Tratar a doença gengival nos três meses após um procedimento para corrigir um ritmo cardíaco irregular, conhecido como fibrilação atrial (FA), pode reduzir a inflamação oral e diminuir a recorrência da FA, de acordo com uma nova pesquisa publicada no Journal of the American Heart Association.
Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), cerca de metade dos adultos americanos com 30 anos ou mais têm algum tipo de doença periodontal ou gengival, com a incidência aumentando com a idade.
O estudo foi um dos primeiros a investigar o impacto potencial do tratamento da doença gengival na FA. A fibrilação é uma condição em que o coração bate de forma irregular, aumentando o risco de acidente vascular cerebral (AVC) em cinco vezes. Mais de 12 milhões de pessoas nos EUA deverão ter FA até 2030, de acordo com as Estatísticas de Doenças Cardíacas e AVC de 2024 da American Heart Association.
“A doença gengival pode ser modificada por intervenção odontológica. O manejo adequado parece melhorar o prognóstico da FA, e muitas pessoas ao redor do mundo poderiam se beneficiar disso”, disse o principal autor do estudo, Shunsuke Miyauchi, M.D., Ph.D., professor assistente no Centro de Serviços de Saúde da Universidade de Hiroshima, no Japão, que trabalha com cardiologia geral, arritmia e pesquisa.
Os pesquisadores acompanharam 97 pacientes que haviam passado pelo procedimento não cirúrgico para corrigir a FA (ablação por cateter de radiofrequência) e receberam tratamento para inflamação gengival, juntamente com 191 pacientes submetidos à ablação que não receberam essa terapia. A ablação por cateter é um procedimento que utiliza energia de radiofrequência para destruir uma pequena área do tecido cardíaco que causa batimentos cardíacos rápidos e irregulares. O estudo descobriu que um índice que mede a gravidade da inflamação gengival estava associado ao retorno da FA.
Após o procedimento de ablação, durante um período médio de acompanhamento de 8,5 meses a 2 anos, os pesquisadores encontraram:
· A FA recorreu em 24% de todos os participantes ao longo do período de acompanhamento.
· Pacientes com inflamação gengival grave que foram tratados após a ablação por cateter cardíaco tinham 61% menos probabilidade de ter uma recorrência de FA, em comparação com aqueles que não receberam tratamento.
· Pacientes que tiveram recorrências de FA apresentaram doença gengival mais grave do que aqueles que não tiveram recorrências.
· Ter doença gengival, ser do sexo feminino, ter arritmia por mais de dois anos e o volume do átrio esquerdo foram preditores de recorrência da FA. Esse último muitas vezes leva à essa complicação, pois envolve espessamento e cicatrização de tecidos conjuntivos, explicou Miyauchi.
Miyauchi observou que, “Embora os principais achados estivessem de acordo com nossas expectativas, ficamos surpresos com a utilidade de um índice quantitativo de doença gengival, conhecido como área de superfície inflamada periodontal (PISA), na prática clínica cardiovascular.”
Embora a American Heart Association não reconheça a saúde bucal como um fator de risco para doenças cardíacas, ela admite que esse pode ser um indicador de saúde e bem-estar geral. Bactérias de dentes e gengivas podem viajar pela corrente sanguínea para o resto do corpo, incluindo o coração e o cérebro. A inflamação gengival crônica pode estar associada a outras condições sistêmicas de saúde, incluindo doença arterial coronariana, AVC e diabetes tipo 2.
Detalhes e contexto do estudo:
· Um total de 288 adultos (66% homens; 34% mulheres) sendo tratados para FA foram inscritos.
· O estudo de centro único foi conduzido de 1º de abril de 2020 a 31 de julho de 2022, no Hospital da Universidade de Hiroshima, no Japão, e todos os participantes eram asiáticos.
· Os inscritos foram examinados por um dentista antes de serem submetidos à ablação por cateter para FA.
“Agora estamos trabalhando em mais pesquisas para revelar o mecanismo subjacente à relação entre a doença gengival e a FA”, disse Miyauchi.
As limitações do estudo incluíram: um pequeno número de pacientes inscritos de um único centro; os pacientes não foram randomizados para receber tratamento odontológico; o status periodontal não foi acompanhado após o exame inicial entre os participantes que não receberam tratamento para a doença gengival; e os marcadores inflamatórios não foram reavaliados após o procedimento de ablação.
Referência: J Am Heart Assoc. 2024 Apr 16;13(8):e033740. doi: 10.1161/JAHA.123.033740. Disponível em: https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/JAHA.123.033740