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/ Publicado el 31 de agosto de 2025

Úlceras cutâneas

Feridas inflamatórias cutâneas: vasculites e vasculopatias

Entenda as principais causas, manifestações clínicas, métodos diagnósticos e estratégias modernas de tratamento para úlceras inflamatórias de pele.

Autor/a: Dissemond, J. and Romanelli, M.

Fuente: Br J Dermatol, 187: 167-177 (2022). Inflammatory skin diseases and wounds

Feridas inflamatórias da pele podem ser causadas por diversas doenças, como diabetes, insuficiência venosa, doença arterial periférica e lesões por pressão, sendo as doenças inflamatórias cutâneas as causas menos frequentes.

Destacam-se, em especial, os grupos heterogêneos de vasculites e vasculopatias, que geralmente exigem diagnóstico interdisciplinar em centros especializados. Clinicamente, essas feridas se apresentam como úlceras muito dolorosas, resultantes de necrose e cercadas por bordas eritematosas e lívidas. O processo de cicatrização costuma ser difícil e prolongado, afetando significativamente a qualidade de vida dos pacientes.

Diante de feridas que não cicatrizam, é crucial diferenciar inflamação de infecção. Por isso, o escore TILI surgiu como uma ferramenta prática e validada para identificar infecções locais, otimizando o manejo clínico.

Vasculites

As vasculites são doenças inflamatórias dos vasos sanguíneos causadas por processos autoimunes, com maior incidência em idosos. Podem afetar qualquer vaso corporal, o que exige diagnóstico e tratamento interdisciplinar — embora a pele seja o órgão mais frequentemente atingido. Classificam-se pelo calibre dos vasos: pequenos (derme), médios (subcutâneo) e grandes (aorta e ramos). Essa categorização orienta o diagnóstico, prognóstico e conduta. Os principais gatilhos são fármacos, infecções e doenças sistêmicas, embora metade dos casos não tenha causa definida.

O envolvimento de vasos pequenos costuma gerar púrpura palpável, às vezes com bolhas hemorrágicas, em padrão distal-proximal nos membros inferiores. Enquanto vasos médios podem produzir nódulos subcutâneos e livedo racemoso, como na poliarterite nodosa. As lesões costumam ser dolorosas ou pruriginosas e podem vir acompanhadas de sintomas sistêmicos, como febre, fadiga, artrite, alterações gastrointestinais, proteinúria e distúrbios visuais.

A progressão para ulceração ocorre por inflamação transmural, oclusão vascular, ativação da coagulação e necrose. O risco depende do calibre, localização vascular, fisiopatologia envolvida e comorbidades como diabetes e hipercoagulabilidade. A angeíte leucocitoclástica cutânea é a forma mais comum, gerando úlceras dolorosas de bordas lívidas e edemaciadas nas extremidades inferiores.

O diagnóstico inclui anamnese, exame físico e biópsia precoce da borda ativa com histologia e imunofluorescência. Deve-se investigar envolvimento sistêmico e realizar exames complementares conforme a suspeita clínica. A atividade pode ser monitorada pelo BVAS, e o seguimento clínico deve incluir avaliação cutânea, urinária e sorológica por até 12 meses.

O tratamento foca na supressão da inflamação e deve ser individualizado conforme a gravidade e localização das lesões. Casos leves podem ser tratados com analgésicos e suporte sintomático. Lesões ulceradas respondem bem a corticoides tópicos potentes. Imunossupressores sistêmicos incluem colchicina, ciclofosfamida, metotrexato, imunoglobulinas, rituximabe e biológicos como tocilizumabe e anakinra. Análogos de prostaciclina podem ser úteis como terapia complementar.

Vasculopatias

As vasculopatias são doenças de origem vascular não inflamatória que resultam em oclusão dos vasos, relacionadas a distúrbios de coagulação, metabolismo, fatores genéticos ou infecções. Clinicamente, apresentam hemorragia, trombose e lesões cutâneas como livedo racemoso, necrose e atrofia branca, especialmente em membros inferiores, mas também em tronco e braços. O pioderma gangrenoso (PG), embora inflamatório, é incluído neste grupo por não apresentar infiltrado típico de vasculite, e possui variantes ulcerativa, bolhosa, vegetativa e pustulosa.

A patogênese envolve mecanismos distintos: calcifilaxia com depósitos vasculares de cálcio e fósforo; a síndrome do anticorpo antifosfolipídeo (SAF) mediada por autoanticorpos; deficiências de proteínas C e S e mutação do fator V Leiden como causas de estados hipercoaguláveis; necrose por varfarina por toxicidade vascular; e coagulação intravascular disseminada (CIVD), desencadeada por infecções, neoplasias ou trauma. Vasculopatias induzidas por temperaturas frias incluem crioglobulinemia (associada à hepatite C) e criofibrinogenemia, que afetam pele e órgãos internos. O PG está associado à produção exacerbada de citocinas inflamatórias (TNF-α, IL-1β, IL-6, IL-8, IL-17 e IL-23), podendo ser idiopático ou vinculado a doenças autoimunes como artrite reumatoide.

 Diagnóstico de doenças vasculares cutâneas

O diagnóstico envolve biópsia de pele e testes laboratoriais dirigidos. Calcifilaxia é confirmada por cintilografia óssea e avaliação do metabolismo fosfocálcico. CIVD e púrpura fulminante apresentam alterações de coagulação; o tempo de tromboplastina parcial (PTT) se distingue por esquizócitos e hemólise com perfil coagulativo normal. SAF exige evidência de eventos trombóticos e testes positivos para autoanticorpos em duas amostras com intervalo mínimo de 12 semanas. A crioglobulinemia é detectada por técnicas imunológicas; criofibrinogenemia por trombos eosinofílicos em biópsia. Síndrome do êmbolo de colesterol é sugerida por histórico cirúrgico e fendas vasculares em biópsia. PG é avaliado clinicamente, sendo o escore PARACELSUS o mais confiável. A vasculopatia livedoide demanda integração de achados clínicos, histológicos e laboratoriais, com exclusão de causas autoimunes e estados de hipercoagulabilidade.  

Essas informações encontram-se resumidas na tabela 1 abaixo.

Tabela 1: Critérios diagnósticos das principais doenças vasculares cutâneas.

O tratamento depende da causa subjacente e deve ser individualizado. Como essas feridas são geralmente muito dolorosas, o controle da dor é essencial, com possibilidade de uso de anticoagulantes como heparina de baixo peso molecular e rivaroxabana. Na calcifilaxia, recomenda-se uso de tiossulfato de sódio, vitamina K, desbridamento e oxigenoterapia hiperbárica. No PG, o manejo local segue o protocolo PG-TIME, com corticosteroides tópicos ou tacrolimus e compressão nos membros inferiores. Casos graves demandam corticosteroides sistêmicos, ciclosporina e outras drogas imunossupressoras ou imunomoduladoras, como colchicina, dapsona, metotrexato, micofenolato, ciclofosfamida e imunoglobulinas intravenosas. Biológicos (anti-TNF, anti-IL, inibidores de JAK/STAT) têm apresentado boa resposta. Após controle clínico, pode-se manter a remissão com terapias locais menos agressivas.

Manejo moderno de feridas inflamatórias

O cuidado moderno dessas feridas deve seguir o princípio do curativo úmido, com foco em trocas minimamente invasivas e analgesia tópica eficaz (ex.: ibuprofeno, lidocaína, morfina). Pacientes imunossuprimidos se beneficiam de curativos antimicrobianos (como os com polihexanida ou prata). Novos curativos atuam na modulação de cascatas inflamatórias, como MMPs, pH e macrófagos. Para feridas em membros inferiores, a compressão leve ajuda a controlar o edema com maior conforto e adesão ao tratamento. A taxa de cicatrização tem valor prognóstico relevante em úlceras inflamatórias.

Conclusão

As doenças inflamatórias da pele, embora heterogêneas, podem gerar feridas dolorosas e de difícil cicatrização, com alto impacto na morbidade e mortalidade. Seu diagnóstico depende de biópsias adequadas e do envolvimento precoce do dermatologista, enquanto o tratamento exige abordagem multidisciplinar que considere aspectos sistêmicos, comorbidades, controle rigoroso da dor e cuidado local — essencial para melhorar a qualidade de vida e promover a cicatrização. Dada a escassez de evidências clínicas robustas, é urgente a realização de estudos randomizados que orientem diagnósticos e terapias eficazes para essas doenças inflamatórias da pele.