| Introdução |
A microbiota intestinal (MI) desempenha diversas funções vitais no hospedeiro, incluindo proteção contra patógenos, colonização da superfície mucosa e produção de uma variedade de substâncias antimicrobianas. Esses benefícios são alcançados por meio da homeostase na relação bactéria-hospedeiro, um equilíbrio delicado que pode ser rompido, levando à disbiose.
A disbiose pode surgir do crescimento excessivo de patobiontes, da redução de bactérias comensais ou da diminuição da diversidade microbiana, o que pode ter efeitos negativos na permeabilidade intestinal, digestão, metabolismo e respostas imunológicas do hospedeiro. Diversos fatores intrínsecos e ambientais podem contribuir para o seu desenvolvimento, como dieta, tipo de parto, uso de medicamentos, idade e a presença de doenças subjacentes.
Métodos de avaliação da MI, como análises metagenômicas, podem identificar disbiose, mas sua aplicação clínica é limitada devido à complexidade e ao custo. Há uma necessidade crescente de ferramentas práticas e acessíveis para identificar seu o risco, auxiliando na tomada de decisões clínicas e em intervenções terapêuticas direcionadas à modulação da microbiota. Uma abordagem promissora nesse campo é o desenvolvimento de ferramentas subjetivas de triagem que reflitam o risco de disbiose intestinal. Essas permitiriam identificar indivíduos que poderiam se beneficiar de análises mais detalhadas do perfil genético da MI, além de auxiliar na avaliação de fatores de risco modificáveis associados à disbiose.
O Dysbiosis Frequent Questions Management (DYS/FQM) foi desenvolvido com base em fatores de risco associados à disbiose relatados na literatura, abrangendo estilo de vida, histórico médico, saúde intestinal e hábitos alimentares. Cada variável do questionário foi pontuada arbitrariamente com base em sua presença, ausência ou frequência de exposição. Utilizando dados objetivos obtidos por metagenômica intestinal como referência, Balmant e colaboradores (2023) realizaram um estudo com o objetivo de avaliar e aprimorar o desempenho do questionário DYS/FQM. Além disso, tiveram como objetivo desenvolver uma nova e mais eficaz ferramenta (Dys-R).
| Métodos |
Os autores realizaram um estudo prospectivo, observacional e transversal. Eles recrutaram 167 pacientes com doenças crônicas (DC) e 52 voluntários saudáveis. Dados sociodemográficos, antropométricos, de composição corporal, estilo de vida, histórico médico, saúde intestinal e hábitos alimentares foram coletados. O perfil da microbiota intestinal (GM) foi avaliado a partir de amostras fecais utilizando o sequenciamento do gene 16S rRNA. As pontuações da nova ferramenta (Questionário Dys-R) foram atribuídas utilizando técnicas de otimização discreta. A associação entre as pontuações do Dys-R e o risco de disbiose foi avaliada por meio de correlação, modelos lineares simples, sensibilidade, especificidade, bem como valores preditivos positivos e negativos.
| Resultados |
O grupo DC apresentou maior prevalência de nascimento por cesariana, consumo de açúcar refinado ou adoçantes artificiais mais de uma vez ao dia, prática de atividade física por menos de 150 minutos por semana e uso recente de antibióticos nos últimos 3 meses. Além disso, os indivíduos relataram maior uso contínuo de mais de 3 medicamentos, realização de tratamentos ou monitoramento de condições de saúde e alterações nos padrões das fezes (líquidas e endurecidas).
Em relação à análise da diversidade alfa (α), não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas nos grupos. Quando analisado a diversidade beta (β), embora tenha sido observada uma diferença de 16,9% na estrutura geral da população bacteriana entre os grupos, essa dissimilaridade não atingiu significância estatística. Adicionalmente, a razão Firmicutes/Bacteroidetes (F/B) também não apresentou diferença expressiva.
Os filos mais predominantes da microbiota intestinal (GM) foram Bacteroidetes, Firmicutes, Proteobacteria, Verrucomicrobia, Actinobacteria, Fusobacteria, Lentisphaerae, Synergistetes, Elusimicrobia, Tenericutes e Epsilonbacteraeota. Notavelmente, não foram observadas diferenças significativas entre os grupos em relação a esses.
O índice Chao1 é um estimador de riqueza de espécies, que identifica espécies que podem estar presentes, mas não detectadas em sua amostra devido à baixa abundância. Ele considera espécies raras — aquelas observadas apenas uma ou duas vezes — para estimar o número total real de espécies. Considerando a sua relevância para distinguir o grupo DC dos voluntários saudáveis, essa medida foi selecionada como o principal indicador para identificar o risco de disbiose. O escore obtido no questionário DYS/FQM pelo grupo DC foi significativamente diferente dos voluntários e apresentou uma fraca correlação inversa com o Índice Chao1. A sensibilidade e especificidade do questionário foram 55% e 55%, respectivamente.
| Dys-R |
O modelo Dys-R foi desenvolvido utilizando perguntas de resposta binária derivadas do questionário adaptado DYS/FQM, com foco em fatores de estilo de vida, histórico médico, saúde intestinal e hábitos alimentares. Esse foi composto por 7 perguntas na qual a pontuação para cada questionamento foi de 0 a 3, sendo 0 respostas negativas.

Imagem 1: Questionário Dys-R com valores atribuídos por otimização discreta. Imagem adaptada de Balmant e colaboradores (2023).
A sensibilidade e a especificidade deste questionário foram determinadas em 42% e 82%, respectivamente. O ponto de corte identificado foi 8, indicando que indivíduos com um escore final acima desse valor estariam em risco de disbiose. Além disso, houve uma associação significativa entre o escore Dys-R e o Índice Chao1.
Em conclusão, o questionário Dys-R, baseado em um conjunto refinado de perguntas, apresenta uma abordagem nova e promissora para triagem de disbiose associada à baixa riqueza de microbiota intestinal (GM) em um ambiente clínico. Ele se destaca pela alta especificidade e valor preditivo positivo, que são atributos essenciais em uma ferramenta de triagem. A natureza de fácil utilização do questionário Dys-R favorece sua aplicabilidade.