| Introdução |
A escabiose, também conhecida como sarna, é uma dermatose causada pelo ácaro ectoparasitário Sarcoptes scabiei var. hominis. Sua prevalência global é estimada em aproximadamente 200 milhões de casos. Para seu diagnóstico, a Aliança Internacional para o Controle da Escabiose (IACS) estabeleceu critérios diagnósticos de consenso em 2020, dividindo a condição em três categorias: escabiose confirmada (visualização direta do ácaro ou de seus produtos), escabiose clínica (presença de sinais dermatológicos característicos associados a dados históricos relevantes) e escabiose suspeita (indícios menos específicos, porém sensíveis).
As manifestações cutâneas mais comuns da escabiose incluem pequenas pápulas, embora também possam ocorrer nódulos maiores, túneis, vesículas e lesões pustulares. Essas alterações resultam tanto da atividade direta e localizada dos ácaros quanto de reações de hipersensibilidade aos seus produtos. A distribuição corporal das lesões é uma característica essencial da apresentação clínica da escabiose, frequentemente afetando áreas como dedos, mãos, espaços interdigitais, punhos, braços, axilas, pés, tornozelos, pernas, virilha, nádegas, mamas femininas e genitais masculinos.
Nesta revisão, Osti e colaboradores (2022) realizaram uma revisão detalhada, investigando a distribuição corporal das lesões em indivíduos com escabiose. O estudo analisou diferenças de distribuição conforme o sexo e a idade e, adicionalmente, avaliou a precisão diagnóstica de exames focados em regiões específicas da pele.
| Métodos |
Para isto, foi conduzido um estudo prospectivo e transversal envolvendo indivíduos de todas as faixas etárias que atenderam aos critérios de elegibilidade. A avaliação incluiu o exame de toda a superfície cutânea, com registro detalhado da presença e do número de lesões típicas de escabiose em 98 locais topográficos do corpo, organizados em 5 regiões principais e 16 sub-regiões.
A distribuição das lesões foi analisada considerando-se os diferentes locais, regiões e sub-regiões, além de serem avaliadas possíveis variações relacionadas à idade e ao sexo dos participantes. Também foi calculada a sensibilidade esperada de exames realizados em áreas limitadas do corpo, comparando sua eficácia diagnóstica com o exame completo. Para a análise e visualização dos resultados, foram utilizados mapas coropléticos, que forneceram descrições detalhadas e ilustrativas da distribuição das lesões cutâneas.
| Resultados |
Um total de 467 indivíduos foram incluídos no estudo (idade média: 9 anos, variando de 0 a 86 anos; 54,6% mulheres). Entre os participantes, 269 (57,6%) apresentaram lesões típicas de escabiose. Os locais mais frequentemente afetados foram os dedos dorsais (65,7% dos casos), os espaços dorsais dos dedos (62,1%) e as mãos dorsais (61,7%).
Entre as crianças menores de 2 anos com escabiose, 30,8% apresentaram lesões na região da cabeça e pescoço, enquanto essa proporção foi de 10,8% em crianças de 2 a 5 anos. Lesões genitais foram significativamente mais comuns em homens do que em mulheres (27,3% vs. 7%; risco relativo: 3,9; intervalo de confiança de 95%: 1,2–2,1).
Os resultados indicaram que exames simplificados e focados podem alcançar uma sensibilidade muito alta em comparação com o exame de corpo inteiro, sendo estimada em 93,3% quando limitados às mãos e pulsos, e em 99,3% quando abrangem braços e pernas expostos.

Figura 1. Mapas coropléticos mostrando a porcentagem de participantes com lesões de escabiose que apresentavam lesões em cada local individual. Imagem adaptada de Osti, M. et al. (2022).
| Conclusão |
Em conclusão, este estudo apresentou dados inéditos e altamente detalhados sobre a distribuição corporal das lesões de escabiose, destacando que as mãos foram as regiões mais comumente afetadas. Além disso, foram identificadas diferenças significativas na distribuição das lesões de acordo com a idade e o sexo. Os resultados reforçaram as recomendações dos critérios diagnósticos estabelecidos pela IACS em 2020, referentes à distribuição típica das lesões.
Adicionalmente, os achados demonstraram a eficácia dos exames focados como uma alternativa viável em situações em que o diagnóstico individual completo não é necessário, oferecendo uma abordagem prática em contextos específicos. Por fim, para o futuro, as prioridades de pesquisa incluem o desenvolvimento de novos métodos diagnósticos objetivos para a escabiose e a avaliação da implementação de exames focados em estudos de prevalência, visando aprimorar a precisão e eficiência no manejo dessa condição.