A osteoartrite (OA) é uma das doenças mais comuns e uma causa frequente de incapacidade, especialmente em indivíduos acima de 50 anos, com maior impacto em mulheres. O tratamento convencional geralmente envolve anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) por via oral, mas a alta incidência de efeitos adversos, incluindo complicações gastrointestinais graves, hospitalizações e óbitos, levantou questionamentos sobre seu uso e reforçou a necessidade de alternativas mais seguras.
A Arnica montana, tradicionalmente utilizada desde o século XVI para tratar inflamações e lesões musculoesqueléticas, apresenta compostos ativos (lactonas sesquiterpênicas) capazes de inibir o fator de transcrição NF-κB, um mediador central da resposta inflamatória. Embora esse composto tenha uma longa história na medicina popular e seja amplamente utilizado, sua eficácia em doenças reumáticas nunca havia sido estudada clinicamente.
Diante disso, o artigo de Knuesel e colaboradores (2002) descreveu o primeiro ensaio clínico avaliando a segurança e eficácia de um gel de Arnica montana no tratamento da OA de joelho, além de investigar seu potencial alergênico em pacientes sem predisposição.
O estudo aberto e multicêntrico teve duração de seis semanas e abrangeu pacientes com OA leve a moderada, entre 19 e 79 anos, recrutados em clínicas e consultórios na Suíça. Os critérios de exclusão abrangeram alergia a Asteraceae, lesões cutâneas nos joelhos, uso recente de corticosteroides, infiltrações, antirreumáticos tópicos ou sistêmicos, além de doenças graves, imunossupressão, síndrome metabólica grave, gravidez ou lactação.
O tratamento consistiu na aplicação tópica de uma camada fina do gel duas vezes ao dia, contendo tintura fresca da planta (relação 1:20, 50% etanol). A segurança foi avaliada pela ocorrência de reações locais e outros eventos adversos, bem como pela tolerabilidade relatada pelos pacientes. A eficácia foi medida pelo índice Western Ontario and McMaster Universities Osteoarthritis Index (WOMAC), avaliando dor, rigidez e função, nas semanas três e seis, além da avaliação global por pacientes e investigadores. Também foram analisadas adesão ao tratamento e aceitação pelos pacientes.
O estudo incluiu 79 pacientes na análise por intenção de tratar (ITT) e 54 na análise por protocolo (PP), após exclusões por violações variadas. A adesão ao tratamento foi considerada boa em mais de 94% dos casos. Quanto à segurança, seis pacientes apresentaram reações locais leves ou moderadas, como prurido, eritema e pele seca, todas resolvidas sem complicações. Eventos sistêmicos foram raros e não relacionados ao gel, e apenas um evento grave (cirurgia de hérnia inguinal) ocorreu, sem relação com o tratamento. A tolerabilidade foi classificada como “boa” ou “razoavelmente boa” por 87% dos pacientes, e 76% afirmaram que usariam o gel novamente.
A taxa de reações locais com o gel de Arnica montana foi baixa (7,6%) e semelhante à observada com AINEs tópicos (5,9% a 9%), apesar da maior duração do tratamento (6 semanas vs 16 dias), o que reforçou seu perfil de segurança e tolerabilidade. Além disso, apenas 1,3% apresentaram reação alérgica, sugerindo baixo potencial alergênico.
Em relação à eficácia, os subcomponentes do índice WOMAC, dor, rigidez e função, apresentaram redução significativa na terceira semana, com manutenção dos resultados até a sexta. Na avaliação global, os investigadores consideraram a eficácia “muito boa” ou “boa” em 52% dos pacientes ITT e 63% dos PP, enquanto apenas 11% e 13%, respectivamente, relataram ausência de efeito. Na escala visual analógica (VAS), 57% dos pacientes ITT e 72% dos PP atribuíram pontuação superior a 50 mm, indicando que a maioria considerou o tratamento eficaz. As medianas foram de 70,5 mm e 74 mm, mostrando que, além de perceberem melhora, os pacientes avaliaram a eficácia como alta, próxima ao extremo positivo da escala (100 mm = efeito máximo). O início médio do efeito foi de 5,9 dias, com a maioria percebendo melhora em até duas semanas.
Em resumo, a terapia tópica foi indicada quando a dor foi localizada, como na osteoartrite leve a moderada do joelho, condição altamente prevalente e mensurável pelo índice WOMAC. Os resultados do estudo demonstraram que o gel de Arnica montana apresentou perfil de segurança favorável, boa tolerabilidade e alta aceitação pelos pacientes, reforçando seu potencial como opção terapêutica segura e eficaz para o manejo da OA leve a moderada do joelho.