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Publicado el 1 de noviembre de 2026

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Disfunção sexual pós-ISRS (PSSD): prevalência, impacto e desafios na prática clínica

Uma revisão das evidências atuais sobre prevalência, manifestações clínicas, impacto na qualidade de vida e desafios relacionados ao diagnóstico e manejo da Disfunção sexual pós-ISRS (PSSD).

Fuente: IntraMed Brasil

A disfunção sexual pós-inibidores seletivos da recaptação de serotonina (PSSD, do inglês post-SSRI sexual dysfunction) é uma condição iatrogênica caracterizada pela persistência de sintomas sexuais após a interrupção do uso de antidepressivos serotoninérgicos, como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRSs) e os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSNs).1,2

Embora os ISRSs sejam amplamente utilizados no tratamento de transtornos depressivos, ansiedade e diversas outras condições clínicas,2,3 evidencia-se um número crescente de casos em que disfunções sexuais emergem durante ou após o tratamento com essas medicações de uso contínuo e prolongado, e esses efeitos podem se manter de forma indefinida, mesmo após a descontinuação.1,3,4

As manifestações clínicas da PSSD em homens incluem anestesia ou diminuição da sensibilidade no órgão genital, orgasmo fraco ou sem prazer, diminuição da libido, disfunção erétil e ejaculação precoce; em mulheres podem ocorrer o ressecamento vaginal e a redução da sensibilidade mamilar.1,3,5

Além disso, sintomas não sexuais, como anedonia, apatia e embotamento afetivo, têm sido frequentemente relatados.3 A triagem e o reconhecimento dessa síndrome permanecem insuficientes tanto por parte de profissionais de saúde quanto dos próprios pacientes, em grande parte devido à escassez de informações e à dificuldade de diferenciar os sintomas da PSSD daqueles relacionados ao transtorno depressivo subjacente.3,5

Estima-se que de 5% a 15% dos pacientes desenvolvam algum grau de disfunção sexual durante o uso de antidepressivos, mas não há dados consistentes sobre a proporção que evolui para PSSD após a interrupção.1 Estimativas variam amplamente devido à ausência de estudos prospectivos e à dificuldade metodológica de quantificar a incidência.6 Estudos pré-clínicos indicam que a exposição precoce aos ISRSs pode levar a alterações permanentes no comportamento sexual de modelos animais, o que sugere uma possível base neurobiológica na persistência dos sintomas.2 Em seres humanos, os dados epidemiológicos são escassos, mas estudos recentes estimaram um risco de PSSD de aproximadamente 1 caso para cada 216 pacientes expostos a antidepressivos serotoninérgicos.7

A literatura médica começou a reconhecer formalmente a PSSD a partir de 2006.5 Desde então, agências reguladoras como a European Medicines Agency e a Health Canada passaram a incluir advertências sobre disfunção sexual persistente nas bulas desses medicamentos.6 Apesar disso, muitos profissionais ainda subestimam a frequência e o impacto dessa condição, o que limita a comunicação adequada sobre os riscos para pacientes e compromete o processo de consentimento informado.6,7

Em um estudo recente, conduziu-se uma pesquisa com indivíduos acometidos por PSSD, com o objetivo de melhor caracterizar a síndrome e seu impacto sobre diversos aspectos de qualidade de vida.8 Os questionários, aplicados em um grupo de apoio on-line dedicado ao tema, avaliaram as medicações associadas ao desenvolvimento da condição, os sintomas experimentados durante e após o tratamento, a evolução clínica, a eficácia de diferentes abordagens terapêuticas e o impacto subjetivo do distúrbio.8 Após a análise das 239 respostas, concluiu-se que a maioria dos participantes relatou uso prévio de ISRS (92%), em comparação a 8% com histórico de uso exclusivo de IRSN ou antidepressivos atípicos.8 Após a descontinuação das medicações, 45% dos participantes relataram melhora parcial dos sintomas, enquanto 37% afirmaram que os sintomas permaneceram inalterados ou pioraram.8 Apenas 12% dos entrevistados referiram ter sido orientados previamente sobre o risco de disfunção sexual associada ao uso de antidepressivos. A grande maioria classificou o impacto da PSSD na qualidade de vida como extremamente negativo (59%) ou muito negativo (23%).8

Os mecanismos fisiopatológicos da PSSD permanecem indefinidos. Diversas hipóteses foram propostas, como alterações epigenéticas, neurotoxicidade serotoninérgica, disfunções hormonais, dessensibilização de receptores 5-HT1A pré e pós-sinápticos, além de alterações dopaminérgicas e noradrenérgicas.1,3 Estudos em modelos animais demonstraram que a exposição neonatal a ISRS resulta em redução sustentada da expressão de transportadores de serotonina e de receptores serotoninérgicos, com impacto negativo no comportamento sexual adulto.2 Em seres humanos, esses achados são corroborados por relatos de casos e séries que identificam persistência dos sintomas, por meses ou por anos, após a interrupção do uso.4,5

Na avaliação da dapoxetina usada sob demanda feita pela European Medicines Agency (EMA), os eventos adversos comumente relacionados à classe dos ISRS, como a disfunção sexual, não foram aparentes quando avaliados por instrumentos específicos em estudos com dapoxetina.9 Não foram localizados na literatura artigos que relacionassem a dapoxetina com a PSSD.

A abordagem diagnóstica da PSSD baseia-se na exclusão de outras causas potenciais de disfunção sexual, como fatores psicossociais, uso de outras medicações ou presença de comorbidades médicas.3 A falta de critérios diagnósticos universalmente aceitos e de ferramentas validadas para avaliação de sintomas específicos, como a anestesia genital, dificulta ainda mais o diagnóstico precoce e a monitorização clínica.6

No que tange ao manejo, nenhuma estratégia terapêutica mostrou eficácia consistente até o momento. Diversas intervenções têm sido sugeridas e incluem o uso de antagonistas serotoninérgicos, agonistas dopaminérgicos, fotobiomodulação com laser de baixa intensidade, além de medidas psicossociais de suporte.1,3 A resposta a essas abordagens é, porém, variável e limitada, o que reforça a necessidade de avanços na compreensão fisiopatológica do distúrbio.3,5

É imperativo aumentar a conscientização entre profissionais de saúde e pacientes sobre os riscos de disfunção sexual persistente associada ao uso de antidepressivos. O esclarecimento prévio e contínuo sobre potenciais efeitos adversos sexuais deve ser parte integrante do manejo terapêutico com ISRS, especialmente se considerando a elevada prevalência global do uso desses medicamentos e o impacto devastador que a PSSD pode ter na qualidade de vida e na saúde mental dos indivíduos afetados.1,6,7 O aconselhamento pré-tratamento e o monitoramento ativo da função sexual durante e após o uso dessas medicações são cruciais para garantir um cuidado centrado no paciente.

Esses dados reforçam o fato de que a PSSD pode ter efeitos devastadores sobre o bem-estar e a saúde global. Tornam-se, portanto, imprescindíveis a ampliação da conscientização entre os profissionais prescritores e a fomentação de novas pesquisas para elucidar os mecanismos fisiopatológicos e as estratégias terapêuticas eficazes nessa condição. Enquanto isso a prevenção continua sendo a forma mais eficaz de controle da PSSD.


Referências

1. Bala A, Nguyen HMT, Hellstrom WJG. Post-SSRI sexual dysfunction: a literature review. Sex Med Rev. 2018;6(1):29-34.

2. Coskuner ER, Culha MG, Ozkan B, Kaleagasi EO. Post-SSRI sexual dysfunction: preclinical to clinical. Is it fact or fiction? Sex Med Rev. 2018;6(2):217-23.

3. Peleg LC, Rabinovitch D, Lavie Y, Rabbie DM, Horowitz I, Fruchter E, et al. Post-SSRI Sexual Dysfunction (PSSD): biological plausibility, symptoms, diagnosis, and presumed risk factors. Sex Med Rev. 2022;10(1):91-8.

4. Ben-Sheetrit J, Aizenberg D, Csoka AB, Weizman A, Hermesh H. Post-SSRI sexual dysfunction: clinical characterization and preliminary assessment of contributory factors and dose-response relationship. J Clin Psychopharmacol. 2015;35(3):273-8.

5. Reisman Y. Sexual consequences of post-SSRI syndrome. Sex Med Rev. 2017;5(4):429-33.

6. Healy D, Mangin D. Post-SSRI sexual dysfunction: barriers to quantifying incidence and prevalence. Epidemiol Psychiatr Sci. 2024;33:e40.

7. Ben-Sheetrit J, Hermon Y, Birkenfeld S, Gutman Y, Csoka A, Toren P. Estimating the risk of irreversible post-SSRI sexual dysfunction (PSSD) due to serotonergic antidepressants. Ann Gen Psychiatry. 2023;22(1):15.

8. Studt A, Gannon M, Orzel J, Vaughan A, Pearlman AM. Characterizing post-SSRI sexual dysfunction and its impact on quality of life through an international online survey. Int J Risk Saf Med. 2021;32(4):321-9.

9. European Medicines Agency. Priligy - referral. 2012. Disponível em: https://www.ema.europa.eu/en/medicines/human/referrals/priligy. Acesso em: 1 ago. 2025.



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