| Introdução |
A infecção pelo SARS-CoV-2, conhecida como COVID-19, está associada ao surgimento de doenças mentais em estudos tanto hospitalares quanto populacionais. Entre os transtornos mais observados estão a ansiedade e os sintomas depressivos, além de condições mais graves, como transtornos psicóticos. Pesquisas anteriores, que identificaram essas associações em diferentes contextos, ofereceram insights valiosos sobre como a gravidade da infecção pode impactar a saúde mental a longo prazo.
Embora a vacinação tenha sido um componente essencial na resposta de saúde pública, ainda há poucas evidências sobre como ela influencia o desenvolvimento de doenças mentais relacionadas à infecção. Nesse contexto, Walker e colaboradores (2024) investigaram quais transtornos mentais foram associados ao diagnóstico da COVID-19, considerando o estado de vacinação, tanto em pacientes hospitalizados quanto na população em geral.
| Métodos |
Para o estudo, foram conduzidas três coortes. A primeira, anterior à disponibilidade da vacina, abrangeu o período da variante Alfa (janeiro de 2020 a junho de 2021). As segunda e terceira envolveram pessoas vacinadas e não vacinadas durante a variante Delta (junho a dezembro de 2021).
Com a aprovação do National Health Service England, o OpenSAFELY-TPP foi utilizado para acessar dados vinculados de 24 milhões de pessoas registradas em clínicas gerais na Inglaterra, usando o sistema TPP SystmOne. Foram incluídas pessoas registradas por pelo menos seis meses, com idade conhecida entre 18 e 110 anos, além de informações sobre sexo, índice de depressão e região na linha de base. Como critério de exclusão, foram descartadas pessoas que já haviam tido COVID-19 antes da linha de base. A análise dos dados ocorreu entre julho de 2022 e junho de 2024.
| Resultados |
A coorte pré-vacina, vacinada e não vacinada incluiu 18.648.606 pessoas (50,2% mulheres), 14.035.286 indivíduos (52,1% mulheres) e 3.242.215 participantes (42,1% mulheres), com idade mediana de 49, 53 e 35 anos, respectivamente.
A incidência de doenças mentais aumentou nas semanas 1 a 4 após o diagnóstico da COVID-19, especialmente em coortes pré-vacinação e não vacinadas. Na coorte pré-vacina, o risco ajustado (aHR) para depressão foi 1,93 e para doenças mentais graves, 1,49. Na não vacinada, esses valores foram 1,79 e 1,45. Já na vacinada, os aHRs foram 1,16 para depressão e 0,91 para doenças mentais graves. Dessa forma, o estudo constatou que a hospitalização pela COVID-19 foi associada a uma incidência mais alta e prolongada de doenças mentais.
| Conclusão |
As descobertas deste estudo contribuem para o crescente corpo de evidências que indica um risco elevado de desenvolvimento de transtornos mentais após a infecção pelo SARS-CoV-2, especialmente no que se refere ao surgimento de novas condições psiquiátricas a longo prazo. Esses achados têm implicações significativas para a saúde pública e para a organização dos serviços de saúde mental, considerando que transtornos mentais graves estão associados a uma maior necessidade de cuidados intensivos e a impactos adversos prolongados.
Adicionalmente, o estudo aponta que, embora a vacinação contra a COVID-19 não exerça um papel direto na prevenção de transtornos mentais, a população não vacinada apresenta maior vulnerabilidade a desenvolver condições como ansiedade e depressão após a hospitalização por COVID-19. Apesar de a vacina não prevenir diretamente esses transtornos, ela contribui para a redução da gravidade da infecção, o que, por sua vez, diminui as taxas de hospitalização e, indiretamente, reduz a incidência de transtornos mentais relacionados à COVID-19. Esses achados reforçam a importância da vacinação como uma medida relevante não apenas para a mitigação da infecção, mas também para a prevenção de complicações psiquiátricas associadas.