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Publicado el 10 de junio de 2026

Obesidade infantil

Substituição isocalórica de proteínas na infância e seu impacto no IMC aos 5 anos

Estudo prospectivo analisou como a substituição de proteínas por carboidratos ou gorduras aos 9 meses de idade influencia o IMC aos 5 anos. Entenda por que o equilíbrio de macronutrientes na infância é crucial para prevenir a obesidade precoce.

Autor/a: Tesfaye, T.S., Szymlek-Gay, E.A., Grimes, C.A. et al.

Fuente: Int J Obes (2026). https://doi.org/10.1038/s41366-026-02099-y Replacing protein with carbohydrate or fat in infancy is associated with lower Body Mass Index in early childhood: results from the Melbourne InFANT Program

A obesidade infantil é reconhecida como um dos desafios de saúde global mais críticos das últimas décadas. Evidências robustas indicaram que o aumento da adiposidade estabelecido na infância tende a persistir na vida adulta, resultando em consequências de saúde adversas a curto e longo prazo. Nesse contexto, a hipótese das Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença (DOHaD) postulou que os primeiros 1.000 dias de vida constituem uma janela crítica de desenvolvimento, com impactos duradouros na saúde metabólica e no risco de obesidade.

A nutrição precoce exerce um efeito significativo e duradouro na obesidade. Especificamente, a ingestão excessiva de proteínas durante a infância tem sido associada a um risco aumentado de excesso de peso infantil, sendo o período de introdução da alimentação complementar e a transição para a dieta da família (entre 6 e 12 meses de idade) uma fase particularmente crucial. Estudos sugeriram que a ingestão de proteínas de fontes animais não lácteas foi vinculada ao maior ganho de peso, enquanto os dados sobre proteínas lácteas permanecem inconsistentes e o consumo de carboidratos ou gorduras nesta fase não demonstrou associações claras com o desenvolvimento ponderal subsequente.

Apesar dessas observações, ainda não se sabe se a redução da ingestão proteica por meio da substituição isocalórica por gorduras ou carboidratos pode influenciar o peso corporal. A modelagem de substituição de macronutrientes é uma ferramenta valiosa para avaliar essas trocas mantendo a energia total constante, porém a maioria desses estudos foi realizada em adultos ou crianças em idade escolar.

Diante dessa lacuna, Tesfayne e colaboradores (2026) realizaram um estudo com o objetivo de examinar as associações entre a substituição da ingestão de proteínas por gorduras ou carboidratos, bem como a substituição de subtipos proteicos (animal não lácteo, vegetal e lácteo) aos 9 meses de idade, e os resultados de índice de massa corporal (IMC) aos 5 anos de idade.

O estudo foi conduzido como uma análise secundária de dados provenientes do Programa Melbourne InFANT, um ensaio clínico de intervenção voltado para a prevenção da obesidade na primeira infância. Originalmente, o programa recrutou 542 pares de pais e filhos quando os lactentes tinham cerca de 4 meses de idade. A amostra final foi composta por 345 crianças que possuíam dados completos de recordatórios alimentares aos 9 meses e avaliações antropométricas aos 5 anos.

Para a avaliação dietética, nutricionistas treinados realizaram três recordatórios de 24 horas por telefone aos 9 meses de idade, abrangendo dias de semana e de final de semana para capturar a variabilidade da dieta. O consumo de leite materno foi quantificado em minutos de amamentação e convertido em volume através de um fator de conversão de 10 mL/min, enquanto a composição nutricional de alimentos e fórmulas foi derivada do banco de dados AUSNUT 2007. A ingestão proteica total foi segmentada em três fontes principais para análise: animal láctea (incluindo fórmulas e leite materno), animal não láctea (carnes, ovos e peixes) e vegetal.

A antropometria das crianças foi realizada aos 9 meses e aos 5 anos, utilizando equipamentos calibrados para aferição de peso e comprimento ou estatura. Os escores-z do índice de massa corporal (IMC) foram calculados de acordo com os padrões de crescimento da Organização Mundial da Saúde (OMS), que também serviram para categorizar o status de sobrepeso e obesidade aos 5 anos. Diversas variáveis sociodemográficas, como o nível educacional materno, o IMC pré-gestacional da mãe e o peso ao nascer da criança, foram coletadas para servirem como potenciais fatores de confusão nos modelos estatísticos.

Foi aplicada a modelagem de substituição de macronutrientes (leave-one-out) para simular o efeito isocalórico da substituição de 5% da energia total (%E) ou 100 kJ de proteína por carboidratos ou gorduras, mantendo a ingestão energética constante. Foram utilizados modelos de regressão linear e logística multivariável, devidamente ajustados para confundidores como sexo, fonte primária de leite, peso ao nascer e escolaridade materna. Adicionalmente, os pesquisadores avaliaram o impacto de substituir a proteína animal não láctea por fontes vegetais ou lácteas sobre os desfechos de composição corporal aos 5 anos.

Os resultados do estudo indicaram que, aos nove meses de idade, as crianças apresentavam uma ingestão média de proteína de 28,2 ± 11,0 g/dia, de carboidratos de 98,9 ± 26,1 g/dia e de gorduras de 33,7 ± 8,2 g/dia. A composição da ingestão proteica total foi majoritariamente proveniente de fontes lácteas (50%), seguidas por proteínas vegetais (28%) e proteínas animais não lácteas (22%). Aos 5 anos de idade, as crianças avaliadas apresentaram um escore-z de IMC médio de 0,5 ± 0,9, com uma prevalência de sobrepeso de 18,6% e de obesidade de 3,8%.

A análise de regressão, após o ajuste para potenciais variáveis de confusão, revelou que a substituição isocalórica de proteína por outros macronutrientes teve um impacto significativo no desenvolvimento ponderal. Especificamente, a substituição de 5% da energia total (%E) proveniente de proteínas por carboidratos aos nove meses foi associada a uma redução de 0,16 unidades no escore-z de IMC aos 5 anos. Resultados equivalentes foram observados na substituição de 5%E de proteína por gordura. Quando a análise considerou a substituição de cada 100 kJ de proteína, a redução no escore-z de IMC foi de 0,11 unidades tanto para carboidratos quanto para gorduras.

Embora tenha sido observada uma tendência inversa consistente, o estudo não encontrou uma associação estatisticamente significativa entre a substituição de proteína por gordura ou carboidrato e as chances (odds) de a criança apresentar status de sobrepeso aos 5 anos de idade (P > 0,05). Da mesma forma, a substituição de subtipos proteicos, especificamente a troca de proteína animal não láctea por proteína vegetal ou láctea, não demonstrou associações significativas com o escore-z de IMC ou com o status de sobrepeso na infância precoce.

Nas análises de sensibilidade, os pesquisadores notaram que a associação benéfica da substituição de proteína por carboidratos ou gorduras foi estatisticamente significativa no grupo controle, mas não no grupo que recebeu a intervenção original do programa InFANT. No entanto, a direção das associações permaneceu consistente em ambos os grupos e os testes de interação sugeriram que o efeito simulado da substituição de macronutrientes no escore-z de IMC não diferiu significativamente entre as alocações dos grupos. Esses achados reforçaram a hipótese de que o efeito observado é independente da intervenção realizada anteriormente.

Em conclusão, o estudo demonstrou que a substituição isocalórica de proteínas por carboidratos ou gorduras durante a infância foi inversamente associada ao escore-z de IMC na infância precoce, embora essa associação não tenha se estendido ao status de sobrepeso na amostra avaliada. Adicionalmente, a substituição específica de subtipos proteicos, como a troca de proteína animal não láctea por fontes vegetais ou lácteas, não apresentou evidências de impacto nos desfechos de obesidade aos 5 anos de idade. Esses achados corroboram a necessidade de intervenções clínicas que busquem desencorajar a ingestão excessiva de proteínas nos primeiros anos de vida, visando a prevenção primária da obesidade infantil. Os autores ressaltaram que tais informações são valiosas para o refinamento de diretrizes nutricionais e recomendações de alimentação complementar.