A microbiota intestinal humana é composta por milhares de espécies microbianas, com maior concentração no cólon. O supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO) é definido pelo aumento anormal da carga bacteriana no intestino delgado, acompanhado por alterações em sua composição, especialmente com predomínio de anaeróbios.
Embora o ponto de corte clássico fosse >10⁵ UFC/mL em aspirado jejunal, consensos mais recentes sugeriram 10³ UFC/mL em aspirado duodenal ou jejunal e predominância de coliformes como critério de apoio. Esses parâmetros permanecem em debate devido a dinâmicas taxonômicas variáveis da microbiota, influenciada por dietas ricas em fibras ou doenças intestinais.
Com o avanço no entendimento do microbioma, o SIBO passou a ser entendido também sob a perspectiva qualitativa, diferenciando-se de disbiose, que nem sempre indica doença. Surgiram também subclassificações, como o Intestinal Methanogen Overgrowth (IMO), associado ao aumento de arqueias metanogênicas, e o Small Intestinal Fungal Overgrowth (SIFO), relacionado ao crescimento de fungos do tipo Candida, embora este último ainda careça de padronização diagnóstica.
O artigo de González e colaboradores (2025) revisou as principais evidências sobre o conceito, diagnóstico e manejo do SIBO, visando orientar profissionais de saúde diante do crescente interesse público e da necessidade de padronização na prática clínica.
| Sintomas de SIBO e quando suspeitar |
Os sintomas são amplos e inespecíficos, como distensão, dor abdominal, flatulência e, nos casos mais graves, sinais de má absorção. No entanto, esses sintomas têm baixa capacidade de prever o diagnóstico, sendo a diarreia a manifestação mais consistentemente associada. A suspeita deve ser considerada apenas quando esses sintomas ocorrem junto a fatores predisponentes, como alterações anatômicas intestinais, distúrbios de motilidade, doenças metabólicas ou condições como doença inflamatória intestinal (DII), doença celíaca e síndrome do intestino irritável (SII).
Diretrizes recentes reforçaram que a investigação deve ser restrita a pacientes com sintomas relevantes e riscos bem estabelecidos, já que quadros isolados de distensão, constipação ou uso de inibidor da bomba de prótons (IPB) não justificam testes. Assim, a avaliação deve ser criteriosa para evitar diagnósticos excessivos e exames desnecessários.
| Validade diagnóstica dos testes para SIBO |
A cultura de aspirado intestinal, embora considerada o padrão‑ouro tradicional para SIBO, apresenta limitações como contaminação, baixa detecção de anaeróbios e falta de consenso sobre o ponto de corte. Métodos de sequenciamento ampliam a análise da microbiota, mas são caros e invasivos.
Os testes respiratórios, mais usados na prática, têm baixa precisão, sobretudo com lactulose. A glicose é preferida, mas ainda pode gerar falsos positivos, especialmente em pacientes com trânsito acelerado ou cirurgias abdominais. A medição de CH₄ pode auxiliar na identificação de IMO, porém sofre influência de variabilidade individual.
Exames de fezes não refletem a microbiota do intestino delgado e não são indicados para diagnóstico de SIBO. Técnicas emergentes, como análise de VOC e cápsulas ingeríveis, mostram potencial, mas ainda não estão validadas.
| Os testes diagnósticos predizem a resposta ao tratamento? |
Evidências mostraram que testes diagnósticos de SIBO não são bons preditores de resposta ao tratamento. Estudos sugeriram que testes respiratórios positivos (especialmente com lactulose) poderiam indicar maior chance de melhora com rifaximina ou neomicina, mas esses resultados foram fortemente criticados por falhas metodológicas e falta de consistência.
Pesquisas mais recentes confirmaram que: valores de H₂ e CH₄ não se correlacionam com melhora clínica; a cultura de aspirado não prevê resposta a antibióticos; probióticos só mostraram benefício em situações muito específicas e não de forma consistente.
Além disso, em pacientes com SII, a produção de gases durante o teste respiratório não prediz gravidade de sintomas nem resposta a terapias para hipersensibilidade.
| Quão úteis são as medidas dietéticas? |
As evidências sobre o uso de dietas no tratamento do SIBO são muito limitadas e de baixa qualidade. O único estudo relevante avaliou a dieta elementar, que normalizou testes respiratórios em parte dos pacientes e melhorou sintomas, mas sua baixa palatabilidade e difícil adesão impedem seu uso clínico rotineiro. Outras abordagens, como mindful eating, redução de fibras, dieta low FODMAP ou transplante fecal, podem modificar a microbiota, mas não foram estudadas diretamente em SIBO, apenas em SII.
Além disso, dietas restritivas podem trazer riscos, especialmente em pacientes com distúrbios gastrointestinais funcionais. Assim, não há evidências suficientes para recomendar medidas dietéticas específicas para tratar SIBO, e sua indicação deve ser cautelosa até que estudos robustos sejam realizados.
| Quão eficazes são os antibióticos? |
Os antibióticos são o principal tratamento utilizado para SIBO, mas a qualidade da evidência é limitada e não existe um protocolo universalmente aceito. A rifaximina é o medicamento mais estudado e apresenta taxas de erradicação em torno de 59% a 63%, dependendo da dose e duração. Outros antibióticos, como metronidazol, ciprofloxacino, norfloxacino e neomicina, também podem ser eficazes, mas com menos evidências e maior risco de efeitos adversos.
Para o IMO, estudos sugeriram que a combinação rifaximina + neomicina pode ser mais eficaz do que monoterapia, especialmente em pacientes com constipação. No entanto, esses achados precisam ser confirmados por pesquisas maiores.
A recorrência após o tratamento é alta, chegando a 43,7% em nove meses, e o uso repetido de antibióticos aumenta riscos como resistência e infecções oportunistas. Por isso, devem ser usados com cautela, apenas em casos com forte suspeita clínica ou SIBO mais grave.
| Probióticos são benéficos? |
Alguns estudos mostraram melhora de sintomas abdominais, sobretudo em pacientes com SII ou após uso de antibióticos, e indicaram que determinados probióticos podem modular a microbiota e reduzir mediadores inflamatórios. No entanto, os resultados são inconsistentes e variam conforme a cepa, dose e população estudada.
Embora geralmente seguros, probióticos podem causar efeitos adversos, incluindo piora de sintomas e raros casos de acidose D‑lática. Eles podem ser úteis em casos selecionados, mas ainda não há evidências suficientes para recomendar seu uso rotineiro no SIBO.
| Fitoterápicos são uma alternativa viável? |
Alguns estudos com Daikenchuto melhoraram os sintomas em um pequeno grupo de pacientes, mas não negativou o teste respiratório. Em um estudo maior, combinações como Dysbiocide + FC Cidal e Candibactin‑AR + Candibactin‑BR apresentaram taxas de negativação do teste de lactulose de 46%, semelhantes às obtidas com rifaximina (34%). Além disso, 57,1% dos pacientes que não responderam à rifaximina normalizaram o teste após usar essas preparações herbais. Contudo, esse estudo não avaliou sintomas clínicos e apresenta limitações como amostra pequena e número reduzido de estudos disponíveis, o que restringe sua aplicabilidade na prática.
Em resumo, o SIBO permanece uma condição clínica com definição e critérios diagnósticos ainda heterogêneos, exigindo que a indicação de testes seja restrita a pacientes com fatores predisponentes relevantes e probabilidade pré‑teste elevada. Os métodos disponíveis têm limitações de precisão e podem gerar sobrediagnóstico, devendo ser interpretados no contexto clínico. No tratamento, a rifaximina é a opção com melhor evidência na literatura, porém com eficácia moderada e alta recorrência, o que reforça a necessidade de abordar fatores predisponentes e individualizar estratégias. Intervenções dietéticas, probióticos, fitoterápicos e terapias emergentes permanecem sem evidência robusta para recomendação rotineira no SIBO, e a erradicação não deve ser encarada como solução universal para sintomas inespecíficos.