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/ Publicado el 27 de agosto de 2025

Doença cardiovascular aterosclerótica

A homocisteína prevê risco cardiovascular?

Revisão sistemática analisou papel da homocisteína como marcador precoce de risco cardiovascular em jovens, destacando influências genéticas, nutricionais, hormonais, farmacológicas e clínicas na espessura médio-intimal da carótida e outros indicadores ateroscleróticos.

Autor/a: Habib, S. S. et al.

Fuente: European Review for Medical and Pharmacological Sciences 27: 8598-8608 (2023) Homocysteine as a predictor and prognostic marker of atherosclerotic cardiovascular disease: a systematic review and meta-analysis

A homocisteína é um aminoácido formado durante a conversão da metionina em cisteína e tem sido estudada como um fator de risco não tradicional e independente para doença cardiovascular (DCV).

doença cardiovascular aterosclerótica (DCVA) em adultos jovens representa um desafio crescente em saúde pública. Apesar da associação entre homocisteína e DCV, fatores de risco como tabagismo, diabetes, dislipidemia, hipertensão arterial, estados pró-inflamatórios e pró-trombóticos têm gerado resultados conflitantes.

Por isso, o estudo de Habib e colaboradores (2023) buscou consolidar as evidências sobre o papel da homocisteína na DCVA em jovens e crianças, identificando condições clínicas, características dos pacientes, intervenções farmacológicas e marcadores que influenciam seus níveis.

A revisão sistemática seguiu as diretrizes Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), com busca de artigos publicados entre 2015 e 2022 nas bases PubMed, COCHRANE e EBSCO.

Dos 35 estudos incluídos, a maioria mostrou associação significativa entre níveis elevados de homocisteína e aumento da espessura médio-intimal da carótida (CIMT), especialmente em pacientes jovens (<40 anos). Fatores como obesidade, tabagismo e variantes do gene metileno tetra hidrofolato redutase (MTHFR) também contribuíram para esse aumento. Por outro lado, alguns medicamentos, como contraceptivos orais, L-tiroxina e antidiabéticos, demonstraram redução nos níveis de homocisteína.

Na meta-análise de 15 estudos, houve alta heterogeneidade, mas a associação entre homocisteína e marcadores de risco cardiovascular foi consistente.

Fatores que podem influenciar nos níveis de homocisteína:

Papel genético

Polimorfismos genéticos, especialmente no gene MTHFR, podem elevar os níveis de homocisteína e aumentar a espessura da carótida, sugerindo risco cardiovascular precoce. No entanto, essa associação não é suficiente isoladamente para prever infarto agudo do miocárdio (IAM), sendo necessário considerar fatores clínicos e bioquímicos adicionais na avaliação.

Outros genes como metionina sintase, cistationina-β-sintase e ApoE foram estudados, mas não mostraram impacto significativo nos níveis do aminoácido ou na ocorrência de IAM em pacientes jovens.

Micronutrientes Essenciais

deficiência de vitamina B12 e ácido fólico está associada a níveis elevados de homocisteína e a CIMT, tanto em adultos quanto em crianças. A deficiência durante a gestação também pode impactar a CIMT na infância.

Hormônio Tireoidiano

L-tiroxina mostrou reduzir homocisteínatriglicerídeos e índice aterogênico, além de aumentar o HDL-C em crianças com hipotireoidismo subclínico após dois anos de tratamento. Por outro lado, em meninas com tireoidite de Hashimoto eutireoideas, a autoimunidade tireoidiana foi associada ao aumento da CIMT, mas sem alterações significativas nos níveis de homocisteína ou outros marcadores cardiovasculares.

> Sistema Reprodutor Feminino

Na síndrome dos ovários policísticos (SOP), a homocisteína está associada a alterações vasculares como aumento da CIMT e disfunção endotelial. O uso de metformina por 6 meses reduziu marcadores inflamatórios e metabólicos, mas causou leve aumento da homocisteína, sem relevância clínica.

Outros antidiabéticos, como rosiglitazona, reduziram homocisteína, enquanto sulfonilureias não tiveram efeito significativo.

O uso prolongado de contraceptivos orais pode elevar homocisteína, LDL, colesterol e pressão arterial, mas os dados são contraditórios.

> Patologias Renais

Em pacientes pediátricos com doença renal crônica ou síndrome nefrótica, os estudos não encontraram associação significativa entre homocisteína e marcadores cardiovasculares como CIMT ou ADMA, apesar da hiper-homocisteinemia ser comum nesses casos.

Por outro lado, na doença renal policística autossômica dominante (DRPAD), a homocisteína esteve elevada e associada a outros marcadores de risco cardiovascular, como Homeostasis Model Assessment of Insulin Resistance (HOMA-IR)ácido úrico, e massa ventricular esquerda, embora sem aumento da CIMT.

> Idade

Pacientes jovens com DCV tendem a apresentar placas não calcificadas e remodelamento vascular positivo, além de níveis elevados de homocisteína. Embora a diferença entre faixas etárias não tenha sido significativa, a hiper-homocisteinemia em jovens é um padrão recorrente na literatura, podendo causar danos no endotélio vascular, além de favorecer a oxidação da LDL e promover eventos trombóticos

Outros fatores como lipoproteína(a) e inflamação sistêmica também contribuem para o risco cardiovascular precoce, reforçando a importância de uma avaliação multifatorial em pacientes jovens com suspeita de DCV.

> Gastrointestinal e Alimentação

Pacientes com colite ulcerativa apresentam aumento significativo da CIMT, além de níveis elevados de homocisteína, insulina e HOMA-IR.

A dieta mediterrânea demonstrou reduzir o risco de síndrome coronariana aguda (SCA), especialmente em adultos jovens e de meia-idade. Indivíduos que não seguiram essa dieta apresentaram maior probabilidade de ter níveis elevados de homocisteína e maior risco cardiovascular, reforçando o papel da alimentação na prevenção de doenças cardíacas, especialmente em pacientes com doenças inflamatórias intestinais.

Em resumo, a revisão de Habib e colaboradores (2023) mostrou que níveis elevados de homocisteína estão fortemente associados à DCV precoce, especialmente em jovens e indivíduos com sobrepeso. Fatores como tabagismo, alterações genéticas, doenças hormonais e renais, deficiências de B12 e folato, além do uso de levotiroxina, também influenciam seus níveis. Os mecanismos que regulam a homocisteína parecem complexos e pouco compreendidos, destacando a importância de novas pesquisas para orientar melhor a prática clínica.