A crescente utilização das redes sociais ampliou a preocupação com a disseminação de desinformação em saúde, especialmente em temas relacionados à prevenção do câncer. No contexto do câncer de pele, o principal fator de risco modificável é a exposição à radiação ultravioleta (UV), associada ao desenvolvimento de melanoma, carcinoma basocelular (CBC) e carcinoma espinocelular (CEC).
Embora medidas preventivas, como o uso de protetor solar, roupas de proteção e a redução da exposição solar excessiva, sejam amplamente acessíveis e respaldadas por evidências científicas, informações enganosas sobre segurança e eficácia dos protetores solares têm ganhado espaço nas redes sociais. Entre as alegações mais frequentes estão supostos riscos cancerígenos dos filtros solares químicos e prejuízos relacionados à redução da síntese de vitamina D, apesar da ausência de evidências científicas que sustentem essas afirmações.
Diante do aumento desse tipo de conteúdo, especialmente no TikTok, Marcon e colaboradores (2026) realizaram uma avaliação sistemática dos vídeos mais populares sobre protetor solar na plataforma, com o objetivo de caracterizar a presença, a natureza e o engajamento relacionado à desinformação sobre proteção solar.
Inicialmente, foram selecionados 1.126 vídeos, dos quais 971 compuseram a análise final após a exclusão de conteúdos inacessíveis ou não publicados em inglês. A avaliação foi conduzida por revisores independentes, utilizando um protocolo padronizado. Foram classificados como desinformação os conteúdos que desencorajavam o uso de protetor solar por alegarem riscos à saúde, ineficácia ou prejuízo aos benefícios da exposição solar. Os autores também compararam o engajamento dos usuários entre vídeos com posicionamento favorável, crítico ou misto em relação ao uso desses produtos.
No total, os vídeos acumularam mais de 2,4 bilhões de visualizações, evidenciando o amplo alcance do conteúdo relacionado à proteção solar no TikTok. A maior parte dos conteúdos abordava marcas ou produtos específicos de protetor solar (68,2%) e promovia seu uso (86,8%). Além dos benefícios à saúde, era frequente a valorização de características cosméticas e de aplicação, como melhor acabamento na pele, ausência de resíduo esbranquiçado e compatibilidade com maquiagem. Aproximadamente um quarto dos vídeos também enfatizava a utilização correta do produto, incluindo quantidade adequada, reaplicação periódica e cobertura de áreas frequentemente negligenciadas.
A desinformação sobre protetores solares foi relativamente incomum. Apenas 2,4% dos vídeos apresentavam críticas amplas ao uso desses produtos, alegando potenciais danos à saúde ou perda de benefícios associados à exposição solar. Considerando também críticas dirigidas a produtos específicos, principalmente relacionadas aos filtros químicos, 6,0% dos vídeos levantavam preocupações quanto à segurança dos protetores solares. Entretanto, em muitos casos, essas críticas eram acompanhadas de mensagens reconhecendo os benefícios da proteção solar. Apenas 1,6% dos vídeos continham exclusivamente mensagens desencorajando o uso de protetores solares.
Entre os argumentos utilizados para questionar esses produtos, destacaram-se alegações sobre possíveis riscos dos filtros químicos, além de preocupações relacionadas a ingredientes específicos. Por outro lado, críticas não relacionadas à saúde concentraram-se em aspectos cosméticos, como textura oleosa, irritação cutânea e formação de resíduo esbranquiçado na pele.
A análise do engajamento revelou que vídeos contendo críticas aos protetores solares, independentemente de também promoverem seu uso, geraram significativamente mais curtidas, compartilhamentos e comentários do que aqueles exclusivamente favoráveis à proteção solar. Esses achados sugeriram que conteúdos controversos ou críticos tendem a estimular maior interação dos usuários.
Outro achado relevante foi a presença relativamente limitada de profissionais de saúde, identificados em cerca de 10% dos vídeos. Além disso, observou-se forte associação entre conteúdos sobre protetor solar e temas gerais de cuidados com a pele, reforçando a integração da proteção solar ao universo do skincare nas redes sociais.
Em conjunto, os resultados indicaram que, embora a desinformação sobre protetores solares represente uma pequena parcela dos conteúdos mais populares do TikTok, seu potencial de engajamento reforça a necessidade de monitoramento contínuo das informações relacionadas à fotoproteção nas redes sociais. O estudo também evidenciou que a comunicação sobre protetores solares na plataforma está frequentemente associada a aspectos estéticos e comerciais, enquanto seus benefícios para a prevenção do câncer de pele recebem menor destaque. Nesse contexto, ampliar a participação de profissionais de saúde e fortalecer estratégias de comunicação baseadas em evidências podem contribuir para o letramento em saúde da população e para a promoção de práticas adequadas de fotoproteção.
Publicado el 19 de octubre de 2026
Protetor solar
Fotoproteção e desinformação nas redes sociais
Uma análise dos conteúdos sobre protetor solar no TikTok mostrou baixa prevalência de informações enganosas, mas destacou o elevado potencial de engajamento de vídeos que questionam a segurança e a eficácia dos protetores solares.
Autor/a: Marcon, A. et al.
Fuente: PLOS Digital Health, June 2026 Sunscreen is overwhelmingly promoted on TikTok, but content with misinformation exhibits proportionally high levels of audience interaction
A crescente utilização das redes sociais ampliou a preocupação com a disseminação de desinformação em saúde, especialmente em temas relacionados à prevenção do câncer. No contexto do câncer de pele, o principal fator de risco modificável é a exposição à radiação ultravioleta (UV), associada ao desenvolvimento de melanoma, carcinoma basocelular (CBC) e carcinoma espinocelular (CEC).
Embora medidas preventivas, como o uso de protetor solar, roupas de proteção e a redução da exposição solar excessiva, sejam amplamente acessíveis e respaldadas por evidências científicas, informações enganosas sobre segurança e eficácia dos protetores solares têm ganhado espaço nas redes sociais. Entre as alegações mais frequentes estão supostos riscos cancerígenos dos filtros solares químicos e prejuízos relacionados à redução da síntese de vitamina D, apesar da ausência de evidências científicas que sustentem essas afirmações.
Diante do aumento desse tipo de conteúdo, especialmente no TikTok, Marcon e colaboradores (2026) realizaram uma avaliação sistemática dos vídeos mais populares sobre protetor solar na plataforma, com o objetivo de caracterizar a presença, a natureza e o engajamento relacionado à desinformação sobre proteção solar.
Inicialmente, foram selecionados 1.126 vídeos, dos quais 971 compuseram a análise final após a exclusão de conteúdos inacessíveis ou não publicados em inglês. A avaliação foi conduzida por revisores independentes, utilizando um protocolo padronizado. Foram classificados como desinformação os conteúdos que desencorajavam o uso de protetor solar por alegarem riscos à saúde, ineficácia ou prejuízo aos benefícios da exposição solar. Os autores também compararam o engajamento dos usuários entre vídeos com posicionamento favorável, crítico ou misto em relação ao uso desses produtos.
No total, os vídeos acumularam mais de 2,4 bilhões de visualizações, evidenciando o amplo alcance do conteúdo relacionado à proteção solar no TikTok. A maior parte dos conteúdos abordava marcas ou produtos específicos de protetor solar (68,2%) e promovia seu uso (86,8%). Além dos benefícios à saúde, era frequente a valorização de características cosméticas e de aplicação, como melhor acabamento na pele, ausência de resíduo esbranquiçado e compatibilidade com maquiagem. Aproximadamente um quarto dos vídeos também enfatizava a utilização correta do produto, incluindo quantidade adequada, reaplicação periódica e cobertura de áreas frequentemente negligenciadas.
A desinformação sobre protetores solares foi relativamente incomum. Apenas 2,4% dos vídeos apresentavam críticas amplas ao uso desses produtos, alegando potenciais danos à saúde ou perda de benefícios associados à exposição solar. Considerando também críticas dirigidas a produtos específicos, principalmente relacionadas aos filtros químicos, 6,0% dos vídeos levantavam preocupações quanto à segurança dos protetores solares. Entretanto, em muitos casos, essas críticas eram acompanhadas de mensagens reconhecendo os benefícios da proteção solar. Apenas 1,6% dos vídeos continham exclusivamente mensagens desencorajando o uso de protetores solares.
Entre os argumentos utilizados para questionar esses produtos, destacaram-se alegações sobre possíveis riscos dos filtros químicos, além de preocupações relacionadas a ingredientes específicos. Por outro lado, críticas não relacionadas à saúde concentraram-se em aspectos cosméticos, como textura oleosa, irritação cutânea e formação de resíduo esbranquiçado na pele.
A análise do engajamento revelou que vídeos contendo críticas aos protetores solares, independentemente de também promoverem seu uso, geraram significativamente mais curtidas, compartilhamentos e comentários do que aqueles exclusivamente favoráveis à proteção solar. Esses achados sugeriram que conteúdos controversos ou críticos tendem a estimular maior interação dos usuários.
Outro achado relevante foi a presença relativamente limitada de profissionais de saúde, identificados em cerca de 10% dos vídeos. Além disso, observou-se forte associação entre conteúdos sobre protetor solar e temas gerais de cuidados com a pele, reforçando a integração da proteção solar ao universo do skincare nas redes sociais.
Em conjunto, os resultados indicaram que, embora a desinformação sobre protetores solares represente uma pequena parcela dos conteúdos mais populares do TikTok, seu potencial de engajamento reforça a necessidade de monitoramento contínuo das informações relacionadas à fotoproteção nas redes sociais. O estudo também evidenciou que a comunicação sobre protetores solares na plataforma está frequentemente associada a aspectos estéticos e comerciais, enquanto seus benefícios para a prevenção do câncer de pele recebem menor destaque. Nesse contexto, ampliar a participação de profissionais de saúde e fortalecer estratégias de comunicação baseadas em evidências podem contribuir para o letramento em saúde da população e para a promoção de práticas adequadas de fotoproteção.