Na obstetrícia, a palavra bebê muitas vezes é evitada. O termo é considerado carregado de significado para algo tão fluido e potencialmente transitório quanto uma gravidez. Por isso, durante grande parte da gestação, profissionais são orientados a utilizar termos clínicos como embrião e feto, reservando a palavra bebê para momentos em que o nascimento de uma criança viva pareça mais provável.
A lógica por trás disso é relativamente simples. Conceber um conjunto de células como um bebê pode atribuir uma identidade que ele ainda não possui. Nesse contexto, a linguagem clínica ajuda a evitar estigmas e busca proteger pacientes de um envolvimento emocional excessivo diante de uma realidade em que uma gestação pode terminar ou ser interrompida a qualquer momento.
Essa visão acompanhou o especialista em medicina materno-fetal Luke P. Burns durante anos de prática profissional. Acostumado a lidar com gestações de alto risco, diagnósticos complexos e decisões difíceis relacionadas à continuidade da gravidez, ele via a precisão da linguagem como parte fundamental do cuidado médico. Essa perspectiva, porém, começou a ser transformada quando ele e sua esposa iniciaram a própria jornada pela fertilização in vitro.
O tratamento parecia essencialmente mecânico, marcado por exames, hormônios e procedimentos cuidadosamente planejados. Após duas coletas de óvulos, o casal obteve seis embriões. Eram apenas pequenos agrupamentos de células, quase invisíveis ao microscópio, mas, apesar de todo o conhecimento técnico que possuía, Burns relatou que passou a se preocupar com eles como qualquer futuro pai se preocuparia.
Aos poucos, aqueles embriões deixaram de representar apenas potencial biológico. O especialista se viu imaginando futuros possíveis, personalidades, experiências e tudo aquilo que poderia surgir a partir deles. Naquelas pequenas estruturas celulares, enxergava não apenas material genético, mas também parte de sua história e da história de sua esposa, carregando traços de suas identidades, características e expectativas.
Essa perspectiva não é simples para quem atua na obstetrícia de alto risco. Grande parte do trabalho exige certo distanciamento emocional diante de diagnósticos devastadores. Malformações graves, condições incompatíveis com a vida e outras complicações severas fazem parte da rotina desses profissionais.
Em algumas situações, explicou o especialista, a interrupção da gravidez também pode ser recomendada para preservar a vida da paciente. Embora a especialidade seja denominada medicina materno-fetal, a prioridade é sempre a gestante. Nesse contexto, recorda uma frase ouvida durante a residência médica: “a morte atravessa a placenta”. A expressão, direta e desconfortável, resume a impossibilidade de proteger o feto quando a vida da mãe está em risco.
No dia da transferência embrionária, Burns procurou manter as expectativas sob controle. O procedimento correu conforme o planejado e, ao deixar a clínica, o casal recebeu uma imagem de ultrassom com um pequeno ponto brilhante representando o embrião transferido. Apesar de ambos terem tentado manter os pés no chão, era impossível não alimentar alguma esperança.
Duas semanas depois, porém, a gravidez terminou em aborto espontâneo.
A perda foi descrita pela equipe como uma “gravidez bioquímica”, termo utilizado para gestações que se interrompem muito precocemente. Para Burns, embora essa nomenclatura tenha a intenção de suavizar a experiência e evitar termos emocionalmente mais carregados, como aborto espontâneo ou perda fetal, a expressão parecia clínica, impessoal e insuficiente para traduzir o sofrimento vivido pelo casal.
A experiência provocou uma mudança profunda em sua percepção sobre as perdas gestacionais precoces. Até então, costumava considerar as perdas do primeiro trimestre como algumas das situações menos dolorosas que um obstetra precisava comunicar. Afinal, tratava-se de eventos frequentes e, do ponto de vista médico, geralmente seguros de manejar. Além disso, eram gestações extremamente iniciais, ainda distantes da imagem que muitas pessoas associam a um bebê.
No entanto, a vivência pessoal revelou uma dimensão da experiência humana que os conceitos clínicos não capturam completamente. O fato de uma gestação ser breve ou biologicamente simples não a torna necessariamente menos significativa para quem a vivencia.
Em uma consulta posterior, Burns observou o histórico obstétrico da esposa registrado pela sigla G1P0, classificação utilizada para indicar uma gravidez e nenhum parto. Embora fosse apenas uma anotação médica, aquele registro lhe pareceu uma frase inacabada. O casal passou a se perguntar: “Quantos outros ‘Gs’ seriam necessários para finalmente alcançar um ‘P’?”
Ao refletir sobre sua experiência, o doutor reconheceu uma das principais tensões da prática médica: a gravidez, a infertilidade e a perda gestacional frequentemente escapam das categorias objetivas que a medicina busca estabelecer. Médicos dependem de protocolos, definições precisas e classificações claras. São ferramentas essenciais para a prática clínica e para a comunicação científica.
Mas nem tudo se encaixa perfeitamente nesses limites.
Burns continua acreditando na ciência, nas definições médicas e na importância da linguagem técnica. Ao mesmo tempo, reconhece que algumas experiências humanas resistem a essas categorias.
Em seu relato, sustentou tanto a importância do acesso ao aborto quando indicado ou desejado pela paciente quanto a legitimidade do luto pelo embrião que perdeu. Para ele, essas ideias não são contraditórias, mas coexistem em uma tensão permanente.
Em síntese, o relato do Dr. Luke P. Burns sugeriu que, embora a medicina dependa de classificações e definições objetivas, nem todos os aspectos da gravidez, da infertilidade e da perda gestacional podem ser plenamente explicados por elas. Algumas vivências permanecem em um espaço intermediário, onde a realidade emocional ultrapassa os limites da linguagem clínica e onde certas experiências humanas simplesmente se recusam a ser reduzidas a uma definição.
Publicado el 25 de septiembre de 2026
Linguagem clínica
Quando a linguagem médica encontra os limites da experiência humana
Uma reflexão pessoal do Dr. Luke P. Burns sobre fertilidade, perda gestacional, aborto e os limites da linguagem clínica para traduzir as experiências emocionais que cercam a gravidez.
Autor/a: Burns LP.
Fuente: JAMA. 2026;336(12):1008–1009. Nomenclature
Na obstetrícia, a palavra bebê muitas vezes é evitada. O termo é considerado carregado de significado para algo tão fluido e potencialmente transitório quanto uma gravidez. Por isso, durante grande parte da gestação, profissionais são orientados a utilizar termos clínicos como embrião e feto, reservando a palavra bebê para momentos em que o nascimento de uma criança viva pareça mais provável.
A lógica por trás disso é relativamente simples. Conceber um conjunto de células como um bebê pode atribuir uma identidade que ele ainda não possui. Nesse contexto, a linguagem clínica ajuda a evitar estigmas e busca proteger pacientes de um envolvimento emocional excessivo diante de uma realidade em que uma gestação pode terminar ou ser interrompida a qualquer momento.
Essa visão acompanhou o especialista em medicina materno-fetal Luke P. Burns durante anos de prática profissional. Acostumado a lidar com gestações de alto risco, diagnósticos complexos e decisões difíceis relacionadas à continuidade da gravidez, ele via a precisão da linguagem como parte fundamental do cuidado médico. Essa perspectiva, porém, começou a ser transformada quando ele e sua esposa iniciaram a própria jornada pela fertilização in vitro.
O tratamento parecia essencialmente mecânico, marcado por exames, hormônios e procedimentos cuidadosamente planejados. Após duas coletas de óvulos, o casal obteve seis embriões. Eram apenas pequenos agrupamentos de células, quase invisíveis ao microscópio, mas, apesar de todo o conhecimento técnico que possuía, Burns relatou que passou a se preocupar com eles como qualquer futuro pai se preocuparia.
Aos poucos, aqueles embriões deixaram de representar apenas potencial biológico. O especialista se viu imaginando futuros possíveis, personalidades, experiências e tudo aquilo que poderia surgir a partir deles. Naquelas pequenas estruturas celulares, enxergava não apenas material genético, mas também parte de sua história e da história de sua esposa, carregando traços de suas identidades, características e expectativas.
Essa perspectiva não é simples para quem atua na obstetrícia de alto risco. Grande parte do trabalho exige certo distanciamento emocional diante de diagnósticos devastadores. Malformações graves, condições incompatíveis com a vida e outras complicações severas fazem parte da rotina desses profissionais.
Em algumas situações, explicou o especialista, a interrupção da gravidez também pode ser recomendada para preservar a vida da paciente. Embora a especialidade seja denominada medicina materno-fetal, a prioridade é sempre a gestante. Nesse contexto, recorda uma frase ouvida durante a residência médica: “a morte atravessa a placenta”. A expressão, direta e desconfortável, resume a impossibilidade de proteger o feto quando a vida da mãe está em risco.
No dia da transferência embrionária, Burns procurou manter as expectativas sob controle. O procedimento correu conforme o planejado e, ao deixar a clínica, o casal recebeu uma imagem de ultrassom com um pequeno ponto brilhante representando o embrião transferido. Apesar de ambos terem tentado manter os pés no chão, era impossível não alimentar alguma esperança.
Duas semanas depois, porém, a gravidez terminou em aborto espontâneo.
A perda foi descrita pela equipe como uma “gravidez bioquímica”, termo utilizado para gestações que se interrompem muito precocemente. Para Burns, embora essa nomenclatura tenha a intenção de suavizar a experiência e evitar termos emocionalmente mais carregados, como aborto espontâneo ou perda fetal, a expressão parecia clínica, impessoal e insuficiente para traduzir o sofrimento vivido pelo casal.
A experiência provocou uma mudança profunda em sua percepção sobre as perdas gestacionais precoces. Até então, costumava considerar as perdas do primeiro trimestre como algumas das situações menos dolorosas que um obstetra precisava comunicar. Afinal, tratava-se de eventos frequentes e, do ponto de vista médico, geralmente seguros de manejar. Além disso, eram gestações extremamente iniciais, ainda distantes da imagem que muitas pessoas associam a um bebê.
No entanto, a vivência pessoal revelou uma dimensão da experiência humana que os conceitos clínicos não capturam completamente. O fato de uma gestação ser breve ou biologicamente simples não a torna necessariamente menos significativa para quem a vivencia.
Em uma consulta posterior, Burns observou o histórico obstétrico da esposa registrado pela sigla G1P0, classificação utilizada para indicar uma gravidez e nenhum parto. Embora fosse apenas uma anotação médica, aquele registro lhe pareceu uma frase inacabada. O casal passou a se perguntar: “Quantos outros ‘Gs’ seriam necessários para finalmente alcançar um ‘P’?”
Ao refletir sobre sua experiência, o doutor reconheceu uma das principais tensões da prática médica: a gravidez, a infertilidade e a perda gestacional frequentemente escapam das categorias objetivas que a medicina busca estabelecer. Médicos dependem de protocolos, definições precisas e classificações claras. São ferramentas essenciais para a prática clínica e para a comunicação científica.
Mas nem tudo se encaixa perfeitamente nesses limites.
Burns continua acreditando na ciência, nas definições médicas e na importância da linguagem técnica. Ao mesmo tempo, reconhece que algumas experiências humanas resistem a essas categorias.
Em seu relato, sustentou tanto a importância do acesso ao aborto quando indicado ou desejado pela paciente quanto a legitimidade do luto pelo embrião que perdeu. Para ele, essas ideias não são contraditórias, mas coexistem em uma tensão permanente.
Em síntese, o relato do Dr. Luke P. Burns sugeriu que, embora a medicina dependa de classificações e definições objetivas, nem todos os aspectos da gravidez, da infertilidade e da perda gestacional podem ser plenamente explicados por elas. Algumas vivências permanecem em um espaço intermediário, onde a realidade emocional ultrapassa os limites da linguagem clínica e onde certas experiências humanas simplesmente se recusam a ser reduzidas a uma definição.