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Publicado el 30 de junio de 2026

Medicina do exercício

O impacto do exercício no trato gastrointestinal

A comunicação cross-talk mediada pela liberação de miocinas e a produção de ácidos graxos de cadeia curta, como o butirato, revela como a contração muscular voluntária modula a homeostase intestinal, fortalece a barreira epitelial e regula a imunidade sistêmica.

Autor/a: Hawley J, Forster S, Giles E

Fuente: Gastroenterology, V. 169, N. 1, P. 48-62, 2025 Exercise, the Gut Microbiome and Gastrointestinal Diseases: Therapeutic Impact and Molecular Mechanisms

Introdução

Os benefícios da atividade física (AF) regular na prevenção de doenças e na otimização de resultados terapêuticos são reconhecidos há séculos. Atualmente, o conceito de que o "exercício é medicina" tem ganhado força considerável, impulsionando a implementação de abordagens baseadas em evidências para elevar o status da AF nos sistemas de cuidados primários de saúde. Embora as adaptações bioquímicas e metabólicas ao treinamento físico tenham sido extensivamente estudadas em órgãos como o coração e os músculos, as bases moleculares pelas quais a AF promove a saúde e reduz riscos de doenças ainda não são totalmente compreendidas.

Recentemente, o "cross-talk", mediada pela liberação de "miocinas" pelos músculos esqueléticos em contração, emergiu como um mecanismo central pelo qual o exercício confere proteção sistêmica. Essa interação entre os músculos ativos e a microbiota intestinal revelou que a AF regular não apenas fortalece a imunidade do hospedeiro, mas também promove uma microbiota mais diversificada e um metaboloma funcional, influenciando positivamente a homeostase energética e a regulação metabólica.

Portanto, a microbiota intestinal tornou-se um alvo terapêutico para potencializar os efeitos positivos da AF na saúde gastrointestinal. Entretanto, apesar dos avanços, a dose exata de exercício necessária para induzir mudanças favoráveis consistentes nos microrganismos e otimizar a imunidade ainda é desconhecida. Por isso, Hawley et al., (2025) realizaram uma revisão científica para examinar a relação entre AF, microbiota intestinal e saúde do trato GI.

Comunicação metabólica durante o exercício

Tradicionalmente, os benefícios do exercício físico eram atribuídos principalmente ao aumento do condicionamento cardiorrespiratório e à remodelação vascular. No entanto, as últimas duas décadas revelaram que o músculo esquelético funciona como um órgão endócrino dinâmico, capaz de iniciar uma comunicação interorgânica complexa, conhecida como "cross-talk", por meio da secreção de miocinas. Desde a descoberta da liberação de interleucina-6 (IL-6) pelo músculo em contração, diversas outras proteínas e peptídeos, como IL-8, IL-15, irisina e o fator de crescimento de fibroblastos-21, foram identificados como mediadores que coordenam o metabolismo sistêmico em resposta à atividade física. Esse arcabouço de sinalização oferece uma explicação molecular para como o exercício transmite seus efeitos benéficos para a saúde metabólica global.

Um dos avanços mais fascinantes nessa área foi a descoberta do eixo músculo-intestino, que demonstra como o treinamento físico altera a estrutura da comunidade bacteriana e favorece táxons associados à melhora da saúde do hospedeiro. Evidências em modelos animais demonstraram que camundongos livres de germes (germ-free) apresentaram atrofia muscular significativa e redução da força, condições que são parcialmente revertidas pelo tratamento com ácidos graxos de cadeia curta (SCFA). Esses, como acetato, propionato e, especialmente, o butirato, são subprodutos da fermentação bacteriana que aumentam após o exercício de resistência. O butirato desempenha um papel vital na homeostase intestinal: serve como a principal fonte de energia para os colonócitos, promove a integridade da barreira intestinal e regula a imunidade e a expressão gênica do hospedeiro.

Em humanos, estudos transversais com atletas profissionais revelaram uma diversidade microbiana significativamente maior e uma abundância enriquecida de gêneros benéficos, como o Akkermansia, em comparação com indivíduos sedentários. Observou-se também que o nível de aptidão cardiorrespiratória (VO2max) foi diretamente relacionado à riqueza taxonômica, sugerindo que o condicionamento físico elevado favorece a produção de metabólitos que reduzem, por exemplo, o risco de câncer. Um exemplo intrigante dessa interação foi a presença aumentada de bactérias do gênero Veillonella em maratonistas. Esses microrganismos metabolizam o lactato (produzido durante o exercício) em acetato e propionato, o que pode aumentar a capacidade de resistência e o tempo até a exaustão.

Por outro lado, a disbiose foi intimamente ligada a patologias gastrointestinais e à sarcopenia. O exercício surge como uma intervenção capaz de reestabelecer a simbiose intestinal, embora a "dose" ideal ainda seja objeto de estudo. Sabe-se que as modificações favoráveis na microbiota dependem da regularidade do estímulo: estudos demonstraram que as mudanças induzidas pelo treinamento são rapidamente perdidas após a interrupção da atividade física, reforçando a necessidade de prática crônica para manter a homeostase do ecossistema intestinal. Assim, a compreensão profunda desse cross-talk metabólico posiciona a microbiota como um alvo terapêutico promissor para otimizar a saúde muscular e sistêmica.

Doenças do trato gastrointestinal e efeitos do exercício nos seus sintomas

O exercício agudo exerce efeitos diversos no trato gastrointestinal. Essas manifestações decorrem de alterações na motilidade e nas propriedades absortivas induzidas pelo esforço, onde a ativação do sistema nervoso simpático retarda o trânsito no trato superior, enquanto a redução da capacidade absortiva aumenta a carga de nutrientes no ceco e no cólon, desencadeando sintomas inferiores. Observa-se que exercícios de suporte de peso prolongados (superiores a 90 minutos), como a corrida, apresentam maior prevalência e severidade de sintomas em comparação a outras modalidades.

A fisiopatologia desses eventos está centralizada nas alterações do fluxo sanguíneo esplâncnico, onde a isquemia esplâncnica induzida pelo exercício compromete a integridade da barreira intestinal. Essa disfunção da barreira pode levar à endotoxemia sistêmica e a uma resposta inflamatória subsequente, com lesões intestinais frequentemente mensuradas através da detecção de sangue oculto nas fezes ou de marcadores como a calprotectina e a proteína de ligação de ácidos graxos intestinais. A permeabilidade intestinal correlaciona-se diretamente com a intensidade do esforço, sendo significativamente maior em intensidades acima de 80% do VO2max. No entanto, o trato GI demonstra uma notável capacidade adaptativa. Pessoas bem treinadas apresentam menos distúrbios, uma vez que o esvaziamento gástrico e o conforto estomacal podem ser "treinados" por meio de estratégias nutricionais recorrentes.

Fatores externos e dietéticos também modulam essa resposta, como o estresse térmico, que exacerba os marcadores de perturbação gastrointestinal. Além disso, a microbiota residente surge como uma variável crítica na modulação do estresse de barreira. Por exemplo, dietas ricas em proteínas podem contribuir para a disbiose e amplificar danos intestinais em atletas de força. No que tange às intervenções, a ingestão de carboidratos antes ou durante o exercício tem se mostrado eficaz na atenuação de sintomas e na preservação da integridade da barreira, possivelmente por mitigar a disbiose temporária. Por outro lado, outras abordagens, como a dieta isenta de glúten, mostraram-se ineficazes na redução desses sintomas. Da mesma forma, o uso de precursores de óxido nítrico e suplementos de aminoácidos, como L-arginina e L-citrulina, para apoiar a circulação esplâncnica e reduzir o dano tecidual, apresenta evidências equívocas até o momento.

 Embora o uso de probióticos para preservar a permeabilidade tenha apresentado resultados variados em ensaios clínicos, suplementações específicas com cepas como L. acidophilus e B. longum demonstraram redução de sintomas e menor disbiose em corredores amadores, sugerindo que a modulação da microbiota pode fortalecer a integridade da barreira mucosa durante períodos de treinamento intenso. Em contrapartida, outras pesquisas com cepas como Pediococcus acidilactici e L. plantarum não observaram alterações na permeabilidade ou no conteúdo microbiano intestinal após quatro semanas de intervenção.

É importante notar que as alterações na microbiota nem sempre conferem benefícios imediatos sob estresse extremo. Em um estudo específico, a suplementação com L. casei antes do exercício no calor não alterou as concentrações basais de endotoxinas e chegou a mostrar uma tendência de aumento de TNF-α e endotoxemia após o esforço, sugerindo que a modulação microbiana pode influenciar a função de barreira de forma variável. Apesar dessas inconsistências, a suplementação probiótica pode oferecer pequenos efeitos benéficos na saúde de indivíduos treinados, especialmente na redução do risco de doenças respiratórias e gastrointestinais durante períodos de treinamento intensificado. Acredita-se que tais benefícios sejam mediados pelo fortalecimento da integridade da barreira mucosa, possivelmente através da ativação da via AMPK e da montagem de junções de oclusão, mecanismos estes que são favorecidos pela produção de butirato e outros ácidos graxos de cadeia curta. No entanto, os regimes de dosagem e as composições ideais para essas intervenções clínicas ainda precisam ser determinados por estudos futuros.

O papel do exercício nas doenças gastrointestinais

A prática de exercícios físicos, quando realizada seguindo as diretrizes recomendadas, está associada à melhora dos desfechos clínicos em diversas doenças não transmissíveis, incluindo condições inflamatórias e funcionais do trato GI. Uma das mais beneficiadas é a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), na qual o exercício é preconizado como tratamento de primeira linha em diretrizes internacionais. A fisiopatologia da MASLD envolve o complexo "eixo intestino-fígado", onde a interação entre dieta, genética e inflamação pode evoluir para fibrose e carcinoma hepatocelular. Nesse cenário, a AF demonstrou a capacidade de reverter a disbiose intestinal característica desses pacientes, modulando a microbiota para reduzir a progressão da doença.

No contexto das Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), que englobam a doença de Crohn e a colite ulcerativa, a etiologia envolve uma resposta imune anormal à microbiota residente, sendo influenciada por mediadores liberados pelo tecido adiposo e muscular, como citocinas, adipocinas e miocinas. Modelos experimentais indicaram que o exercício de intensidade moderada pode reduzir significativamente a gravidade da colite, aumentar o fluxo sanguíneo colônico e atenuar níveis sistêmicos de citocinas pró-inflamatórias como TNF-α e IL-6. Além disso, a AF auxilia no manejo da sarcopenia, uma condição frequentemente associada à DII que compromete o prognóstico clínico, independentemente da atividade inflamatória intestinal.

Para pacientes com Síndrome do Intestino Irritável (SII), o exercício físico tem se mostrado eficaz na redução dos sintomas, melhora da motilidade intestinal e promoção de benefícios psicológicos. Diferente das DII, a SII não apresenta uma resposta inflamatória facilmente mensurável, mas seus sintomas parecem ser modulados pela microbiota, que é influenciada tanto pela dieta quanto pelo exercício. Sugere-se que os benefícios da AF na SII sejam mediados por alterações no tempo de trânsito intestinal, aumento da produção de SCFAs, fortalecimento da barreira epitelial e modulação da resposta imune. Apesar da variação individual na resposta clínica, a incorporação da atividade física regular nos protocolos de tratamento padrão é recomendada para reduzir a carga e a progressão dessas doenças gastrointestinais crônicas.

Atividade física e câncer gastrointestinal

O efeito protetor da AF regular, de moderada a vigorosa, contra o risco de câncer está solidamente estabelecido na literatura, com evidências indicando que o exercício reduz o risco e a mortalidade de sete a treze tipos diferentes de câncer. O impacto mais significativo é observado no câncer colorretal (CCR), onde níveis moderados de AF foram associados a uma redução de 25% no risco, podendo chegar a 40% em indivíduos mais ativos. Além disso, o treinamento físico crônico demonstrou ser capaz de reduzir a proliferação das criptas do cólon e biomarcadores associados, como as células Ki67+, mesmo em indivíduos anteriormente sedentários. Notavelmente, essa redução do risco é independente de fatores como idade, dieta e obesidade, sugerindo mecanismos biológicos intrínsecos ao exercício.

Um dos pilares dessa proteção é a modulação do sistema imunológico. O exercício induz uma mobilização aguda de células de defesa, especialmente as células natural killer (NK), cuja ativação é proporcional à intensidade do esforço e mediada por receptores β2-adrenérgicos. No longo prazo, esse acúmulo de desafios agudos melhora a função imunológica antitumoral específica, aumentando a citotoxicidade das células NK e a presença de linfócitos T CD8+ na mucosa colônica. Dado que a imunidade da mucosa está intimamente ligada à microbiota intestinal, é provável que esses benefícios imunológicos sejam, em parte, mediados pelo microbioma.

No nível molecular, o exercício ativa vias de sinalização cruciais, como a da proteína quinase ativada por AMP (AMPK) e a via mTOR. Quando ativada, a primeira melhora a saúde intestinal, fortalece a função de barreira e suprime a carcinogênese colorretal. Simultaneamente, a AF pode inibir o crescimento tumoral ao suprimir a via mTOR em carcinomas, alterando o metabolismo celular que normalmente favorece a glicólise aeróbica para sustentar a rápida proliferação de células cancerosas. Outro mecanismo relevante envolve a redução da expressão de RPS4X, uma proteína ligada à "potencialidade" (stemness) de células tumorais e metástases, que se apresenta diminuída em pacientes que praticam atividade física.

Por fim, a produção de SCFA, especialmente o butirato, surge como um elo vital entre a microbiota e a prevenção do CCR. Pacientes com câncer colorretal frequentemente apresentam uma redução de bactérias produtoras de butirato. Enquanto em células epiteliais saudáveis o butirato é metabolizado para fortalecer a barreira intestinal, em células cancerosas ele se acumula no citosol devido à disfunção mitocondrial. Esse acúmulo inibe as histonas desacetilases, o que leva à supressão epigenética da proliferação celular e promove vias de apoptose, reduzindo o tamanho do tumor e o potencial de metástase. Assim, a combinação de atividade física regular com a modulação da microbiota apresenta-se como uma estratégia terapêutica e preventiva potente para reduzir a carga do câncer gastrointestinal.

Conclusões e implicações clínicas

Hawley et al., (2025) sustentaram que a AF regular modifica positivamente a microbiota humana, fortalece a barreira mucosa e a imunidade, e reduz significativamente a incidência e progressão de doenças gastrointestinais crônicas e neoplasias. O reconhecimento da microbiota como um alvo dinâmico para modular os efeitos sistêmicos do exercício posiciona a sua modulação como uma terapia imunoterapêutica potente. Diante desses achados, recomendou-se que a AF regular seja formalmente incorporada aos protocolos de tratamento clínico padrão para pacientes com doenças do trato gastrointestinal, visando otimizar os desfechos terapêuticos e diminuir o fardo pessoal dessas condições.