A vaginite inflamatória descamativa (VID) foi descrita pela primeira vez em 1965. Posteriormente, estudos introduziram a vaginite aeróbica (VA) como uma nova entidade clínica, apresentando características semelhantes às da VID. Ainda não está claro se essas condições representam entidades distintas ou apenas diferentes manifestações de um mesmo espectro clínico. Até o momento, os avanços na compreensão de sua etiologia, critérios diagnósticos e abordagens terapêuticas têm sido limitados.
A VA é caracterizada por colonização moderada a severa por bactérias aeróbicas facultativas, depleção de lactobacilos e uma resposta inflamatória moderada a severa na mucosa vulvovaginal. Por sua vez, a VID é considerada uma forma grave de VA, apresentando colonização por bactérias aeróbicas facultativas, ausência de lactobacilos e sinais de inflamação severa na mucosa vaginal.
Estudos sugeriram que a predisposição genética a processos autoimunes pode ser um fator de risco para VA e VID, com relatos de associações entre essas condições e doenças autoimunes, como a tireoidite e a doença de Crohn. Além disso, dados epidemiológicos indicaram uma prevalência estimada entre 2% e 25% globalmente.
| Sinais e sintomas |
A maioria dos casos de vaginite aeróbica e vaginite inflamatória descamativa é assintomática, especialmente em suas formas leves. No entanto, quando presentes, os sintomas característicos incluem uma intensa reação inflamatória da mucosa vaginal, manifestada por sensibilidade acentuada, dispareunia, ardor e sensação de queimação. Em alguns casos, podem ocorrer também prurido, petéquias submucosas, enantema vaginal e cervical.
O corrimento vaginal associado à condição apresenta-se purulento, frequentemente abundante, com coloração verde ou amarelada, podendo ocasionalmente conter vestígios de sangue. Os sintomas tendem a ser persistentes, com intensidade variável ao longo do tempo.
| Diagnóstico |
O diagnóstico de VA/VID tem como padrão-ouro a microscopia de esfregaço úmido (wet mount microscopy, WMM).
O diagnóstico é estabelecido com base em critérios laboratoriais, incluindo a redução ou ausência de morfotipos de Lactobacillus, a presença de outras bactérias (pequenos bastonetes ou cocos), quantidade significativa de células inflamatórias, identificação de células epiteliais parabasais, pH vaginal elevado e resultado negativo no teste de odor.

Figura 1. Vaginite aeróbica/vaginite inflamatória descamativa em microscopia de esfregaço úmido (400x, contraste de fase). A: Vaginite aeróbica moderada. B e C: Vaginite aeróbica grave/vaginite inflamatória descamativa. Imagem adaptada de Borrela, F. et al. (2024).
| Tratamento |
O tratamento de VA/VID deve ser orientado pelos achados microscópicos, envolvendo o uso de antibióticos tópicos ou antissépticos, esteroides tópicos e estrogênios tópicos. Para casos graves, recomenda-se uma abordagem combinada que inclua esses três elementos terapêuticos. Dado que a VA/VID grave é uma condição crônica, a terapia de manutenção por um período de dois a seis meses é frequentemente necessária para evitar recidivas.
Em casos moderados de VA/VID, sem suspeita de uma condição imunoinflamatória subjacente, um único curso de clindamicina ou cloreto de dequalínio tem mostrado bons resultados. A canamicina, por sua vez, demonstrou eficácia contra bacilos Gram-negativos, sem interferir na microbiota vaginal saudável de Lactobacillus, sendo utilizada em um regime de 100 mg por via vaginal durante seis dias consecutivos.
A moxifloxacina oral também mostrou alguma eficácia no tratamento da VA/VID. Em um estudo, cerca de dois terços dos pacientes foram curados após um único curso de seis dias com 400 mg por dia, e 85% daqueles que necessitaram de um segundo curso alcançaram a cura. Contudo, considerando a possibilidade de tratar a condição com regimes tópicos eficazes, o uso de antibióticos sistêmicos deve ser reservado para casos em que as opções tópicas não sejam adequadas ou suficientes.
| Considerações futuras |
A VA/VID permanecem como condições pouco compreendidas e com escassez de estudos aprofundados. É essencial ampliar o conhecimento sobre essas patologias para possibilitar um manejo clínico mais eficiente e reduzir as complicações associadas. Uma compreensão mais abrangente pode viabilizar o desenvolvimento de tratamentos mais adequados e eficazes, além de aprimorar as definições clínicas e as ferramentas diagnósticas disponíveis.
Enquanto avanços significativos não são alcançados, é fundamental investir em educação e treinamento de profissionais de saúde, especialmente na prática da microscopia de esfregaço úmido a fim de otimizar o diagnóstico e a abordagem terapêutica dessas condições.