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/ Published on August 24, 2025

Inovação farmacológica

Suzetrigina: uma nova abordagem no tratamento da dor

Estudo revelou alta seletividade, eficácia periférica e perfil de segurança robusto da suzetrigina como inibidor seletivo do canal NaV1.8 para dor moderada a intensa.

Introdução

A dor é uma experiência humana natural e pode ser benéfica quando exerce função protetora ou sinaliza lesões em tecidos. No entanto, quando moderadas a intensas, sua gestão representa um desafio clínico, pois analgésicos e agentes do sistema nervoso central frequentemente apresentam efeitos colaterais e risco de dependência, especialmente os opioides. Desse modo, há uma demanda crescente por terapias não opioides que inibam especificamente a dor sem risco de vício, de maneira segura e eficaz 

A suzetrigina surgiu como uma inovação promissora: um inibidor altamente seletivo do canal de sódio voltagem-dependente NaV1.8. Ao bloquear esse canal, redução da transmissão dos sinais de dor sem afetar o cérebro ou a medula espinhal, evitando os efeitos adversos comuns dos bloqueadores não seletivos e dos opioides. 

Após duas décadas de pesquisa, a suzetrigina demonstrou eficácia clínica e segurança em estudos de dor aguda e está sendo avaliada para dor neuropática. Diante disso, o artigo de Osteen e colaboradores (2025) descreveu a farmacologia e o mecanismo de ação desse novo fármaco, ampliando os dados clínicos para oferecer uma avaliação abrangente de sua segurança. 

Métodos 

Foram realizados estudos de farmacologia pré-clínica e de mecanismo de ação in vitro, utilizando técnicas de eletrofisiologia e métodos de ligação com radiotraçadores em células que expressam recombinantemente canais humanos de sódio voltagem-dependentes (NaV), proteínas humanas e neurônios sensoriais primários do gânglio da raiz dorsal (DRG) humano. 

As avaliações de segurança e potencial de dependência incluíram estudos de farmacologia secundária in vitro, estudos não clínicos de toxicidade por dose repetida e estudos de dependência em ratos e/ou macacos, além de uma análise sistemática dos dados de eventos adversos gerados a partir de estudos de fase 3 sobre dor aguda. 

Resultados

Análises de RNA-seq em mais de mil amostras post-mortem confirmaram que esse canal não é expresso no sistema nervoso central humano, o que reduz significativamente o risco de efeitos adversos no SNC 

A suzetrigina demonstrou alta seletividade farmacológica, sem afinidade por 180 alvos humanos testados — incluindo 44 associados ao potencial de abuso, apresentou potência subnanomolar (IC50 = 0,68 nM em humanos) e seletividade superior a 31.000 vezes em relação aos demais subtipos da família NaV. Análises estruturais também confirmaram que sua composição não apresenta semelhança com opioides ou outras substâncias de abuso conhecidas. 

Estudos em neurônios sensoriais humanos isolados do gânglio da raiz dorsal (DRG) mostraram que esse fármaco inibe significativamente os potenciais de ação relacionados à dor, com máxima eficácia observada a 10 nM. O mecanismo de ação envolve a estabilização do NaV1.8 em seu estado fechado, diferindo dos anestésicos locais que atuam nos estados aberto e inativado — o que contribui para um perfil farmacológico mais seguro e direcionado 

A combinação com anestésicos locais como bupivacaína e ropivacaína, resultou em efeito aditivo sem interferência farmacológica, sugerindo viabilidade de uso combinado em contextos clínicos, como bloqueios periféricos ou pós-operatórios 

Estudos não clínicos em ratos e macacos não evidenciaram sinais de dependência, toxicidade ou efeitos cardiovasculares adversos, mesmo em exposições superiores às terapêuticas. Avaliações de ECG, pressão arterial e função respiratória mostraram ausência de alterações significativas, mesmo em estudos de dose repetida por até 9 meses. 

Ensaios clínicos de fase 3 com 2.447 participantes tratados por até 14 dias indicaram baixa incidência de eventos adversos relacionados ao potencial de abuso, com perfil de segurança semelhante ao placebo. Tontura foi o evento mais comum, ocorrendo em 3,8% dos pacientes tratados com suzetrigina, comparado a 6,4% no grupo placebo e 5,3% no grupo hidrocodona/paracetamol. Outros eventos adversos relacionados ao potencial de abuso foram raros. 

Conclusão 

Com base nos dados pré-clínicos e clínicos, o estudo de Osteen e colaboradores (2025) mostrou que a suzetrigina se destacou como uma inovação terapêutica relevante na analgesia. Sua ação seletiva sobre o canal NaV1.8, restrita ao sistema nervoso periférico, oferece uma abordagem eficaz para o controle da dor sem os efeitos adversos e o risco de dependência associados aos opioides. Ao inaugurar uma nova classe de analgésicos não opioides com perfil de segurança robusto, esse fármaco tem potencial para redefinir o manejo da dor moderada a intensa, contribuindo para práticas clínicas mais seguras e direcionadas.