Arte & Cultura

Publicado el 14 de agosto de 2026

Saúde global

Saúde mental como desfecho das políticas ambientais

Pesquisadores propuseram que acordos internacionais sobre clima, biodiversidade, poluição e resíduos tóxicos passem a incorporar indicadores e metas relacionados à saúde mental.

Autor/a: Kumar, M. et al.

Fuente: Nature 656, 292-296 (2026) Why environmental treaties must also address mental health

Historicamente, as políticas ambientais e de saúde mental têm sido tratadas como áreas independentes. No entanto, em artigo publicado na revista Nature, Kumar et al., (2026) questionaram essa separação e defenderam que os principais tratados ambientais deveriam ser reconhecidos como instrumentos de prevenção de transtornos mentais e promoção do bem-estar psicossocial.

Segundo os autores, fatores como poluição, mudanças climáticas, perda de biodiversidade e degradação dos ecossistemas afetam a saúde mental ao longo da vida, aumentando o risco de prejuízos ao desenvolvimento neurocognitivo, ansiedade, depressão e sofrimento psicossocial.

Apesar dessas evidências, o bem-estar psicológico ainda é pouco considerado nos acordos ambientais globais. Para preencher essa lacuna, Kumar et al., (2026) propuseram a incorporação de indicadores e estratégias de saúde mental nesses tratados, organizando-os em três níveis de prioridade conforme sua relevância para esse desfecho.

1. Alta prioridade: Produtos químicos e resíduos perigosos

Incluem tratados que apresentam a relação mais direta com a saúde mental, pois regulam substâncias neurotóxicas e pesticidas perigosos, como:

-Convenção de Estocolmo sobre poluentes orgânicos persistentes;

- Convenção de Minamata sobre mercúrio;

- Convenção de Roterdã;

- Convenção da Basileia.

A redução da exposição a mercúrio, chumbo e outros contaminantes pode proteger o desenvolvimento cerebral infantil e reduzir déficits cognitivos ao longo da vida. Além disso, restrições ao uso de pesticidas altamente tóxicos demonstraram potencial para reduzir suicídios por autoenvenenamento em diversos países.

Sendo assim, os pesquisadores sugeriram que indicadores como taxas de suicídio, internações por intoxicação aguda, marcos do desenvolvimento infantil e prevalência de transtornos do neurodesenvolvimento devam ser incorporados aos sistemas de monitoramento desses tratados.

2. Prioridade intermediária: Clima, biodiversidade e desertificação

Nesse grupo estão convenções cujos impactos sobre a saúde mental ocorrem de forma mais indireta, mas podem atingir grandes contingentes populacionais, incluindo:

Mudanças climáticas e degradação ambiental foram associadas a diversos desfechos negativos em saúde mental, como aumento dos casos de transtorno de estresse pós-traumático após desastres naturais, ansiedade e depressão, além de maior insegurança alimentar, migração forçada e perda de meios de subsistência.

Esses processos também podem provocar sofrimento relacionado à perda de territórios, vínculos culturais e modos de vida tradicionais, bem como contribuir para o surgimento da chamada ecoansiedade.

Sendo assim, Kumar et al., (2026) propuseram que estratégias nacionais de adaptação climática e conservação da biodiversidade incluam indicadores de saúde mental e necessidades psicossociais das populações afetadas.

3. Baixa prioridade: Proteção atmosférica

A Convenção de Viena e o Protocolo de Montreal foram classificados como de menor prioridade para a saúde mental. Embora contribuam para a estabilidade ambiental e para melhores condições de saúde e qualidade de vida, seus efeitos sobre a saúde mental são indiretos e mais difíceis de mensurar.

Nível transversal: Direitos humanos

Além disso, Kumar et al., (2026) destacaram o papel das convenções internacionais de direitos humanos, especialmente aquelas voltadas para crianças e pessoas com deficiência, como instrumentos capazes de fortalecer a proteção de grupos mais vulneráveis aos impactos ambientais. Esses documentos devem promover o maior acesso aos serviços de saúde mental, a participação nos processos de tomada de decisão e a redução das desigualdades relacionadas à exposição a riscos ambientais.

Conclusão

Os autores defenderam a incorporação da saúde mental às políticas e tratados ambientais, com a inclusão de indicadores relacionados a transtornos mentais, desenvolvimento neurocognitivo e impactos psicossociais de desastres, insegurança alimentar e deslocamentos populacionais. Segundo Kumar et al., (2026), a integração entre os setores de saúde, meio ambiente e desenvolvimento sustentável, aliada ao fortalecimento dos instrumentos de direitos humanos, pode ampliar o papel das políticas ambientais na prevenção de transtornos mentais, contribuindo para a redução de vulnerabilidades, a promoção do bem-estar psicológico e o fortalecimento da resiliência das populações frente aos desafios ambientais.