Quando funcionários do meu hospital me perguntaram repetidamente: “Você está pronto para entrar na escala de plantão?”, senti-me ao mesmo tempo desencorajado e inadequado. Embora não fosse a intenção deles, suas palavras machucaram. Sentia que a minha necessidade de adequações no trabalho estava sendo questionada. Eu queria ajudar, mas não conseguia assumir esse tipo de demanda.
Um ano antes, eu havia sido paciente em uma unidade de reabilitação após uma lesão cerebral traumática. Naquela época, eu temia nunca mais voltar a trabalhar como médico. Apesar de melhoras significativas, a deficiência ainda me causava sintomas e dificuldades diárias. Eu conseguia oferecer atendimento de qualidade em um ritmo reduzido, mas já estava no meu limite. As escalas adaptadas eram essenciais para que eu pudesse trabalhar.
Minha lesão foi causada por um grave acidente de bicicleta após o fim da residência. Passei semanas em estado amnésico e, aos poucos, reconstruí a história do que havia vivido. Após retornar ao Canadá, enfrentei o maior desafio da minha vida: a reabilitação. Depois da alta, atividades simples tornaram-se difíceis, estímulos rotineiros provocavam sintomas incapacitantes que me deixavam atormentado.
Com o apoio da equipe de reabilitação e da minha esposa, iniciei uma recuperação gradual. Determinado a retornar à medicina, fui orientado a trabalhar com uma carga modificada e iniciei o trabalho em uma clínica médica geral. Voltar ao hospital foi extremamente desafiador: o ambiente era barulhento e exaustivo. Recebi adaptações funcionais para atuar no ambulatório, onde reaprendi a lidar com casos complexos. No início, não quis me identificar como um médico com deficiência, por conta do estigma associado, mas aceitei que minha condição era de longo prazo. Passei a focar na minha funcionalidade, aprendendo a respeitar limites, fazer pausas e adaptar minha agenda. Ao longo do ano seguinte, meus sintomas diminuíram e minha capacidade aumentou.
Quando tentei retomar o trabalho, enfrentei a ausência de políticas claras para readaptação funcional. Como minha deficiência não era visível, precisei me auto-advogar para obter uma escala adaptada, sem plantões noturnos. Mas as exigentes responsabilidades da enfermaria e os deveres de plantão pareciam fixos e inflexíveis. Fui orientado a contatar outros médicos que cedessem parte do trabalho, algo que um médico sem deficiência nunca precisaria fazer. Um colega aliado generosamente me acolheu para cuidar de alguns de seus pacientes internados, o que me ajudou a progredir no ambiente hospitalar.
Hoje reconheço porque me senti tão diminuído durante minhas tentativas frustradas de obter ajustes no ambiente de trabalho. Nesse período, lidei com o capacitismo estrutural: políticas, procedimentos e privilégios que favorecem pessoas sem deficiência em detrimento daquelas com deficiência. A falta de políticas, o medo do estigma e a baixa inclusão ainda restringem adaptações no trabalho para médicos com deficiência. Essa experiência me motivou a compartilhar minha história e a atuar por mais acessibilidade e equidade. Entendi que minha narrativa não é uma fraqueza, mas uma oportunidade poderosa. Compartilhar experiências publicamente faz com que outros médicos se aproximem para compartilhar seus próprios desafios, lembrando que a deficiência é parte da experiência humana.
A advocacia é importante, mas somente a ação pode gerar mudanças sistêmicas. Ao longo dos anos, dialoguei com lideranças médicas sobre o capacitismo estrutural na medicina. Muitos encontros foram frustrantes, com pouco engajamento ou resultados concretos, o que me fez questionar a sustentabilidade desses esforços diante de tantas outras demandas concorrentes.
Ainda assim, algumas colaborações foram transformadoras. Com a liderança do meu hospital, desenvolvemos um plano de ação que resultou na primeira política canadense de adaptações para médicos com deficiência. Também contribuí para a criação do primeiro recurso educacional sobre direitos legais de médicos deficientes no Canadá. Essas experiências mostraram o valor de uma liderança inclusiva, orientada à ação e construída com pessoas que têm vivência direta da deficiência.
A ação institucional é essencial. Melhorar a inclusão de médicos com deficiência fortalece a profissão e o cuidado aos pacientes. Como clínico e professor, a experiência de viver com uma deficiência ampliou minha empatia e minha atenção às barreiras enfrentadas pelos pacientes. Médicos com deficiência trazem uma perspectiva valiosa para a medicina, e sua inclusão beneficia todo o sistema.
Fonte: Being human: ableism, advocacy, and strengthening medicine - The Lancet