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Publicado el 6 de febrero de 2026

Saúde

Vírus oropouche representa risco para gestantes brasileiras

Doença pode causar transmissão vertical, provocando malformações do sistema nervoso do feto.

Uma revisão recente de estudos apontou que a infecção pelo vírus oropouche, transmitido por insetos, pode trazer riscos significativos para gestantes e seus bebês. Evidências mais recentes indicaram a possibilidade de transmissão vertical, com infecção da placenta e potenciais danos graves ao sistema nervoso central do feto, incluindo aborto espontâneo, malformações congênitas e até óbitos fetal e neonatal.

Tradicionalmente associado às regiões Norte e Nordeste, o oropouche tem mostrado expansão para outras áreas do Brasil, com aumento expressivo de casos especialmente no Espírito Santo e no Rio de Janeiro.

A análise reforçou a necessidade de que o vírus seja incluído nos protocolos de diagnóstico diferencial durante a gestação. Os sintomas, como cefaleia intensa, mialgia, náuseas e diarreia, podem ser facilmente confundidos com doenças como dengue, zika, chikungunya e febre amarela.

Segundo o professor Geraldo Duarte, da Faculdade de Medicina da USP, essa semelhança clínica dificulta o diagnóstico apenas pela avaliação inicial. Ele destacou que, para gestantes, a identificação correta da infecção permite um acompanhamento obstétrico mais rigoroso, realização de exames seriados para detecção precoce de complicações, orientação sobre prevenção de novas picadas, além de suporte às ações de controle do vetor. O especialista lembrou ainda que não há antivirais específicos para tratar o oropouche, reforçando a importância do manejo clínico adequado.

Para orientar profissionais de saúde, Duarte e colegas elaboraram o Manual de prevenção, diagnóstico e manejo da febre do oropouche durante a gravidez, parto e puerpério, publicado pela Febrasgo em parceria com o Ministério da Saúde.

Os resultados da revisão foram publicados no artigo Oropouche na gravidez: uma ameaça emergente à saúde materna e fetal, na Revista de Medicina Materno-Fetal e Neonatal, com participação de pesquisadores da USP, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e de outras instituições.

Transmissão vertical: o que já se sabe

O vírus é transmitido principalmente pelo mosquito pólvora (Culicoides paraensis) e, em menor frequência, por mosquitos do gênero Culex. Estudos recentes mostraram que o oropouche é capaz de infectar células placentárias e atravessar essa barreira natural, alcançando o feto.

O professor Eurico de Arruda Neto, da FMRP-USP, coordena uma equipe dedicada a investigar como o vírus consegue ultrapassar a placenta. A hipótese atual é que pequenos fragmentos de RNA viral estejam envolvidos nesse mecanismo. A equipe trabalha para identificar precisamente quais processos permitem essa passagem.

Relatos científicos recentes incluíram casos de: abortos e natimortos associados ao vírus; resultados positivos para oropouche em placenta e sangue de cordão umbilical; recém-nascidos com microcefalia que apresentaram anticorpos contra o vírus no líquor, sem sinais de outras arboviroses.

Expansão no Brasil e cenário epidemiológico

Dados recentes mostram que:

  • Em 2024, o país registrou 13.801 casos confirmados e duas mortes.
  • Até junho de 2025, já haviam sido notificadas 11.706 novas infecções.
  • Estados com maior incidência incluem: Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraíba e Ceará.

A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) registrou, em 2025, casos de complicações neurológicas e óbitos fetais sob investigação, reforçando a preocupação.

Com o avanço geográfico do vírus e a crescente evidência de seus efeitos na gestação, especialistas defendem:

  • ampliação da vigilância epidemiológica;
  • fortalecimento da rede de diagnóstico laboratorial;
  • acompanhamento integrado de gestantes em serviços especializados;
  • capacitação contínua dos profissionais de saúde;
  • intensificação de medidas de controle vetorial.

Sem medicação antiviral específica, a prevenção e o diagnóstico preciso são, hoje, as principais ferramentas para reduzir os riscos à saúde materna e fetal.