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Publicado el 8 de mayo de 2026

Saúde

Estresse crônico pode contribuir para o acúmulo de gordura abdominal

Alterações hormonais, como o aumento do cortisol, influenciam o metabolismo e podem levar ao ganho de peso mesmo com alimentação equilibrada

Autor/a: Luis Martins

Fuente: Jornal da USP

O estresse crônico, cada vez mais prevalente na prática clínica e na rotina da população, tem impacto que vai além das alterações psicológicas, repercutindo diretamente na fisiologia metabólica. Evidências apontaram que a exposição prolongada ao estresse pode favorecer o acúmulo de gordura abdominal, mesmo em indivíduos com alimentação considerada equilibrada.

Esse fenômeno está diretamente relacionado às alterações neuroendócrinas, em especial ao aumento sustentado dos níveis de cortisol. Em situações agudas de estresse, a liberação de hormônios como cortisol e adrenalina é adaptativa, promovendo maior disponibilidade energética e aumento do estado de alerta. Contudo, quando essa resposta se torna crônica, ocorre um estado persistente de hiperativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA).

Segundo o pesquisador em neuroendocrinologia Rafael Appel Flores, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), a manutenção prolongada desse estado de alerta acarreta múltiplos efeitos sistêmicos. Entre eles, destacam-se aumento da frequência cardíaca, elevação da pressão arterial, comprometimento do sistema imunológico e alterações cognitivas, incluindo prejuízo da memória e maior risco de transtornos ansiosos e depressivos.


Papel do cortisol na gordura visceral

Do ponto de vista metabólico, a ação do cortisol exerce influência determinante sobre a distribuição de gordura corporal. A gordura visceral, localizada na região abdominal, apresenta maior densidade de receptores para glicocorticoides quando comparada a outras regiões, como quadris e coxas. Esse fator torna o tecido adiposo abdominal mais sensível à ação do cortisol, favorecendo seu acúmulo.

Além disso, a gordura visceral possui elevada atividade metabólica e capacidade de secreção de citocinas inflamatórias, contribuindo para um estado inflamatório crônico de baixo grau. Esse processo perpetua um ciclo que favorece a resistência insulínica e o aumento progressivo do tecido adiposo abdominal.


Interação entre estresse, comportamento alimentar e atividade física

Embora o estresse possa induzir o acúmulo de gordura por vias hormonais independentes da dieta, sua associação com fatores comportamentais potencializa esse efeito. Níveis elevados de cortisol estão relacionados ao aumento do apetite, particularmente por alimentos altamente calóricos, ricos em açúcares e gorduras, caracterizando o padrão de alimentação emocional.

Além disso, o estresse crônico tende a reduzir a motivação para a prática de atividade física, favorecendo o sedentarismo, o que agrava o desequilíbrio energético e metabólico.

Apesar disso, a manutenção de hábitos saudáveis continua sendo fator protetor relevante. Uma alimentação equilibrada e a prática regular de exercícios físicos atenuam os impactos do estresse sobre o metabolismo e reduzem o risco de desenvolvimento de doenças metabólicas, como o diabetes mellitus tipo 2.


Diferenças sexuais na resposta ao estresse

A resposta ao estresse e a distribuição de gordura também apresentam diferenças entre os sexos. Em geral, homens tendem a apresentar maior resposta de cortisol ao estresse e maior predisposição ao acúmulo de gordura visceral.

Nas mulheres em idade reprodutiva, o estrogênio exerce efeito protetor, favorecendo o depósito de gordura em regiões periféricas, como quadris e coxas, consideradas metabolicamente menos prejudiciais. Contudo, após a menopausa, a redução dos níveis de estrogênio promove mudança nesse padrão, com aumento do acúmulo de gordura abdominal e consequente elevação do risco cardiometabólico.


Manejo clínico e estratégias de prevenção

O manejo do estresse deve ser considerado componente essencial na prevenção de desordens metabólicas. Intervenções simples e sustentáveis no cotidiano podem gerar impacto significativo, incluindo:

  • prática regular de atividade física (≥30 minutos na maioria dos dias da semana);
  • técnicas de relaxamento e redução do estresse;
  • manutenção de sono adequado;
  • fortalecimento de vínculos sociais;
  • adoção de alimentação equilibrada.