Atualmente, a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) é a condição hepática crônica de maior prevalência no mundo. Embora a MASLD seja primariamente uma condição hepática, evidências demonstraram que a doença cardiovascular (DCV) representa a principal causa de mortalidade entre esses indivíduos. A disfunção metabólica e a inflamação sistêmica desempenham papéis centrais no desenvolvimento e na progressão de ambas as condições.
Parâmetros laboratoriais rotineiros e bem estabelecidos, como a proteína C-reativa ultrassensível (PCR-us), os triglicerídeos e a glicemia de jejum, estão diretamente associados à resistência à insulina, à inflamação subclínica, à aterogênese e a desfechos cardiovasculares desfavoráveis. O índice Proteína C-Reativa–Triglicerídeos–Glicose (CTI) combina esses três elementos em um único marcador, capaz de mensurar a carga metabólico-inflamatória integrada do indivíduo. Embora estudos recentes tenham demonstrado que o CTI está associado à síndrome metabólica, ao risco cardiometabólico e à mortalidade por todas as causas na população geral, seu valor específico no contexto da MASLD e no prognóstico de longo prazo ainda não havia sido devidamente elucidado.
Com o objetivo de avaliar a associação do CTI com a prevalência de MASLD e se esse índice seria capaz de predizer a mortalidade por todas as causas e por causas cardiovasculares nesses pacientes, Jin et al., (2026) conduziram uma investigação em múltiplas etapas. Para isso, realizou-se um estudo prospectivo e multivariado de múltiplos estágios, integrando dados de duas grandes coortes populacionais dos Estados Unidos [National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES)] e da China [China Health and Retirement Longitudinal Study (CHARLS)].
A principal variável de exposição analisada foi o CTI, idealizado para capturar a carga inflamatório-metabólica sistêmica. O seu cálculo foi estruturado matematicamente por meio da fórmula:

Figura 1: fórmula do CTI. CRP: Proteína C-reativa ultrassensível; TG: Triglicerídeos e FPG: Glicemia em jejum.
O CTI foi categorizado tanto de forma contínua quanto distribuído em quartis para a avaliação de potenciais gradientes de risco.Diante da inviabilidade de aplicar exames de imagem hepática ou biópsias em larga escala, o diagnóstico de MASLD foi estabelecido utilizando marcadores não invasivos amplamente validados. No NHANES, a esteatose hepática foi identificada através do U.S. Fatty Liver Index (USFLI ≥ 60), acompanhada da presença obrigatória de pelo menos um dos cinco critérios consensuais de risco cardiometabólico: sobrepeso ou obesidade, resistência à insulina, hipertensão arterial, hipertrigliceridemia ou níveis reduzidos de HDL-colesterol. No CHARLS, a MASLD foi operacionalizada por meio do índice TyG-circunferência da cintura (TyG-WC), adotando pontos de corte validados para homens e mulheres chineses.
No total, foram incluídos 8.918 participantes do NHANES e 9.419 do CHARLS. Os resultados demonstraram uma associação positiva forte e não linear entre níveis elevados de CTI e a prevalência de MASLD em ambas as populações. No modelo totalmente ajustado da coorte do NHANES, os indivíduos posicionados no maior quartil (Q4) de CTI apresentaram uma chance significativamente maior de ter MASLD em comparação àqueles do menor quartil (Q1). A análise por curvas de ajuste confirmou que a probabilidade de MASLD aumentava progressivamente com a elevação da carga inflamatório-metabólica. Na coorte chinesa CHARLS, identificou-se um ponto de inflexão transversal em CTI = 10,52, abaixo do qual a associação com a presença de MASLD era acentuadamente e acima do qual se mantinha significativa, porém mais atenuada.
Na fase prospectiva do estudo, que acompanhou 5.130 indivíduos diagnosticados com MASLD no NHANES e 5.369 no CHARLS, o CTI demonstrou elevado valor preditivo para desfechos de mortalidade de longo prazo. No grupo americano, registraram-se 688 e 234 óbitos por todas as causas e por causas cardiovasculares. Na análise contínua, cada aumento de uma unidade no CTI associou-se a um incremento de 47% no risco de mortalidade por todas as causas e de 57% no risco de mortalidade cardiovascular. Na comparação categórica por quartis, Q4 apresentou um risco 68% maior de mortalidade geral e 81% maior de mortalidade cardiovascular quando comparado ao Q1.
A validação externa prospectiva conduzida na coorte chinesa CHARLS, com seguimento mediano de 9 anos e ocorrência de 1.222 óbitos, corroborou os achados norte-americanos ao demonstrar que indivíduos com MASLD no Q4 apresentavam praticamente o dobro do risco de mortalidade por todas as causas em comparação ao Q1. Quanto ao padrão geométrico do risco, a análise de efeito limiar no NHANES revelou pontos de inflexão nítidos em CTI = 5,56 para mortalidade geral e CTI = 5,60 para mortalidade cardiovascular. Abaixo desses patamares, a variação do CTI não se traduziu em alteração estatisticamente significativa no risco de óbito. Contudo, ao ultrapassar esses limiares críticos, observou-se uma aceleração acentuada do risco, elevando a razão de risco para 2,31 na mortalidade por todas as causas e para 2,76 na mortalidade cardiovascular. Em contrapartida, na coorte do CHARLS, a trajetória do risco de mortalidade ao longo do espectro do CTI mostrou-se predominantemente linear, sugerindo uma elevação mais gradual da mortalidade associada à carga inflamatório-metabólica na população chinesa.
A análise de mediação causal forneceu importantes esclarecimentos sobre as vias fisiopatológicas subjacentes, identificando o diabetes mellitus como o principal mediador da associação entre o CTI e o excesso de mortalidade. Essa condição respondeu por 25,92% do efeito total do CTI sobre a mortalidade por todas as causas e por 13,64% do efeito sobre a mortalidade cardiovascular. A hipertensão arterial atuou como mediador secundário, explicando 5,58% da mortalidade geral e 5,32% da cardiovascular, enquanto o índice de massa corporal (IMC) não apresentou contribuição indireta estatisticamente significativa. Por fim, as análises de subgrupo demonstraram consistência dos resultados em diversos estratos sociodemográficos e clínicos, sem interações estatisticamente significativas.
Em conclusão, Jin et al., (2026) estabelecem que o CTI é um biomarcador composto robusto da carga inflamatório-metabólica, associado de forma independente à presença de MASLD e ao risco de mortalidade por todas as causas e por causas cardiovasculares. A forte influência mediadora do diabetes reforça a centralidade da disfunção glicêmica na deterioração vascular dessa população, consolidando o CTI como uma ferramenta epidemiológica promissora para o refinamento da estratificação prognóstica e o direcionamento do manejo clínico preventivo na MASLD.
Publicado el 5 de octubre de 2026
Biomarcador
Índice CTI na MASLD: Um novo biomarcador laboratorial para predição do risco de mortalidade geral e cardiovascular
Integrando inflamação sistêmica e disfunção metabólica, o índice CTI surge como ferramenta acessível de estratificação prognóstica, tendo o diabetes mellitus como principal mediador causal da mortalidade.
Autor/a: Jin, XF., Su, ZJ., Zhong, JF. et al.
Fuente: Springer Nature, V. 25, N. 75, 2026 Association of the C-reactive protein–triglyceride–glucose index with metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease and long-term all-cause and cardiovascular mortality: evidence from two nationwide prospective cohort studies
Atualmente, a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) é a condição hepática crônica de maior prevalência no mundo. Embora a MASLD seja primariamente uma condição hepática, evidências demonstraram que a doença cardiovascular (DCV) representa a principal causa de mortalidade entre esses indivíduos. A disfunção metabólica e a inflamação sistêmica desempenham papéis centrais no desenvolvimento e na progressão de ambas as condições.
Parâmetros laboratoriais rotineiros e bem estabelecidos, como a proteína C-reativa ultrassensível (PCR-us), os triglicerídeos e a glicemia de jejum, estão diretamente associados à resistência à insulina, à inflamação subclínica, à aterogênese e a desfechos cardiovasculares desfavoráveis. O índice Proteína C-Reativa–Triglicerídeos–Glicose (CTI) combina esses três elementos em um único marcador, capaz de mensurar a carga metabólico-inflamatória integrada do indivíduo. Embora estudos recentes tenham demonstrado que o CTI está associado à síndrome metabólica, ao risco cardiometabólico e à mortalidade por todas as causas na população geral, seu valor específico no contexto da MASLD e no prognóstico de longo prazo ainda não havia sido devidamente elucidado.
Com o objetivo de avaliar a associação do CTI com a prevalência de MASLD e se esse índice seria capaz de predizer a mortalidade por todas as causas e por causas cardiovasculares nesses pacientes, Jin et al., (2026) conduziram uma investigação em múltiplas etapas. Para isso, realizou-se um estudo prospectivo e multivariado de múltiplos estágios, integrando dados de duas grandes coortes populacionais dos Estados Unidos [National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES)] e da China [China Health and Retirement Longitudinal Study (CHARLS)].
A principal variável de exposição analisada foi o CTI, idealizado para capturar a carga inflamatório-metabólica sistêmica. O seu cálculo foi estruturado matematicamente por meio da fórmula:
Figura 1: fórmula do CTI. CRP: Proteína C-reativa ultrassensível; TG: Triglicerídeos e FPG: Glicemia em jejum.
O CTI foi categorizado tanto de forma contínua quanto distribuído em quartis para a avaliação de potenciais gradientes de risco.Diante da inviabilidade de aplicar exames de imagem hepática ou biópsias em larga escala, o diagnóstico de MASLD foi estabelecido utilizando marcadores não invasivos amplamente validados. No NHANES, a esteatose hepática foi identificada através do U.S. Fatty Liver Index (USFLI ≥ 60), acompanhada da presença obrigatória de pelo menos um dos cinco critérios consensuais de risco cardiometabólico: sobrepeso ou obesidade, resistência à insulina, hipertensão arterial, hipertrigliceridemia ou níveis reduzidos de HDL-colesterol. No CHARLS, a MASLD foi operacionalizada por meio do índice TyG-circunferência da cintura (TyG-WC), adotando pontos de corte validados para homens e mulheres chineses.
No total, foram incluídos 8.918 participantes do NHANES e 9.419 do CHARLS. Os resultados demonstraram uma associação positiva forte e não linear entre níveis elevados de CTI e a prevalência de MASLD em ambas as populações. No modelo totalmente ajustado da coorte do NHANES, os indivíduos posicionados no maior quartil (Q4) de CTI apresentaram uma chance significativamente maior de ter MASLD em comparação àqueles do menor quartil (Q1). A análise por curvas de ajuste confirmou que a probabilidade de MASLD aumentava progressivamente com a elevação da carga inflamatório-metabólica. Na coorte chinesa CHARLS, identificou-se um ponto de inflexão transversal em CTI = 10,52, abaixo do qual a associação com a presença de MASLD era acentuadamente e acima do qual se mantinha significativa, porém mais atenuada.
Na fase prospectiva do estudo, que acompanhou 5.130 indivíduos diagnosticados com MASLD no NHANES e 5.369 no CHARLS, o CTI demonstrou elevado valor preditivo para desfechos de mortalidade de longo prazo. No grupo americano, registraram-se 688 e 234 óbitos por todas as causas e por causas cardiovasculares. Na análise contínua, cada aumento de uma unidade no CTI associou-se a um incremento de 47% no risco de mortalidade por todas as causas e de 57% no risco de mortalidade cardiovascular. Na comparação categórica por quartis, Q4 apresentou um risco 68% maior de mortalidade geral e 81% maior de mortalidade cardiovascular quando comparado ao Q1.
A validação externa prospectiva conduzida na coorte chinesa CHARLS, com seguimento mediano de 9 anos e ocorrência de 1.222 óbitos, corroborou os achados norte-americanos ao demonstrar que indivíduos com MASLD no Q4 apresentavam praticamente o dobro do risco de mortalidade por todas as causas em comparação ao Q1. Quanto ao padrão geométrico do risco, a análise de efeito limiar no NHANES revelou pontos de inflexão nítidos em CTI = 5,56 para mortalidade geral e CTI = 5,60 para mortalidade cardiovascular. Abaixo desses patamares, a variação do CTI não se traduziu em alteração estatisticamente significativa no risco de óbito. Contudo, ao ultrapassar esses limiares críticos, observou-se uma aceleração acentuada do risco, elevando a razão de risco para 2,31 na mortalidade por todas as causas e para 2,76 na mortalidade cardiovascular. Em contrapartida, na coorte do CHARLS, a trajetória do risco de mortalidade ao longo do espectro do CTI mostrou-se predominantemente linear, sugerindo uma elevação mais gradual da mortalidade associada à carga inflamatório-metabólica na população chinesa.
A análise de mediação causal forneceu importantes esclarecimentos sobre as vias fisiopatológicas subjacentes, identificando o diabetes mellitus como o principal mediador da associação entre o CTI e o excesso de mortalidade. Essa condição respondeu por 25,92% do efeito total do CTI sobre a mortalidade por todas as causas e por 13,64% do efeito sobre a mortalidade cardiovascular. A hipertensão arterial atuou como mediador secundário, explicando 5,58% da mortalidade geral e 5,32% da cardiovascular, enquanto o índice de massa corporal (IMC) não apresentou contribuição indireta estatisticamente significativa. Por fim, as análises de subgrupo demonstraram consistência dos resultados em diversos estratos sociodemográficos e clínicos, sem interações estatisticamente significativas.
Em conclusão, Jin et al., (2026) estabelecem que o CTI é um biomarcador composto robusto da carga inflamatório-metabólica, associado de forma independente à presença de MASLD e ao risco de mortalidade por todas as causas e por causas cardiovasculares. A forte influência mediadora do diabetes reforça a centralidade da disfunção glicêmica na deterioração vascular dessa população, consolidando o CTI como uma ferramenta epidemiológica promissora para o refinamento da estratificação prognóstica e o direcionamento do manejo clínico preventivo na MASLD.