| Introdução |
Nas últimas décadas, diversas evidências têm ressaltado diferenças significativas entre mulheres e homens na manifestação de doenças cardiovasculares (DCVs) comuns. Observa-se que, embora ambos os sexos sejam afetados pelos mesmos tipos de DCVs, as mulheres geralmente apresentam início tardio e sintomas frequentemente atípicos. No caso específico da doença cardíaca isquêmica (DIC) e da insuficiência cardíaca (IC), tornou-se evidente que as mulheres têm maior predisposição a desenvolver disfunção microvascular coronária (DMC) e insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp), especialmente em associação com fatores de risco vasculares, como hipertensão.
Essas observações sugerem que a fisiopatologia cardiovascular pode ser intrinsecamente distinta entre os sexos. Para aprofundar o entendimento dessas diferenças, Hongwei e colaboradores (2020) realizaram uma análise abrangente e específica por sexo das trajetórias de pressão arterial (PA) ao longo da vida. Esta abordagem é relevante porque a elevação da PA, amplamente mensurada na comunidade, é uma métrica acessível para avaliar o envelhecimento vascular, além de ser um dos principais fatores de risco para DIC e IC em ambos os sexos.
| Métodos |
Para isto, os pesquisadores utilizaram dados populacionais provenientes de múltiplos estudos de coorte. As análises, realizadas de forma específica por sexo, basearam-se em 144.599 observações longitudinais de pressão arterial coletadas ao longo de 43 anos, entre 1971 e 2014, em quatro estudos de coorte comunitários nos Estados Unidos. O conjunto de dados incluía um total de 32.833 participantes, dos quais 54% eram mulheres, com idades variando entre 5 e 98 anos. A análise dos dados foi conduzida entre 4 de maio e 5 de agosto de 2019.
| Resultados |
Dos 32.833 participantes, 17.733 eram mulheres. As mulheres, em comparação com os homens, exibiram um aumento mais acentuado na PA que começou já na terceira década e continuou ao longo do curso da vida (teste de razão de verossimilhança χ 2 = 531 para PA sistólica; χ 2 = 123 para PA diastólica; χ 2 = 325 para PAM; e χ 2 = 572 para PP; P para todos <.001). Após o ajuste para múltiplos fatores de risco de doença cardiovascular, essas diferenças entre os sexos em todas as trajetórias da PA persistiram (teste de razão de verossimilhança χ 2 = 314 para PA sistólica; χ 2 = 31 para PA diastólica; χ 2 = 129 para PAM; e χ 2 = 485 para PP; P para todos <.001).
| Conclusão |
Em contraste com a ideia amplamente difundida de que os processos vasculares em mulheres se desenvolvem 10 a 20 anos mais tarde do que nos homens, as análises específicas por sexo revelaram que as trajetórias de pressão arterial progridem de forma mais acelerada em mulheres, com início precoce na vida. Esse dismorfismo sexual precoce pode estabelecer as bases para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares em estágios mais avançados, que frequentemente se manifestam de maneira distinta nas mulheres em comparação aos homens. Portanto, investigações futuras são essenciais para aprofundar a compreensão das diferenças sexuais no risco cardiovascular, permitindo assim o aprimoramento das estratégias de prevenção e manejo direcionadas para mulheres e homens de forma mais eficaz.