A dermatite atópica (DA) é uma condição inflamatória crônica da pele que se manifesta frequentemente na infância, sendo capaz de afetar até 20% das crianças e com potencial para persistir na vida adulta. As suas características clínicas englobam um curso recidivante com lesões eczematosas, xerose, prurido intenso e uma predisposição genética para a atopia. No entanto, ainda não há certeza se a DA constitui uma condição singular ou um espectro de distúrbios com manifestações semelhantes.
A colonização por Staphylococcus aureus e a complexa interação de fatores imunológicos, genéticos e ambientais (fatores SAIGE) são contribuições essenciais para a patogênese da DA. Em crianças, a colonização por S. aureus induz prurido, disfunção da barreira e inflamação. Essa colonização pode preceder o início da dermatite atópica em crianças, sugerindo um papel causal em surtos e exacerbações.
Para destacar o papel do S. aureus na patogênese da DA pediátria, com foco na exacerbação da doença, um painel de especialistas em dermatologia pediátrica desenvolveu seis declarações de consenso. Abaixo, a equipe da IntraMed Brasil realizou um resumo das declarações do SAIGE II: The Role of Staphylococcus aureus in Skin Barrier Dysfunction and the Development and Severity of Atopic Dermatitis in Young Children.
A declaração 1 abordou a descrição comum da DA como "uma coceira que resulta em erupção cutânea", refletindo a observação de que o prurido pode preceder os sinais visíveis de inflamação em muitos pacientes. Esse sintoma representa um fardo substancial para os pacientes, com impacto considerável na qualidade de vida e no isolamento social. Além de ser oneroso, o prurido é um fator chave na patogênese e progressão da DA. Evidências recentes indicaram que o S. aureus desempenha um papel central no ciclo de coceira-arranhadura-inflamação, e que o prurido induzido pela bactéria leva à inflamação.
A declaração 2 estabelece que o S. aureus é um dos quatro fatores interconectados (SAIGE: S. aureus, Imunológicos, Genéticos e Ambientais) que influenciam o desenvolvimento da DA em recém-nascidos, lactentes e crianças. A colonização bacteriana é crítica para a disfunção da barreira cutânea, sendo particularmente importante no início da DA infantil.
A declaração 3 detalhou que a colonização da pele com DA pelo S. aureus foi associada a múltiplas disfunções fisiológicas que podem exacerbar a condição. Essas incluem a força de adesão entre S. aureus e corneócitos, a liberação de proteases, a deficiência de peptídeos antimicrobianos, a redução dos níveis de filagrina e seus produtos de degradação, a superexpressão de citocinas Th2/Th17, perfis lipídicos alterados e disbiose microbiana. O supercrescimento de S. aureus contribui para a disfunção da barreira por meio de fatores de virulência. A maior abundância dessa bactéria e a redução da diversidade da microbiota precedem e causam crises e exacerbação da DA.
A declaração 4 postulou que as toxinas do S. aureus não apenas desencadeiam o prurido, mas também contribuem para a apoptose de queratinócitos e defeitos na barreira cutânea, exacerbando a DA. Especificamente, a superexpressão de proteases, como a V8, e toxinas afetam os queratinócitos e estimulam respostas pró-inflamatórias. Essa disfunção da barreira cutânea facilita o crescimento de patógenos e desempenha um papel crítico em complicações infecciosas, como impetigo e celulite.
A declaração 5 apoiou o uso diário e precoce de hidratantes, demonstrando que pode reduzir ou retardar o início da DA. A redução da colonização por S. aureus e a restauração do microbioma e da barreira cutânea são essenciais para resolver crises e controlar a doença. Estudos clínicos indicaram que a hidratação precoce em neonatos e lactentes em alto risco reduz substancialmente a incidência de DA.
Finalmente, a declaração 6 afirmou que o uso de hidratantes contendo ceramidas tem demonstrado reduzir a disfunção da barreira, o prurido e a vermelhidão, além de melhorar os resultados clínicos e a qualidade de vida associados à DA. A sua aplicação pode diminuir a colonização por S. aureus, melhorar a função da barreira cutânea, a gravidade da DA e prolongar os períodos de remissão entre as crises. Assim, os cuidados com a pele continuam sendo a única abordagem que melhora simultaneamente a função de barreira, o prurido e a gravidade da DA, sendo recomendados como prevenção e tratamento complementar ao controle da inflamação.