| Introdução |
A doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), anteriormente denominada doença gordurosa não alcoólica do fígado (NAFLD), caracteriza-se pelo acúmulo excessivo de gordura no parênquima hepático sem causas secundárias, como consumo significativo de álcool ou desordens hereditárias. A condição pode progredir para a esteatohepatite não alcoólica (NASH), uma forma mais grave que envolve inflamação e lesão hepatocitária, podendo resultar em fibrose, cirrose e outras complicações hepáticas graves. Além disso, a enfermidade foi associada a um risco elevado de doenças cardiovasculares, doença renal crônica e certas neoplasias.
A dislipidemia representa uma das anormalidades metabólicas mais comuns nesses pacientes, manifestando-se tipicamente pelo aumento de triglicerídeos (TG), colesterol total (TC) e lipoproteína de baixa densidade (LDL-C), além da redução da lipoproteína de alta densidade (HDL-C). A fisiopatologia envolve resistência à insulina hepática e periférica, aumento da produção de VLDL e falhas em seu clearance, resultando em partículas de LDL pequenas e densas e HDL disfuncional. Esses distúrbios não apenas exacerbam a lesão hepática, mas elevam substancialmente o risco cardiovascular. Embora as modificações no estilo de vida sejam o pilar do manejo, sua eficácia limitada a longo prazo tem despertado interesse em terapias adjuvantes, especialmente em antioxidantes como a vitamina E.
A vitamina E, prioritariamente na forma de alfa-tocoferol, atua protegendo as membranas celulares ao interromper as reações em cadeia da peroxidação lipídica. Dado que o estresse oxidativo é um dos motores centrais na progressão da MASLD, a sua suplementação tem sido proposta para mitigar o dano oxidativo, reduzir a inflamação hepática e prevenir a transição para esteatohepatite e fibrose. Contudo, as evidências clínicas sobre seus efeitos no metabolismo lipídico e em adipocinas permanecem inconsistentes e inconclusivas. Por isso, Karimi et al., (2026) realizaram uma revisão sistemática e metanálise para avaliar o impacto da suplementação de vitamina E nos perfis lipídicos de adultos com MASLD.
| Métodos |
A revisão sistemática e metanálise foi conduzida seguindo as diretrizes Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses (PRISMA) e estruturada com base no framework Patientes, Intervention, Compare, Outcomes and Studies (PICOS), focando em pacientes adultos com MASLD, NAFLD ou NASH submetidos à suplementação oral de vitamina E ou suas isoformas. A busca bibliográfica foi realizada de forma abrangente nas bases de dados PubMed, Web of Science e Scopus, abrangendo o período desde a concepção até janeiro de 2026, sem restrições de data, mas limitada a artigos em língua inglesa. Foram incluídos exclusivamente ensaios clínicos randomizados (RCTs), com delineamento paralelo ou cruzado e duração superior a quatro semanas, que apresentassem dados basais e pós-intervenção comparando a vitamina E a um grupo controle ou placebo. Os critérios de exclusão contemplaram estudos não randomizados, estudos observacionais, pesquisas com populações pediátricas, intervenções combinadas onde o efeito da vitamina E não pudesse ser isolado e participantes com comorbidades graves que pudessem confundir o metabolismo lipídico.
A extração de dados foi realizada de forma independente por dois revisores, coletando informações sobre as características dos participantes (idade, sexo, índice de massa corporal [IMC] basal), detalhes da intervenção (tipo de isoforma e dosagem) e desfechos clínicos (TG, TC, LDL-C, HDL-C e IMC). Para a avaliação da qualidade metodológica dos estudos, utilizou-se a ferramenta Cochrane Risk of Bias 2 (RoB-2), analisando domínios como o processo de randomização, desvios das intervenções pretendidas e dados faltantes. Adicionalmente, a certeza da evidência para cada desfecho foi classificada pelo sistema Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation (GRADE), que considera o risco de viés, inconsistência, evidência indireta, imprecisão e viés de publicação.
As análises estatísticas empregaram o modelo de efeitos aleatórios para calcular a diferença média ponderada (WMD) e os intervalos de confiança de 95% (IC 95%). A heterogeneidade entre os estudos foi quantificada pela estatística I² e avaliada pelo teste Q de Cochran. Foram realizadas análises de subgrupo baseadas na duração da intervenção (ponto de corte de 12 semanas), dosagem de vitamina E (ponto de corte de 800 UI/dia) e IMC basal.
| Resultados |
Com base nos resultados detalhados no artigo, a seleção inicial de estudos identificou 2237 registros, dos quais 12 RCTs preencheram os critérios de inclusão, totalizando uma amostra de 1.166 participantes. Estes estudos foram conduzidos em diversas regiões, incluindo EUA, China, Irã, Paquistão e Malásia, com durações que variaram de 8 a 96 semanas e dosagens de vitamina E entre 350 e 1000 UI/dia. A avaliação de qualidade pelo sistema RoB-2 indicou que metade dos estudos possuía baixo risco de viés, enquanto os demais apresentaram "algumas preocupações", predominantemente relacionadas aos processos de randomização e seleção de resultados relatados.
O principal achado da metanálise foi a redução significativa nos níveis de triglicerídeos (TG), com uma diferença média ponderada (WMD) de -12,74 mg/dL em comparação ao grupo controle. Análises de subgrupo revelaram que esse efeito foi mais robusto em intervenções prolongadas (mais de 12 semanas), com o uso de doses baixas (< 800 UI/dia) e especificamente em pacientes classificados como sobrepeso. Em contrapartida, a análise global para TC e LDL-C não demonstrou reduções estatisticamente significativas. Contudo, observou-se que a vitamina E em doses baixas foi eficaz na redução do TC, e que pacientes com obesidade apresentaram benefícios modestos, mas significativos, tanto no TC quanto no LDL-C.
Quanto ao HDL-C, não houve alteração significativa na análise populacional geral, embora tenha sido detectado um aumento discreto e significativo nos seus níveis exclusivamente no subgrupo de pacientes obesos. A suplementação com vitamina E não resultou em alterações significativas no IMC dos participantes.
As análises de dose-resposta não lineares sugeriram que a dose da vitamina influenciou a redução de TG, enquanto a duração do tratamento foi associada a variações no LDL-C, HDL-C e IMC. A certeza da evidência, conforme os critérios GRADE, foi classificada como alta para TC e HDL-C, moderada para triglicerídeos e baixa para LDL-C e IMC, refletindo a heterogeneidade e imprecisão encontradas nestes últimos parâmetros.
| Conclusão |
A suplementação com vitamina E demonstrou benefícios seletivos no perfil lipídico de adultos com MASLD, promovendo reduções significativas nos níveis de triglicerídeos séricos e melhorias discretas no HDL-C, especialmente em subgrupos de pacientes com sobrepeso ou obesidade. Em contrapartida, os impactos sobre o colesterol total, LDL-C e IMC mostraram-se limitados. Os dados sugeriram que a eficácia da intervenção foi otimizada com o uso de regimes de doses mais baixas e períodos de tratamento prolongados, o que reforça a importância de estratégias terapêuticas individualizadas. Dessa forma, a vitamina E pode ser considerada um adjuvante valioso no manejo da dislipidemia associada à MASLD, exigindo, contudo, uma atenção criteriosa à dosagem e ao status metabólico do paciente para maximizar os resultados clínicos e minimizar possíveis riscos de toxicidade.