Articles

/ Published on January 6, 2025

Metanálise de dados

Pressão arterial, anti-hipertensivos e o risco de demências

O impacto do tratamento anti-hipertensivo na prevenção de doenças neurodegenerativas

Introdução

A hipertensão é a principal causa de doenças cerebrovasculares, afetando aproximadamente 1,3 bilhão de pessoas em todo o mundo. Estudos confirmam que está associada a um aumento do risco de demência vascular (DV). Em relação à demência de Alzheimer (DA), uma metanálise revelou que a hipertensão na meia-idade foi associada a um risco 19% maior de desenvolver DA.

Todavia, o uso de medicamentos anti-hipertensivos foi relacionado a uma redução de 13% no risco de demência. Recentemente, uma metanálise constatou que indivíduos com 60 anos ou mais com hipertensão não tratada apresentaram um risco 42% maior de demência por todas as causas, em comparação com aqueles sem a doença cardiovascular, e um risco 26% maior em relação àqueles em tratamento.

A DA possui fatores de risco específicos, incluindo influências familiares, genéticas e ambientais, que a diferenciam de outras demências, assim como estratégias terapêuticas e modificadores de sua progressão. Portanto, as formas de mitigação de risco para DA precisam ser distintas das aplicadas a outras demências, ressaltando a importância de compreender os efeitos específicos da pressão arterial (PA) e do uso de anti-hipertensivos sobre esse risco. Nesse contexto, Lennon e colaboradores (2024) realizaram uma análise de dados com o objetivo de investigar a relação entre o uso de medicamentos anti-hipertensivos e o risco de DA e outras formas de demência não relacionadas ao Alzheimer.  

Métodos

Para a metanálise, os pesquisadores analisaram dados provenientes de 14 coortes, abrangendo estudos longitudinais baseados na comunidade sobre envelhecimento, pertencentes a uma rede pré-existente. As coortes incluíram populações de diversos países, como República do Congo, Brasil, China e Nigéria. Os desfechos principais avaliados foram o risco de desenvolver demência de Alzheimer e outras formas de demência não relacionadas ao Alzheimer. As principais variáveis de exposição incluíram o histórico de hipertensão, o uso de medicamentos anti-hipertensivos e os valores basais de pressão arterial sistólica (PAS) e diastólica (PAD).

Para a análise estatística, foram utilizados modelos de riscos proporcionais de Cox com efeitos mistos, permitindo considerar a variabilidade entre as diferentes coortes. Além disso, splines naturais foram aplicados para modelar a relação não linear entre os níveis de pressão arterial e os desfechos de demência. O modelo principal controlou fatores como, idade, sexo, nível de escolaridade, grupo étnico-racial e a coorte de origem do estudo.

Resultados

A análise incluiu 31.250 participantes de 14 países, sendo 41% homens, com uma idade média de 72 anos. Os resultados indicaram que indivíduos com hipertensão não tratada apresentaram um risco aumentado de 36% para demência de Alzheimer em comparação com “controles saudáveis” (razão de risco [HR] 1,36, intervalo de confiança [IC] 95% 1,01–1,83; p = 0,0406). Além disso, esse grupo teve um risco 42% maior de DA em relação aos indivíduos com hipertensão tratada (HR 1,42, IC 95% 1,08–1,87; p = 0,0135).

Em relação à demência não-Alzheimer (não-DA), aqueles com hipertensão, independentemente se tratada ou não, apresentaram maior risco quando comparados aos “controles saudáveis”. No entanto, não foi observada diferença significativa no risco de não-DA entre os grupos de hipertensão tratada e não tratada. Ademais, não houve associação significativa entre os níveis basais de pressão arterial e o risco de DA ou não-DA.

Conclusão

Na metanálise conduzida por Lennon e colaboradores (2024), foi observado que, ao longo da vida tardia, indivíduos com hipertensão tratada apresentaram um risco reduzido de desenvolver demência de Alzheimer em comparação com aqueles cuja hipertensão não foi tratada. Esse achado reforça a importância do uso de medicamentos anti-hipertensivos como componente essencial de estratégias de prevenção de DA, mesmo em idades avançadas.

Por outro lado, tanto a hipertensão tratada quanto a não tratada foram associadas a um risco aumentado de demência não-Alzheimer, sem diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos. No entanto, o risco elevado de não-DA no grupo de hipertensão tratada foi majoritariamente atribuído àqueles com pressão arterial inadequadamente controlada.

Adicionalmente, o estudo sugeriu que uma única medida de pressão arterial sistólica ou diastólica não é suficiente para prever o risco de DA. Isso destacou a necessidade de múltiplas avaliações de pressão arterial para guiar de forma eficaz o manejo clínico e a prevenção de demências relacionadas à hipertensão.