Pesquisadores brasileiros identificaram um composto sintético capaz de atuar em múltiplas etapas do ciclo da malária, oferecendo não apenas efeito terapêutico, mas também potencial para interromper a transmissão do parasita. A molécula demonstrou ação tanto no sangue quanto no fígado, fases cruciais da infecção humana, e ainda impede que o mosquito vetor se torne capaz de disseminar a doença.
A descoberta representou um passo relevante rumo ao desenvolvimento de terapias mais completas contra a malária, que ainda causa cerca de 600 mil mortes por ano, principalmente no continente africano.
O estudo revelou que o composto é eficaz contra Plasmodium vivax, espécie predominante no Brasil e difícil de manter em cultura laboratorial. Os testes foram possíveis graças a amostras de sangue de pacientes infectados, obtidas em parceria com a Fiocruz Rondônia. A molécula também apresentou excelente desempenho contra P. falciparum, responsável pelas formas mais graves da malária.
Derivada de 4‑quinolonas naturais, a molécula demonstrou um raro efeito triplo:
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Inibe a fase hepática, bloqueando o desenvolvimento inicial do parasita no fígado.
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Combate os estágios sanguíneos, responsáveis pelos sintomas clássicos como febre, calafrios e anemia.
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Interrompe a transmissão ao mosquito, impedindo que o inseto se torne capaz de infectar outra pessoa.
Segundo Aguiar, esta é a primeira vez que o grupo demonstra experimentalmente a ação do composto na etapa transmissível — ponto considerado essencial para estratégias de controle e, futuramente, eliminação da malária.
Ensaios realizados com sangue de pacientes mostraram que o composto impede o desenvolvimento das formas sexuais do parasita dentro do mosquito, como oocinetos, oocistos e esporozoítos. Assim, mesmo que o inseto pique alguém tratado, não adquire capacidade de transmitir a doença.
Como a molécula funciona?
A ação ocorre na mitocôndria do parasita, onde o composto bloqueia o complexo enzimático citocromo bc1, essencial para a síntese de pirimidinas, componentes necessários para formar DNA. Sem essa via, o Plasmodium não consegue se multiplicar nem completar seu ciclo de vida. Um ponto destacado pelos pesquisadores é a seletividade do composto: ele age nas mitocôndrias do parasita sem afetar as células humanas.
Apesar dos resultados animadores, os autores ressaltaram que a trajetória até um novo medicamento ainda é longa. Estudos adicionais de toxicidade, farmacocinética e formulação serão necessários antes de testes clínicos.
Mesmo assim, segundo o professor Rafael Guido (IFSC-USP), coautor do trabalho, os dados justificaram o investimento em seu desenvolvimento:
“O parasita da malária é altamente adaptável e capaz de desenvolver resistência às terapias já existentes. Uma molécula com ação multietapa representa uma oportunidade estratégica para o futuro do tratamento.”