| Introdução |
A pressão arterial elevada é um dos principais contribuintes para doenças cardiovasculares (DCV) e mortes prematuras, superando outros fatores de risco conhecidos. Para combater o crescente impacto da hipertensão, é fundamental identificar fatores de risco modificáveis, tanto em nível individual quanto populacional. As Diretrizes de 2021 da Sociedade Europeia de Cardiologia sobre a prevenção de DCV destacaram exposições ambientais, como poluição do ar e níveis elevados de ruído, como fatores de risco modificáveis para doenças cardiovasculares.
Desde 2010, o ruído do tráfego tem sido reconhecido como um importante fator de risco ambiental para DCV. A exposição crônica a esse pode desencadear diversas adaptações fisiopatológicas, como aumento da frequência cardíaca, do débito cardíaco e da pressão arterial, que podem evoluir para DCV.
Uma análise transversal recente indicou que a exposição prolongada ao ruído do tráfego rodoviário acima de 65 dB[A] foi associada a aumentos pequenos, mas estatisticamente significativos, na pressão arterial sistólica e diastólica, conforme observado na coorte do UK Biobank. Com base nesses achados, Huang e colaboradores (2023) conduziram uma análise prospectiva que investigou a associação entre a exposição prolongada ao ruído do tráfego rodoviário residencial e a incidência de hipertensão primária nessa mesma coorte.
| Métodos |
Nesta análise, o ruído do tráfego rodoviário foi estimado no endereço residencial dos participantes utilizando o modelo do método comum de avaliação de ruído. A hipertensão incidente foi identificada por meio de registros médicos. Para estimar as taxas de risco (HRs) da associação, foram utilizados modelos de risco proporcional de Cox, aplicados a uma amostra analítica de mais de 240.000 participantes que estavam livres de hipertensão no início do estudo. Os ajustes nos modelos foram feitos com base em covariáveis determinadas por um gráfico acíclico direcionado.
| Resultados |
Ao longo de um acompanhamento médio de 8,1 anos, foram identificados 1.140 casos de hipertensão primária incidente (Classificação Internacional de Doenças - 10ª Revisão [CID-10]: I10). O aumento de 10 dB[A] na exposição média ponderada de 24 horas ao ruído do tráfego rodoviário (Lden) foi associado a um HR de 1,07 (IC 95%: 1,02-1,13). Observou-se uma relação dose-resposta, com HR de 1,13 (IC 95%: 1,03-1,25) para níveis de Lden superiores a 65 dB[A] em comparação com ≤55 dB[A] (P para tendência <0,05). Todas as associações permaneceram robustas após o ajuste para partículas finas (PM 2,5) e dióxido de nitrogênio (NO2). Além disso, a combinação de alta exposição ao ruído do tráfego rodoviário e à poluição do ar foi associada a um risco ainda maior de hipertensão.
| Conclusão |
Sendo assim, o estudo constatou que a exposição residencial de longo prazo ao ruído do tráfego rodoviário foi associada a um risco elevado de hipertensão primária incidente. Além disso, os efeitos foram exacerbados por níveis mais altos de poluição do ar. Dada a presença onipresente do ruído do tráfego rodoviário e da poluição do ar, essas descobertas destacaram a importância de minimizar a exposição ao ruído do tráfego rodoviário e aos níveis de poluição do ar.