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Publicado el 26 de octubre de 2026

Estudo SUMMIT

Depressão perinatal: o papel da telemedicina e do compartilhamento de tarefas

Acompanhamento longitudinal validou o uso de profissionais não especializados e consultas virtuais como pilares estratégicos para reduzir a lacuna de acesso à saúde mental materna.

Autor/a: Singla D, de Oliveira C, Silver R et al.

Fuente: The Lancet Obstetrics, Gynaecology, & Women’s Health, 2026 Sustained clinical and cost-effectiveness of task-sharing and telemedicine for perinatal depression: a secondary analysis of a pragmatic, factorial, randomised controlled trial

A depressão perinatal é a complicação mais comum do parto, afetando entre 20% e 25% das gestantes e puérperas em países de alta renda. Quando não tratada, o seu impacto vai além da pessoa afetada, produzindo efeitos negativos sobre os desfechos obstétricos, o desenvolvimento infantil, a saúde mental na adolescência e os gastos com saúde a longo prazo.

Psicoterapias baseadas em evidências, como a ativação comportamental, são eficazes no tratamento da depressão perinatal. Apesar dessa sólida efetividade clínica, menos de 10% a 20% das mulheres afetadas chegam a receber essas intervenções. Essa lacuna no acesso decorre de barreiras estruturais e práticas, como custos elevados, escassez de profissionais habilitados, limitações geográficas e dificuldades de agendamento.

Para mitigar tais gargalos, emergem duas estratégias complementares e escaláveis: o compartilhamento de tarefas (task-sharing) e a telemedicina. O primeiro envolve o treinamento de profissionais de saúde não especializados em saúde mental, como enfermeiros e obstetrizes, para a entrega de intervenções estruturadas. Já a segunda busca eliminar obstáculos geográficos, de transporte e logísticos.

O ensaio clínico Scaling Up Maternal Mental healthcare by Increasing access to Treatment (SUMMIT) foi desenhado para avaliar essas abordagens entregando de seis a oito sessões de ativação comportamental. A análise primária aos três meses de acompanhamento demonstrou que a ativação comportamental entregue por profissionais não especialistas foi não inferior à prestada por especialistas, e que a telemedicina foi não inferior ao atendimento presencial na redução de sintomas depressivos e ansiosos.

Contudo, a tomada de decisão em políticas e gestão de saúde exige respostas sobre a sustentabilidade do efeito e a viabilidade econômica de longo prazo. Por isso, Sigla et al., (2026) realizaram uma análise secundária longitudinal de 12 meses do estudo SUMMIT. O objetivo foi responder três questões centrais: se a melhora sintomática se sustenta ao longo de 12 meses, se os resultados mantidos variam conforme a gravidade clínica inicial das pacientes, e, se essas abordagens mantêm a custo-efetividade ao longo de um ano.

O estudo SUMMIT caracterizou-se como um ensaio clínico pragmático, multicêntrico e randomizado. A pesquisa foi conduzida em três redes hospitalares acadêmicas situadas em Toronto (Canadá), Chapel Hill e Chicago (EUA), nas quais as participantes foram alocadas aleatoriamente em quatro braços de intervenção: telemedicina por profissional não especialista, telemedicina por especialista, atendimento presencial por não especialista e atendimento presencial por especialista. Ao longo da execução, adaptações no protocolo de randomização foram necessárias devido às restrições da pandemia da COVID-19. Paralelamente ao ensaio clínico, realizou-se uma avaliação econômica integrada.

A intervenção testada consistiu em um programa manualizado de ativação comportamental estruturado em seis a oito sessões individuais e semanais, adaptado dos programas Healthy Activity Program e Alma Program. Seus componentes centrais abordaram psicoeducação, automonitoramento do humor, agendamento de atividades alinhadas a valores pessoais, resolução estruturada de problemas e aprimoramento da efetividade interpessoal. Para garantir a padronização do tratamento e avaliar se os ganhos se mantinham de forma autônoma, nenhuma sessão adicional foi fornecida após a fase aguda de três meses. Os profissionais não especialistas foram representados por enfermeiros, obstetrizes e doulas sem formação prévia em saúde mental ou psicoterapia, enquanto o grupo de especialistas englobou psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais com pelo menos cinco anos de experiência clínica.

O desfecho primário foi a pontuação de sintomas depressivos mensurada pela Edinburgh Postnatal Depression Scale (EPDS), enquanto o secundário consistiu na sintomatologia ansiosa avaliada pelo instrumento Generalized Anxiety Disorder-7 (GAD-7), ambos aplicados no momento basal e aos três, seis e doze meses pós-randomização. Para a avaliação econômica, o desfecho primário de efetividade foi a qualidade de vida relacionada à saúde aferida pelo instrumento EQ-5D-5L, convertido em escores de utilidade com pesos de preferência específicos de cada país para o cálculo dos Anos de Vida Ajustados pela Qualidade (QALYs) obtidos pela área sob a curva ao longo de 12 meses.

Das 3.629 gestantes abordadas entre janeiro de 2020 e outubro de 2023, 1.230 foram randomizadas (617 para a equipe de não especialistas e 613 para especialistas; 941 para telemedicina e 289 para atendimento presencial), registrando-se uma retenção de acompanhamento de 1.042 participantes na avaliação final. Os modelos lineares de efeitos mistos (LMM) demonstraram uma redução significativa e sustentada nas pontuações do EPDS ao longo do período de acompanhamento, atingindo patamares subclínicos tanto no grupo conduzido por não especialistas quanto naquele atendido por especialistas. A taxa de regressão dos sintomas não apresentou diferença estatisticamente significativa entre os dois perfis de profissionais ao longo do tempo.

De modo equivalente, a diminuição dos sintomas depressivos na modalidade de telemedicina acompanhou a do atendimento presencial. Ao término dos doze meses, cerca de três quintos das participantes (59,21%) mantiveram pontuações no EPDS inferiores a 10, confirmando a manutenção da resposta terapêutica mesmo sem sessões adicionais após a fase aguda de 3 meses.

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No que tange aos sintomas de ansiedade, os resultados seguiram exatamente o mesmo padrão, exibindo reduções estatisticamente significantes e clinicamente expressivas até o 12º mês para não especialistas. Da mesma forma, as reduções no GAD-7 foram equivalentes entre a telemedicina e o formato presencial, sem diferenças significativas na taxa de melhora ao longo de um ano.

Além disso, a análise de subgrupos estratificada pela gravidade clínica inicial (leve, moderada e grave) evidenciou que o declínio dos sintomas de depressão e ansiedade ocorreu de forma consistente em todas as categorias basais. Esse achado confirma que a eficácia dessas estratégias escaláveis não se restringiu a quadros leves ou transitórios.

Sob a perspectiva econômica, o custo da intervenção por participante foi significativamente menor quando entregue por profissionais não especialistas (média de US$ 441,72) do que por especialistas (média de US$ 1.019,60), bem como quando realizada via telemedicina (média de US$ 667,37) em comparação ao formato presencial (média de US$ 954,69). Os custos totais com utilização de serviços de saúde ao longo de 12 meses foram inferiores nos grupos de não especialistas e telemedicina, embora essas diferenças globais de custos de saúde não tenham alcançado significância estatística.

A variação nos QALYs situou-se praticamente nula entre os grupos de profissionais e entre as modalidades, demonstrando igualdade nos ganhos de qualidade de vida.

Em conclusão, Sigla et al., (2026) demonstrou que a ativação comportamental entregue por profissionais não especialistas e via telemedicina proporcionoumelhorias sustentadas nos sintomas de depressão e ansiedade perinatais ao longo de 12 meses, apresentando custos inferiores para o setor de saúde e uma elevada probabilidade de custo-efetividade em comparação ao atendimento presencial e conduzido por especialistas. Assim, gestores e formuladores de políticas devem considerar o task-sharing e a telemedicina como pilares centrais de um modelo de cuidado equitativo, sustentável e fundamentado em evidências.