Distúrbios do sono são comuns com o envelhecimento e têm uma relação bidirecional com a demência. Evidências apontaram que a neurodegeneração pode desregular o ciclo sono–vigília, enquanto características de sono pouco saudáveis, como dormir pouco ou muito, insônia e sonolência diurna, já foram associadas ao declínio cognitivo e ao risco de desenvolver demência.
Avanços em ressonância magnética (RM) permitiram estimar a idade do cérebro e calcular o brain age gap (BAG), que representa a diferença entre a idade cerebral estimada e a cronológica, sendo um importante indicador de envelhecimento acelerado, maior mortalidade e risco de declínio cognitivo. Embora estudos já tenham relacionado sono inadequado a diversos marcadores de envelhecimento neural, ainda são poucas as investigações que analisam a saúde global do sono em relação à idade cerebral estimada.
Além disso, fatores individuais como idade, sexo e predisposição genética podem modificar essa relação, e mecanismos biológicos ainda não estão totalmente esclarecidos. A inflamação surgiu como um possível mediador, já que o sono inadequado aumenta processos inflamatórios que contribuem para doenças cerebrovasculares, acúmulo de amiloide e neurodegeneração.
Nesse contexto, o estudo de Miao e colaboradores (2025) investigou de forma abrangente como a saúde do sono se relaciona ao BAG e como fatores individuais podem influenciar essa associação. Os autores também analisaram se a inflamação atua como mecanismo intermediário entre padrões de sono desfavoráveis e envelhecimento cerebral acelerado.
O estudo incluiu 27.500 adultos do UK Biobank, com idade média de 54 anos e sendo 54,0% mulheres. A presença de cinco características de sono saudável autorrelatadas (cronotipo matutino, 7–8 horas de sono diário, ausência de insônia, ausência de ronco e ausência de sonolência diurna excessiva) foi somada para compor uma pontuação de sono saudável (0–5 pontos), usado para definir três padrões de sono: saudável (≥4 pontos), intermediário (2–3 pontos) e ruim (≤1 ponto).
A inflamação de baixo grau foi estimada por meio do INFLA-score, um índice composto por biomarcadores inflamatórios. Após um acompanhamento médio de 8,9 anos, a idade cerebral foi estimada usando um modelo de aprendizado de máquina baseado em 1.079 fenótipos de RM cerebral e utilizada para calcular o BAG.
Aproximadamente 41% dos participantes analisados apresentavam um padrão de sono saudável, 56% intermediário e 3% ruim. Indivíduos com sono intermediário ou ruim tendiam a ser mais velhos, mais frequentemente homens, com menor nível socioeconômico, maior IMC, mais doenças cardiometabólicas, menor escolaridade e estilo de vida menos saudável.
Uma pontuação de sono mais baixo foi associada a um BAG maior. Cada redução de um ponto na classificação de sono saudável aumentou o BAG em aproximadamente 0,48 ano. Participantes com padrões intermediário e ruim apresentaram idade cerebral cerca de 0,62 e 0,99 ano acima da idade cronológica, respectivamente. Entre os componentes individuais do sono, cronotipo tardio, duração anormal e ronco foram os mais associados ao envelhecimento cerebral acelerado.
A associação entre sono ruim e BAG elevado foi mais forte em homens, mas não variou conforme idade (<60 e ≥60 anos) e nem entre portadores ou não do alelo APOE ε4. A inflamação também desempenhou papel mediador, com o INFLA-score explicando cerca de 7% da relação entre sono intermediário BAG, e mais de 10% da relação entre sono ruim e essa diferença de idade cerebral.
Em conclusão, o estudo forneceu evidências de que uma saúde do sono desfavorável pode contribuir para o envelhecimento cerebral acelerado. As associações entre sono ruim e maior BAG foram mais pronunciadas em homens, e até 10% dessa relação pode ser mediada pela inflamação sistêmica. Em conjunto, os autores destacaram o sono como um possível fator modificável que pode influenciar a saúde do cérebro.
Referência: Poor sleep health is associated with older brain age: the role of systemic inflammation - eBioMedicine