora produzam resultados rápidos, apresentam maior risco de abandono em médio prazo. Além da contagem calórica, a qualidade da dieta é crucial: a dieta mediterrânea, por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, demonstrou aliviar os sintomas da psoríase independentemente da perda de peso. Da mesma forma, a dieta cetogênica tem mostrado benefícios na melhora das placas e na redução de marcadores inflamatórios.
Em relação à atividade física, pacientes com psoríase tendem a se exercitar menos do que a população geral. Isso ocorre devido a barreiras específicas, como o desconforto causado pelo suor nas lesões cutâneas e o sentimento de estigmatização ao expor as placas em ambientes públicos. A recomendação padrão é de pelo menos 150 minutos de exercícios aeróbicos de intensidade moderada por semana, distribuídos em três a cinco sessões, associados a duas ou três sessões de treino de força. Essa rotina deve ser introduzida de forma gradual para evitar o desânimo e ser adaptada à condição dermatológica de cada indivíduo.
Por fim, o manejo do estilo de vida deve contemplar a saúde mental. O encaminhamento para intervenção psicológica é recomendado especialmente quando são detectados padrões alimentares anormais que dificultam a perda ponderal.
> Tratamento farmacológico e cirurgia bariátrica
O tratamento farmacológico da obesidade foi recomendado em pacientes com psoríase com IMC é igual ou superior a 30 kg/m², ou a partir de 27 kg/m² na presença de comorbidades como hipertensão, dislipidemia ou apneia do sono. No entanto, como a psoríase é uma comorbidade que agrava o quadro clínico, pode-se considerar esse tratamento para aqueles com sobrepeso (IMC entre 27 e 30 kg/m²). O tratamento medicamentoso é indicado após a falha das mudanças no estilo de vida ou em casos de reganho de peso, contudo, ele deve sempre ser acompanhado por plano nutricional e exercícios.
Entre as opções terapêuticas, o Orlistate atua na inibição da lipase gástrica e pancreática, reduzindo a absorção de gordura em 30%, mas apresenta eficácia modesta (4% de perda de peso em um ano) e baixa adesão devido a efeitos colaterais gastrointestinais como esteatorreia. Enquanto isso, os análogos do receptor de GLP-1 representam um avanço significativo. A liraglutida (3 mg), de administração subcutânea diária, demonstrou promover saciedade e uma perda de peso de 8% em 56 semanas, além dos benefícios cardiovasculares. Especificamente em pacientes com psoríase, essa substância mostrou melhora no índice PASI e na qualidade de vida, muitas vezes de forma independente da perda de peso, sugerindo um efeito anti-inflamatório direto.
A Semaglutida (2.4 mg), administrada semanalmente, demonstrou resultados ainda mais robustos, com uma redução média de peso de aproximadamente 17% após 68 semanas. Além disso, foi evidenciado uma diminuição de 20% no risco de eventos cardiovasculares maiores, benefício que se mostrou independente do IMC inicial ou da porcentagem de peso perdido. Em pacientes com psoríase, dados de vida real indicaram que as lesões dermatológicas frequentemente melhoram antes mesmo da perda de peso significativa, reforçando seu potencial imunomodulador.
Por fim, a tirzepatida, administrada semanalmente, apresentou perdas de peso de até 22,5% após 72 semanas, além de promover a reversão do pré-diabetes em mais de 90% dos pacientes. Embora ainda não existam dados na literatura sobre o efeito específico dessa substância na doença dermatológico, seu mecanismo de ação melhora a funcionalidade do tecido adiposo e a sensibilidade à insulina.
Nicolau, López-Ferrer e Pablo de la Cueva (2026) propuseram que os dermatologistas comecem o tratamento com os análogos de GLP-1. Caso a perda de peso for insuficiente, o profissional pode optar pela transição para a Tirzepatida.
Por fim, a cirurgia bariátrica foi classificada como a terceira linha de tratamento para a obesidade, sendo reservada para casos de maior gravidade ou refratariedade. Recomendou-se que seja aconselhada para pacientes com IMC ≥ 40 kg/m² ou para aqueles com IMC ≥ 35 kg/m² que apresentem complicações relacionadas à obesidade que não estejam adequadamente controladas por outros meios. Além de reduzir a mortalidade cardiovascular, a cirurgia promove melhorias substanciais em parâmetros metabólicos, mecânicos e psicológicos.
No que tange especificamente à psoríase, a literatura demonstrou que a cirurgia bariátrica exerce um efeito benéfico nos sintomas da doença cutânea. Estudos confirmaram melhorias de longo prazo na gravidade da psoríase, com reduções significativas no índice PASI, além de impactar positivamente na qualidade de vida e no controle dos sintomas da artrite psoriásica.

Figura 1: Algoritmo farmacológico para pacientes com psoríase e obesidade. Imagem adaptada de Nicolau, López-Ferrer e Pablo de la Cueva (2026).
| Conclusão |
Em suma, o manejo da obesidade deve ser compreendido como uma parte integrante e essencial do cuidado holístico da psoríase, considerando a forte evidência de uma relação bidirecional e de mecanismos biológicos compartilhados que potencializam a inflamação sistêmica e o fardo da doença. Como a adiposidade elevada está correlacionada a uma maior gravidade das lesões cutâneas, à redução da eficácia e persistência das terapias biológicas e a um aumento expressivo no risco cardiovascular, o dermatologista encontra-se em uma posição privilegiada para detectar precocemente o excesso de peso, orientar mudanças no estilo de vida e prescrever farmacoterapia anti-obesidade em casos selecionados. A implementação de uma abordagem estruturada, baseada em algoritmos práticos e centrada no paciente é capaz de elevar significativamente a eficácia clínica dermatológica e promover a saúde metabólica e cardiovascular desses pacientes a longo prazo.