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Publicado el 9 de marzo de 2026

Hipertensão

Como a microbiota intestinal afeta a regulação da pressão arterial?

Uma análise integrada de como nutrientes, padrões alimentares, aditivos e práticas agrícolas remodelam a microbiota intestinal.

Autor/a: Kret, Z.et al.

Fuente: American Heart Association, V. 82, I.10 (2025); Pgs 1569-1589 Food as Medicine for Hypertension: Microbiota as Mediators

A hipertensão é o principal fator de risco modificável para doenças cardiovasculares, renais e cerebrovasculares, e sua alta prevalência destaca a necessidade de estratégias complementares ao tratamento farmacológico.

A dieta é determinante para modular a composição e a função da microbiota intestinal, além de sustentar benefícios de terapias como o transplante de microbiota fecal. Nesse contexto, a abordagem de “alimento como medicamento” destaca o potencial de alimentos específicos como agentes nutracêuticos no controle da hipertensão.

A dieta DASH, ricas em potássio, magnésio e antioxidantes e com menor teor de sódio, açúcares e gorduras saturadas, melhora a função vascular, reduz o estresse oxidativo e favorece a natriurese. Apesar desses benefícios, o impacto dessas dietas sobre a modulação da microbiota e a regulação da pressão arterial ainda é pouco explorado.

Diante disso, a alimentação emerge como um modulador central da microbiota, representando uma estratégia promissora para ajustar a microbiota de forma a favorecer a homeostase da pressão arterial. A revisão de Kret e colaboradores (2025) sintetizou como os principais componentes da dieta, adição de aditivos e práticas agrícolas, podem influenciar a microbiota e contribuir para o controle da hipertensão.

Carboidratos na dieta

Dietas ricas em açúcares simples e alimentos ultraprocessados (AUPs) aumentam o risco cardiometabólico e a probabilidade de hipertensão, pois comprometem a barreira intestinal e alteram a microbiota, levando a inflamação, menor produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) e maior permeabilidade intestinal. Esses efeitos favorecem a translocação de lipopolissacarídeos, ativação imunológica e disfunção endotelial, mecanismos que contribuem para elevação da pressão arterial.

Embora adoçantes artificiais sejam utilizados como alternativa ao açúcar, estudos em humanos indicaram potenciais riscos cardiovasculares, reforçando a necessidade de cautela.

Em contraste, dietas ricas em fibras, como os padrões mediterrâneo e DASH, promovem um microbioma mais saudável e reduzem a pressão arterial. A fermentação das fibras gera AGCCs (acetato, propionato e butirato), que favorecem vasodilatação, fortalecem a barreira intestinal, reduzem inflamação e modulam o sistema renina–angiotensina. Frutas, vegetais e compostos bioativos do alho também demonstraram efeito antihipertensivo ao melhorar a composição microbiana e aumentar metabólitos vasodilatadores.

Frutas e vegetais

Em geral, são fontes relevantes de polifenóis e outros fitonutrientes com ação antioxidante, anti-inflamatória e vasodilatadora, e grande parte desses compostos depende da microbiota intestinal para ser convertida em metabólitos bioativos. Polifenóis como flavanóis, elagitaninos e resveratrol, além de metabólitos como o ácido protocatecuico, também mostraram potencial anti-hipertensivo.

Vegetais brassicáceos fornecem glucosinolatos, que podem ser convertidos pela microbiota em isotiocianatos com ação cardiovascular benéfica. Outro composto relevante é o 1,3‑butanodiol, precursor de β‑hidroxibutirato, presente especialmente em pimentões, que é um vasodilatador e modulador inflamatório com efeitos protetores na hipertensão sensível ao sal.

Proteínas alimentares

Proteínas de origem animal podem favorecer disbiose intestinal e a produção de metabólitos como TMAO, associado à inflamação, disfunção endotelial, ativação do sistema renina–angiotensina e pior regulação da pressão arterial. Evidências demonstraram que uma dieta rica em carne bovina reduziu Bifidobacterium adolescentis e aumentou Bacteroides fragilis e B. vulgatus em comparação com uma dieta sem carne. Em geral, dietas baseadas em proteína animal aumentam a abundância de Bacteroides, Alistipes e Bilophila, espécies associadas a maior inflamação.

Por outro lado, proteínas vegetais tendem a promover um perfil microbiano mais favorável, aumentando espécies benéficas como Bifidobacterium e Akkermansia e estimulando a produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), metabólitos associados à redução da inflamação, melhora da barreira intestinal, redução de metabólitos pró-inflamatórios e regulação da pressão arterial.

Fontes como soja e ervilha demonstraram elevar bactérias produtoras de butirato e favorecer um perfil microbiano cardioprotetor. Além disso, peptídeos derivados de proteínas vegetais podem atuar como prebióticos, influenciando positivamente o sistema renina–angiotensina e o estresse oxidativo. Evidências sugeriram que dietas ricas em proteínas vegetais contribuem para um microbioma mais saudável e melhor controle da hipertensão, reforçando recomendações alimentares baseadas em padrões como DASH e dieta mediterrânea.

Proteínas Lácteas e Probióticos

Também exercem efeitos benéficos sobre a pressão arterial ao modular a microbiota intestinal, aumentar a produção de metabólitos bioativos, como ácidos graxos de cadeia curta e ácidos biliares, e reduzir inflamação, estresse oxidativo e atividade da ECA. Evidências clínicas mostraram que probióticos, especialmente em doses ≥10¹¹ UFC/dia, podem reduzir a pressão arterial e melhorar marcadores metabólicos. Iogurtes e leites fermentados também são associados a maior diversidade microbiana e menor risco de hipertensão, efeito potencializado pela presença de cálcio, potássio e peptídeos vasodilatadores.

Gorduras alimentares

Gorduras saturadas e trans reduzem a produção de NO, aumentam estresse oxidativo e alteram negativamente a microbiota, tendo influências hipertensivas. Em contraste, gorduras insaturadas, como ômega‑3, ômega‑6 e monoinsaturadas, melhoram a função vascular, aumentam a diversidade microbiana e estimulam a produção de AGCC, metabólitos que fortalecem a barreira intestinal, reduzem inflamação e favorecem vasodilatação. Oleaginosas também podem modular a microbiota, elevando bactérias produtoras de butirato e outros AGCC, com potenciais efeitos cardioprotetores.

Vitaminas

Influenciam a pressão arterial e mantêm uma relação bidirecional com a microbiota intestinal, que é responsável pela síntese e metabolismo de diversas vitaminas do complexo B e da vitamina K. Suplementações de vitaminas D, B, C e E podem favorecer o crescimento de bactérias benéficas como Bifidobacterium, Lactobacillus e Akkermansia, modulando a microbiota de forma a aumentar a produção de AGCC. Todavia, as evidências ainda são inconsistentes, sugerindo que o efeito das vitaminas depende do contexto metabólico e da composição microbiana.

Minerais

O consumo elevado de sódio altera a regulação da pressão arterial e mantém uma relação bidirecional com a microbiota intestinal, promovendo disbiose com redução de Lactobacillus e aumento de bactérias pró-inflamatórias. Essas alterações afetam a produção de AGCC, especialmente diminuindo o butirato. A restrição de sal, por sua vez, favorece a restauração do equilíbrio microbiano e aumenta AGCCs associados à vasodilatação e ao controle da inflamação.

Minerais como cálcio, magnésio, zinco, fósforo e ferro também modulam o equilíbrio microbiano, mas suas relações diretas com a hipertensão dependem tanto do estado metabólico do indivíduo quanto da composição basal da microbiota.

Água

A hidratação adequada auxilia o volume sanguíneo e previne a ativação de mecanismos compensatórios como vasopressina e o sistema renina‑angiotensina‑aldosterona, que elevam a pressão arterial. Por outro lado, o aumento da ingestão hídrica tem sido associado à redução da pressão sistólica em indivíduos normotensos. A água também realiza manutenção da integridade do muco intestinal, favorecendo bactérias benéficas como Akkermansia, Bifidobacterium e Faecalibacterium, além de melhorar o transporte de fibras fermentáveis e estimular a produção de AGCC. Evidências mostraram maior abundância de bactérias benéficas em indivíduos com maior consumo hídrico, embora os mecanismos exatos ainda dependam do contexto intestinal e metabólico.

Aditivos alimentares presentes em ultraprocessados

Embora muitos sejam considerados seguros, evidências mostraram que certos aditivos, como antibióticos residuais, emulsificantes e adoçantes artificiais, podem alterar a composição da microbiota, favorecendo perfis inflamatórios associados a risco cardiometabólico. Essas alterações microbianas podem modificar processos metabólicos relevantes para a saúde cardiovascular. No entanto, os efeitos específicos dos aditivos sobre a regulação da pressão arterial mediada pela microbiota permanecem pouco estudados.

Antibióticos

Estudos em modelos de hipertensão mostraram que compostos como neomicina, vancomicina e minociclina presentes em alimentos de origem animal podem elevar a pressão ao alterar a composição microbiana, enquanto outros, como minociclina e amoxicilina, já foram associados à sua redução. Apesar dos achados divergentes, ficou evidente que os antibióticos interferem na modulação microbiana relacionada ao controle da pressão arterial.

Emulsificantes

Compostos como polissorbatos, carboximetilcelulose e carragenina são capazes de desestruturar a barreira de muco intestinal, facilitando a aproximação bacteriana e promovendo inflamação crônica. Estudos em modelos animais e humanos mostraram que esses aditivos podem reduzir a diversidade microbiana, aumentar marcadores inflamatórios e modular negativamente vias metabólicas que influenciam a saúde cardiovascular. Evidências populacionais também associaram alta ingestão de emulsificantes ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, embora os mecanismos específicos, incluindo possíveis efeitos na regulação pressórica mediada pela microbiota, ainda não estejam esclarecidos.

Glutamato monossódico (MSG)

Amplamente utilizado como como realçador de sabor, esse sal tem sido associado tanto a efeitos carcinogênicos quanto ao aumento da pressão arterial, embora ainda não se saiba se esse impacto ocorre por vias mediadas pela microbiota. Embora faltem evidências diretas ligando a maioria dos outros aditivos alimentares à pressão arterial ou à saúde cardiovascular, alguns, como corantes e adoçantes artificiais, já mostraram potenciais efeitos via microbiota, influenciando comportamento, metabolismo e eixos fisiológicos relacionados à hipertensão.

Contaminação alimentar nas práticas agrícolas atuais e alimentos orgânicos

Estudos mostraram que maior consumo de alimentos orgânicos correlaciona-se com redução de marcadores inflamatórios. Embora não se saiba se esses efeitos envolvem a microbiota, práticas agrícolas modernas, como o uso de herbicidas e pesticidas, incluindo o amplamente empregado glifosato, podem impactar microrganismos e, potencialmente, a regulação da pressão arterial. Dada a ampla exposição populacional a esses compostos e seu potencial de afetar a microbiota, é necessário investigar se contribuem para hipertensão. Até que haja evidências mais claras, alimentos orgânicos, cultivados sem tais químicos, podem representar alternativa mais favorável para indivíduos hipertensos.

Conclusão

Diferentes nutrientes modulam a microbiota e influenciam funções imunológicas, metabólicas e vasculares essenciais ao controle pressórico. Dietas ricas em ultraprocessados, com excesso de açúcares e gorduras, desestabilizam o microbioma e favorecem inflamação e hipertensão, enquanto padrões alimentares ricos em fibras, proteínas vegetais e alimentos fermentados estimulam microrganismos benéficos que produzem AGCC, contribuindo para a redução da pressão arterial. Avanços futuros devem incluir estratégias de nutrição personalizada baseadas no perfil microbiano, além de ensaios clínicos robustos que validem intervenções dietéticas voltadas à modulação do microbioma como complemento às terapias tradicionais para hipertensão.