O tinnitus é definido como a percepção de som na ausência de um estímulo externo, sendo uma condição prevalente que afeta até 20% da população adulta mundial, com cerca de 1% a 3% dos indivíduos apresentando sintomas graves que comprometem severamente a qualidade de vida. Historicamente categorizado como um distúrbio puramente otológico, atualmente, o zumbido é compreendido como uma condição neuropsiquiátrica complexa que envolve redes neurais extensas. Estudos de neuroimagem sustentam essa percepção ao revelarem atividade alterada não apenas no córtex auditivo, mas também em regiões cruciais para a regulação emocional, como a amígdala, o hipocampo e o córtex pré-frontal.
Evidências indicaram que pacientes com tinnitus crônico possuem um risco elevado de desenvolver comorbidades psiquiátricas, especialmente depressão e ansiedade. Sugere-se que esses sintomas não sejam meramente reativos, mas que possam compartilhar substratos neurobiológicos comuns, incluindo disfunções no sistema límbico e no eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA). Apesar desse arcabouço conceitual, a relação de causalidade ainda é debatida: enquanto alguns autores defendem que transtornos de humor predispõem o indivíduo a perceber o zumbido como algo mais angustiante, outros sugerem que o tinnitus atua como um estressor persistente que precipita tais distúrbios.
A literatura ainda apresenta controvérsias sobre a prevalência exata dessas comorbidades, e nota-se uma lacuna de estudos focados especificamente em coortes de ambulatórios de otorrinolaringologia que utilizem instrumentos psiquiátricos padronizados. Por isso, Sirma e colaboradores (2026) realizaram um estudo com o objetivo de objetivo clarificar a relação entre a gravidade do tinnitus e o ônus sintomático de depressão e ansiedade em um ambiente hospitalar terciário.
O estudo foi delineado como uma investigação observacional transversal, realizada em um centro de referência terciário no Departamento de Otorrinolaringologia do Gazi Yaşargil Training and Research Hospital, na Turquia. A amostra consistiu em 100 pacientes adultos (58% mulheres, idade média de 48,5 anos), que apresentavam queixa de tinnitus subjetivo crônico com duração mínima de seis meses. Foram excluídos aqueles com a condição de origem objetiva (vascular ou otológica identificável), perda auditiva severa excedendo 70 dB HL, diagnóstico de distúrbios psicóticos ou neurológicos, e aqueles que tivessem iniciado ou alterado medicações psiquiátricas nos três meses anteriores ao estudo.
A avaliação audiológica foi realizada de forma padronizada através de audiometria tonal liminar em cabine acústica, mensurando-se os limiares de condução aérea e óssea. Para a quantificação dos sintomas psicológicos e do impacto do zumbido, foram utilizados três instrumentos autoaplicáveis validados: o Tinnitus Handicap Inventory (THI), para avaliar o prejuízo funcional, emocional e catastrófico relacionado à condição; o Inventário de Depressão de Beck-II (BDI-II); e o Inventário de Ansiedade de Beck (BAI).
Os resultados revelaram que a perda auditiva clinicamente significativa (PTA ≥ 30 dB HL) esteve presente em 70% da amostra. No que diz respeito às avaliações psicométricas, a pontuação média do THI foi de 47,2, refletindo o impacto moderado do tinnitus na vida dos pacientes, enquanto as médias para o BDI-II e BAI foram de 16,1 e 19,5, respectivamente. Notavelmente, o estudo identificou que 28% e 31% dos pacientes apresentavam sintomas depressivos de moderados a graves (BDI-II ≥ 20) e de ansiedade de moderados a graves (BAI ≥ 19), respectivamente.
As análises de correlação indicaram associações positivas moderadas entre a gravidade do zumbido e o ônus psiquiátrico, com coeficientes de r = 0,50 para sintomas depressivos e r = 0,48 para ansiedade (p < 0,001). Por outro lado, fatores como idade e duração do tinnitus não demonstraram correlação estatisticamente significativa. Através de modelos de regressão linear múltipla, demonstrou-se que a pontuação no THI foi um preditor independente tanto para a gravidade da depressão quanto para a da ansiedade, mesmo após o ajuste para potenciais fatores de confusão como idade, sexo e limiares auditivos.
Além disso, a análise de risco evidenciou que indivíduos com tinnitus severo (THI ≥ 58) possuíram uma probabilidade muito maior de comorbidades clínicas em comparação com aqueles com quadros leves. Esses achados quantificaram a forte interconexão entre o sofrimento percebido pelo zumbido e a saúde mental.
Em suma, Sirma e colaboradores (2026) confirmaram que o tinnitus subjetivo crônico foi fortemente associado a sintomas elevados de depressão e ansiedade. Os pesquisadores demonstraram que quase um terço dos pacientes apresentou sintomas de depressão ou ansiedade de moderados a graves, excedendo substancialmente as taxas relatadas na população em geral. A gravidade do zumbido emergiu como um preditor independente da gravidade dos sintomas de depressão e ansiedade após o ajuste para idade, sexo e perda auditiva. Esses achados destacaram a importância da triagem psicossocial de rotina como parte do manejo abrangente do tinnitus. A integração da avaliação da saúde mental e de abordagens de cuidados multidisciplinares pode melhorar a qualidade de vida e os resultados clínicos gerais para esses pacientes. Estudos longitudinais futuros são necessários para esclarecer as relações causais e avaliar a eficácia de estratégias terapêuticas integradas.