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/ Published on January 27, 2025

Eixo intestino-pulmão

O impacto da DRGE nos resultados da doença pulmonar intersticial

Estudo revela como o refluxo gastroesofágico e o tratamento com anti-refluxos podem influenciar a sobrevida de pacientes com esclerose sistêmica e doenças pulmonares intersticiais

Author: Quinlivan, A., Neuen, D., Hansen, D. et al.

Fuente: Arthritis Research & Therapy, v. 26, n. 124, 2024 The impact of gastroesophageal reflux disease and its treatment on interstitial lung disease outcomes

Introdução

A esclerose sistêmica (SSc) é uma doença autoimune caracterizada por mecanismos patológicos de vasculopatia, fibrose e formação de autoanticorpos. A doença gastrointestinal (GI) foi relatada em mais de 90% dos pacientes, com a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) sendo a mais frequentemente descrita. Alguns estudos sugeriram que o refluxo pode desempenhar um papel no desenvolvimento de doenças pulmonares intersticiais (DPI) por meio do processo de microaspiração recorrente. A patogênese exata dessa associação é desconhecida, no entanto, foi demonstrado que a exposição do epitélio pulmonar ao conteúdo gástrico promove a fibrose das células epiteliais das vias aéreas e a proliferação aumentada de fibroblastos. Na SSc, o risco de aspiração de conteúdo gástrico é alto devido à combinação de dismotilidade esofágica, esfíncter esofágico inferior (EEI) hipotenso e motilidade gástrica retardada.

A DPI é a principal causa de morte na SSc, com alguns estudos mostrando uma associação entre a presença de DRGE e/ou dismotilidade esofágica e DPI. O tratamento da DRGE com inibidores da bomba de prótons (IBP) ou antagonistas dos receptores de histamina 2 (H2RA) é recomendado. Se esses medicamentos impactam o desenvolvimento ou a progressão da DPI é desconhecido.

Por isso, Neuen e colaboradores (2024) realizaram um estudo com objetivo de avaliar a relação entre a SSc-DPI e a DRGE e analisar o impacto dos medicamentos anti-refluxo (IBP e H2RA) nos resultados e sobrevida desses pacientes.

Métodos

Incluiu-se pacientes com SSc do Estudo de Coorte Australiano de Esclerodermia (ASCS). A DRGE foi definida como sintomas autossignificados, terapia com inibidor da bomba de prótons (IBP) ou antagonista dos receptores de histamina 2 (H2RA) e/ou a presença de esofagite por refluxo diagnosticada endoscopicamente. O impacto da DRGE e seu tratamento nas características da DPI (incluindo gravidade e tempo para o desenvolvimento da DPI) e na sobrevida foi avaliado.

O Modified Rodnan Skin Score (mRSS) foi uma ferramenta usada para avaliar a extensão da fibrose cutânea em pacientes com SSc. Essa dermatose é uma característica central da doença autoimune, e o mRSS é uma medida importante para monitorar a gravidade e o progresso da doença, além de ser um marcador de resposta ao tratamento.

Resultados

Foram incluídos dados de 1.632 pacientes com SSc. A maioria era do sexo feminino (85%) e apresentava o subtipo de doença limitada (74%). A positividade para autoanticorpos anti-centrômero foi observada em 46% dos pacientes, com 15% positivos para o anticorpo anti-Scl-70.

A DRGE afetou 1.539 (94%) da coorte de SSc. Ao comparar aqueles com refluxo com aqueles sem (controle), não houve diferença significativa em idade, sexo, subtipo de doença ou perfil de autoanticorpos. Aqueles com DRGE tinham uma duração maior da doença SSc (7,3 vs 3,8 anos, p = 0,001), um mRSS mais alto (oito vs seis, p = 0,0004), e uma maior frequência de contraturas articulares (43% vs 25%, p = 0,0004) e úlceras digitais (47% vs 26%, p < 0,0001), quando comparados ao grupo controle. Não houve diferença na frequência de manifestações cardiopulmonares, miosite ou calcinoses. Em termos de manifestações GI, aqueles com DRGE eram mais propensos a relatar uma variedade de outras manifestações, incluindo disfagia, diarreia, constipação e incontinência fecal. Por fim, dos com refluxo, 90% estavam em tratamento com IBP ou H2RA ou terapia combinada.

O refluxo afetou 96% da coorte de SSc-DPI. Ao comparar os participantes com DPI e DRGE com aqueles sem DRGE, não houve diferença significativa em sexo ou perfil de autoanticorpos. Aqueles com DRGE eram mais jovens, tinham um mRSS mais alto e uma maior frequência do subtipo de doença difusa, contraturas articulares e úlceras digitais.

Em participantes com DRGE e DPI, 66% foram tratados com terapia com um único agente, 27% estavam em terapia combinada com IBP e H2RA, enquanto 7% não foram prescritos agentes anti-refluxo. Tanto tratamento da DRGE com IBP isolado, quanto o duplo (IBP E H2RA), foi associado a uma melhora significativa na sobrevida dos participantes.

Conclusão

A DRGE é uma complicação comum na esclerodermia sistêmica, afetando até 94% dos pacientes. O tratamento da doença gástrica com IBP ou sua combinação com H2RA tem o potencial de melhorar a sobrevida em pacientes com SSc-DPI.