A histerectomia é um dos procedimentos ginecológicos mais realizados para doenças benignas. Apesar das vantagens da histerectomia vaginal (HV) e da laparoscópica, como menor dor pós-operatória, recuperação mais rápida, menor tempo de internação e menor taxa de complicações, 70–80% dos procedimentos ainda são realizados por via abdominal.
A baixa utilização da HV está frequentemente relacionada à limitada experiência dos cirurgiões, especialmente em casos de ausência de prolapso uterino, miomas, cirurgias prévias ou nuliparidade. No entanto, evidências demonstraram que a via vaginal é segura mesmo nessas situações.
Embora sociedades científicas e revisões sistemáticas recomendem a HV como via preferencial quando tecnicamente viável, existe uma tendência mundial de substituição dessa abordagem pela laparoscopia, o que também impacta a redução da exposição dos residentes à técnica durante a formação.
Diante desse cenário, a International Society for Gynecologic Endoscopy (ISGE) publicou recomendações baseadas em evidências para orientar a seleção de pacientes e a realização segura da HV em úteros sem prolapso, com o objetivo de reduzir complicações, custos e otimizar os desfechos cirúrgicos.
As orientações foram elaboradas a partir de uma revisão sistemática da literatura nas bases Medline/PubMed e Cochrane, entre 1997 e 2019. A qualidade das evidências foi avaliada pelo sistema Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation (GRADE), permitindo classificar o nível de evidência disponível, e as recomendações finais foram desenvolvidas por consenso entre especialistas.
A literatura disponível sobre a técnica ainda é limitada, com escassez de ensaios clínicos randomizados e metanálises de alta qualidade. Por isso, além das evidências científicas, os autores também se basearam na experiência de especialistas com grande volume cirúrgico.
O ISGE propôs uma técnica padronizada em 10 etapas, aplicável à maioria dos casos:
1. Preparo pré-operatório: Recomendou-se consentimento informado detalhado, avaliação clínica completa, rastreamento cervical atualizado, investigação e correção de anemia, avaliação do risco tromboembólico e antibioticoprofilaxia para todas as pacientes submetidas ao procedimento.
2. Considerações sobre obesidade e posicionamento da paciente: A obesidade não deve ser considerada contraindicação à via vaginal. Pelo contrário, quando tecnicamente possível, a HV deve ser priorizada em pacientes obesas e com obesidade mórbida, por evitar complicações associadas à cirurgia abdominal. Nesses casos, o posicionamento cirúrgico em hiperflexão pode facilitar a exposição do colo uterino e a realização do procedimento.
3. Incisão da junção cérvico-vaginal: Em relação à técnica cirúrgica, recomenda-se a realização de uma incisão circular na junção cérvico-vaginal, respeitando os planos anatômicos para reduzir sangramento e evitar lesão vesical.
4. Abertura do peritônio posterior: A abertura inicial do peritônio posterior é incentivada, especialmente em pacientes com cesariana prévia ou miomas anteriores, pois facilita a identificação de aderências, mobilidade uterina e o acesso subsequente ao compartimento anterior.
5. Dissecção da bexiga e abertura do peritônio anterior: A dissecção adequada da bexiga e a identificação precoce do peritônio vesicouterino são consideradas etapas cruciais para reduzir o risco de lesões urinárias. Os autores também defenderam a abertura dos compartimentos peritoneais anterior e posterior antes da ligadura dos vasos uterinos, estratégia associada a menor sangramento e maior segurança cirúrgica.
6. Dissecção dos ligamentos uterossacros e cardinais: Os ligamentos uterossacros e cardinais podem ser abordados antes ou após a abertura do peritônio anterior, desde que sejam cuidadosamente clampeados e ligados próximos ao colo uterino, preservando a distância dos ureteres. As suturas desses pedículos devem ser preservadas para posterior suspensão da cúpula vaginal, contribuindo para a prevenção de prolapso apical.
7. Ligadura dos vasos uterinos: Após a adequada exposição anatômica, procede-se à ligadura dos vasos uterinos, etapa fundamental para o controle vascular e progressão segura da cirurgia.
8. Secção dos suportes superiores do útero e retirada uterina: Após a ligadura dos vasos uterinos, os ligamentos remanescentes que sustentam o útero são seccionados progressivamente até sua completa remoção. Quando indicada, a salpingo-ooforectomia pode ser realizada por via vaginal, desde que previamente discutida com a paciente e autorizada em consentimento informado.
9. Fechamento da cúpula vaginal: Quanto ao fechamento, os autores não encontraram evidências suficientes para recomendar o fechamento rotineiro do peritônio nem para favorecer o fechamento horizontal ou vertical da cúpula vaginal. Entretanto, eles reforçaram a importância da fixação da cúpula aos ligamentos uterossacros e cardinais para manutenção do suporte vaginal.
10. Tamponamento vaginal e uso da sonda vesical: O tamponamento vaginal de rotina não é recomendado, uma vez que estudos clínicos não demonstraram benefícios consistentes em termos de dor, sangramento, infecção ou hematoma. Nos casos em que o tamponamento for utilizado, recomenda-se manutenção concomitante de sonda vesical e retirada de ambos após cerca de 24 horas. A remoção precoce da sonda urinária é incentivada para reduzir morbidade febril, favorecer a mobilização e encurtar o tempo de internação.
A histerectomia vaginal deve ser considerada a via preferencial para mulheres com útero sem prolapso. Para ampliar sua utilização de forma segura, são fundamentais diretrizes baseadas em evidências para a seleção adequada das pacientes, um algoritmo de decisão clínica e uma técnica cirúrgica padronizada. Embora sejam necessários mais estudos sobre o tema, a adoção dessas recomendações feitas pelo ISGE pode contribuir para aumentar a proficiência dos cirurgiões, reduzir complicações e expandir o acesso seguro à cirurgia vaginal.
Publicado em 10 de agosto de 2026
Cirurgia ginecológica
Como realizar histerectomia vaginal em úteros sem prolapso?
Recomendações práticas baseadas em evidências da International Society for Gynecologic Endoscopy (ISGE).
Autor/a: Chrysostomou, A. et al.
Fuente: European Journal of Obstetrics and Gynecology and Reproductive Biology, 2020; 252, 118-126 Evidence-based practical guidelines of the International Society for Gynecologic Endoscopy (ISGE) for vaginal hysterectomy
A histerectomia é um dos procedimentos ginecológicos mais realizados para doenças benignas. Apesar das vantagens da histerectomia vaginal (HV) e da laparoscópica, como menor dor pós-operatória, recuperação mais rápida, menor tempo de internação e menor taxa de complicações, 70–80% dos procedimentos ainda são realizados por via abdominal.
A baixa utilização da HV está frequentemente relacionada à limitada experiência dos cirurgiões, especialmente em casos de ausência de prolapso uterino, miomas, cirurgias prévias ou nuliparidade. No entanto, evidências demonstraram que a via vaginal é segura mesmo nessas situações.
Embora sociedades científicas e revisões sistemáticas recomendem a HV como via preferencial quando tecnicamente viável, existe uma tendência mundial de substituição dessa abordagem pela laparoscopia, o que também impacta a redução da exposição dos residentes à técnica durante a formação.
Diante desse cenário, a International Society for Gynecologic Endoscopy (ISGE) publicou recomendações baseadas em evidências para orientar a seleção de pacientes e a realização segura da HV em úteros sem prolapso, com o objetivo de reduzir complicações, custos e otimizar os desfechos cirúrgicos.
As orientações foram elaboradas a partir de uma revisão sistemática da literatura nas bases Medline/PubMed e Cochrane, entre 1997 e 2019. A qualidade das evidências foi avaliada pelo sistema Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation (GRADE), permitindo classificar o nível de evidência disponível, e as recomendações finais foram desenvolvidas por consenso entre especialistas.
A literatura disponível sobre a técnica ainda é limitada, com escassez de ensaios clínicos randomizados e metanálises de alta qualidade. Por isso, além das evidências científicas, os autores também se basearam na experiência de especialistas com grande volume cirúrgico.
O ISGE propôs uma técnica padronizada em 10 etapas, aplicável à maioria dos casos:
1. Preparo pré-operatório: Recomendou-se consentimento informado detalhado, avaliação clínica completa, rastreamento cervical atualizado, investigação e correção de anemia, avaliação do risco tromboembólico e antibioticoprofilaxia para todas as pacientes submetidas ao procedimento.
2. Considerações sobre obesidade e posicionamento da paciente: A obesidade não deve ser considerada contraindicação à via vaginal. Pelo contrário, quando tecnicamente possível, a HV deve ser priorizada em pacientes obesas e com obesidade mórbida, por evitar complicações associadas à cirurgia abdominal. Nesses casos, o posicionamento cirúrgico em hiperflexão pode facilitar a exposição do colo uterino e a realização do procedimento.
3. Incisão da junção cérvico-vaginal: Em relação à técnica cirúrgica, recomenda-se a realização de uma incisão circular na junção cérvico-vaginal, respeitando os planos anatômicos para reduzir sangramento e evitar lesão vesical.
4. Abertura do peritônio posterior: A abertura inicial do peritônio posterior é incentivada, especialmente em pacientes com cesariana prévia ou miomas anteriores, pois facilita a identificação de aderências, mobilidade uterina e o acesso subsequente ao compartimento anterior.
5. Dissecção da bexiga e abertura do peritônio anterior: A dissecção adequada da bexiga e a identificação precoce do peritônio vesicouterino são consideradas etapas cruciais para reduzir o risco de lesões urinárias. Os autores também defenderam a abertura dos compartimentos peritoneais anterior e posterior antes da ligadura dos vasos uterinos, estratégia associada a menor sangramento e maior segurança cirúrgica.
6. Dissecção dos ligamentos uterossacros e cardinais: Os ligamentos uterossacros e cardinais podem ser abordados antes ou após a abertura do peritônio anterior, desde que sejam cuidadosamente clampeados e ligados próximos ao colo uterino, preservando a distância dos ureteres. As suturas desses pedículos devem ser preservadas para posterior suspensão da cúpula vaginal, contribuindo para a prevenção de prolapso apical.
7. Ligadura dos vasos uterinos: Após a adequada exposição anatômica, procede-se à ligadura dos vasos uterinos, etapa fundamental para o controle vascular e progressão segura da cirurgia.
8. Secção dos suportes superiores do útero e retirada uterina: Após a ligadura dos vasos uterinos, os ligamentos remanescentes que sustentam o útero são seccionados progressivamente até sua completa remoção. Quando indicada, a salpingo-ooforectomia pode ser realizada por via vaginal, desde que previamente discutida com a paciente e autorizada em consentimento informado.
9. Fechamento da cúpula vaginal: Quanto ao fechamento, os autores não encontraram evidências suficientes para recomendar o fechamento rotineiro do peritônio nem para favorecer o fechamento horizontal ou vertical da cúpula vaginal. Entretanto, eles reforçaram a importância da fixação da cúpula aos ligamentos uterossacros e cardinais para manutenção do suporte vaginal.
10. Tamponamento vaginal e uso da sonda vesical: O tamponamento vaginal de rotina não é recomendado, uma vez que estudos clínicos não demonstraram benefícios consistentes em termos de dor, sangramento, infecção ou hematoma. Nos casos em que o tamponamento for utilizado, recomenda-se manutenção concomitante de sonda vesical e retirada de ambos após cerca de 24 horas. A remoção precoce da sonda urinária é incentivada para reduzir morbidade febril, favorecer a mobilização e encurtar o tempo de internação.
A histerectomia vaginal deve ser considerada a via preferencial para mulheres com útero sem prolapso. Para ampliar sua utilização de forma segura, são fundamentais diretrizes baseadas em evidências para a seleção adequada das pacientes, um algoritmo de decisão clínica e uma técnica cirúrgica padronizada. Embora sejam necessários mais estudos sobre o tema, a adoção dessas recomendações feitas pelo ISGE pode contribuir para aumentar a proficiência dos cirurgiões, reduzir complicações e expandir o acesso seguro à cirurgia vaginal.